Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Comportamento
Separados no divã

Estudos mostram que a terapia
de casal pode não ser tão eficaz
quanto se pensava


Roberta Salomone

Mesmo quem nunca viveu a experiência conhece algum casal que já lavou roupa suja no consultório de um terapeuta. Para salvar uma relação que caminha para o abismo, maridos e mulheres se empenham na árdua tarefa de dividir o mesmo divã. Mas a tão sonhada solução da crise normalmente acaba sendo exatamente isso – um sonho: o tratamento pode não ser tão eficaz, como mostram pesquisas recentes da Universidade de Washington e da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e da Universidade de Ottawa, no Canadá. De acordo com os estudos, mais da metade dos que procuram a terapia não vê melhora em seu relacionamento. Dois anos depois do fim das sessões, um em cada quatro casais fica pior do que antes. E, depois de quatro anos, 38% resolvem assinar o divórcio (veja quadro acima). "Certas incompatibilidades já existem antes do casamento e muitas vezes são insolúveis. Quando isso acontece, fica muito complicado reverter esse quadro", justifica Ailton Amélio da Silva, doutor em relacionamento amoroso do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

A primeira visita de um casal a um terapeuta acontece depois de crises provocadas por situações comuns a qualquer família. Estudos da Universidade de Washington mostram que 67% dos casais passaram por uma crise conjugal quando foram pais pela primeira vez. Anos mais tarde, a saída do filho de casa também é razão para divergências entre maridos e mulheres no mundo todo. Algumas pesquisas apontam ainda um aumento da procura pela terapia de casal nos primeiros anos do casamento. Coincidência ou não, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o maior número de separações no Brasil ocorre aos dois anos de casamento. Mas, se a chegada ao consultório é tardia, nada mais pode ser feito além de apenas adiar o inevitável. Em média, são seis anos de brigas e discussões até a primeira sessão. "Antes de chegarem aqui, muitos já consultaram um advogado para a separação", diz o psicoterapeuta paulista Flávio Gikovate, que já atendeu cerca de 1.000 casais em 38 anos de profissão. "As pessoas não fazem exames rotineiros do coração? Deveriam visitar o terapeuta para fazer check-up do casamento também."

A frase é de efeito, mas, na prática, o sugerido "check-up" é quimera – só quando o ambiente está irrespirável se busca auxílio. Prestes a completarem cinco anos de união, o ator Brad Pitt e Jennifer Aniston procuraram ajuda para resolver a principal discordância entre eles: ter ou não ter filhos. Ele queria. Ela, nem pensar. Foi a última tentativa. Algumas sessões depois, os atores divulgaram a separação e Brad logo grudou no ombro mais do que amigo da bela Angelina Jolie. Antes de pensarem em dar um fim no relacionamento em 2001, a atriz Goldie Hawn e o ator Kurt Russell acenaram por socorro, assim como a cantora Mariah Carey e o então marido, o presidente da Sony Music, Tommy Mottola. "Não adiantou nada", disse Mariah. Na ocasião, ela confessou que a diferença de idade entre os dois – de 21 anos – atrapalhou a relação. O casal Bill e Hillary Clinton também freqüentou o consultório de um mesmo analista, depois da pulada de cerca do ex-presidente americano. Se foi uma vitória do amor, da terapia de casal ou dos interesses políticos de ambos, não se sabe, mas o fato é que resolveram ficar juntos.

Para evitar que o socorro chegue tarde demais, é preciso ficar atento aos sinais de alerta que denunciam que o casamento não vai bem (veja quadro ao lado). Falta prolongada de desejo sexual, desrespeito mútuo e ciúme excessivo são alguns dos possíveis prenúncios de um divórcio. Autor de vários livros sobre o assunto, o psiquiatra americano John Gottman analisou mais de 3.000 casais no chamado Love Lab (Laboratório do Amor) da Universidade de Washington. Segundo Gottman, brigas constantes também são um indicador de falência do relacionamento. Mas é preciso lembrar que todos os casais, sem exceção, brigam. A diferença está na maneira como as divergências são colocadas. Enquanto os pares felizes pontuam seus argumentos com bom humor, os infelizes se insultam e abusam dos gestos obscenos durante uma discussão. Se marido e mulher não aprendem a lidar com os problemas do dia-a-dia, dificilmente terão êxito com a terapia.

A boa comunicação do casal obviamente é ponto indispensável para o sucesso de uma terapia a dois, dizem os especialistas. Ou seja, se você não consegue estabelecer uma relação assim nem na frente do terapeuta, não hesite: corra para o advogado. "A falta de diálogo é o início do conflito de todo relacionamento. Exigir que o outro faça só o que se quer também é erro grave", diz a psicóloga paulista Eliete de Medeiros. Para enfrentar uma crise conjugal, é preciso querer ficar junto de verdade, mas muitos buscam a terapia porque não conseguem dar um ponto final no relacionamento. Entre os casais que atendeu, o psicólogo Ailton Amélio lembra-se de um que permaneceu em tratamento durante meses. Sem conseguir alcançar bons resultados, Amélio propôs atendimento individual aos dois. Separados, ambos confessaram que desejavam o fim do casamento. "O bom resultado independe de o casal continuar junto ou não. Ajudamos para que a decisão final seja feita de forma racional, e não passional", defende a psicanalista Magdalena Ramos, coordenadora do núcleo de casal e família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

A terapia de casal pode durar de uma única sessão (de uma hora e meia a duas horas) a um ano. O preço, salgado, varia de 120 a 500 reais por sessão. Mas, afinal, o que acontece dentro do consultório? Bem, depende do método. O tratamento pode ser feito, por exemplo, focando apenas as desavenças atuais. Ou retomando o passado da relação, sem que o terapeuta induza a conversa. Outro método é o psicodrama, em que se usa a dramatização, colocando um participante em situações do outro. Um dos mais populares é o chamado sistêmico, no qual se leva o restante da família (filhos e pais do casal) para a terapia. Em todos eles, a única coisa certa é o estridente barraco que surge entre os casais. Sai de baixo.

 

ÉRICA CORNACHIONE,
26 anos, professora de dança

Roberto Setton


"Quando resolvi casar não tinha nenhuma dúvida de que estava fazendo a escolha certa. Mas com menos de um ano de casamento as diferenças começaram a aparecer. O meu ex-marido era uma pessoa muito fechada e negativa. Eu tinha 20 anos e ele 40, e a diferença de idade entre nós começou a pesar. Pouco antes de completar dois anos de casamento, ele perdeu o emprego e entrou em depressão. As coisas ficaram ainda mais difíceis e ele acabou concordando que precisávamos da ajuda de um terapeuta de casal. Às vezes ele inventava uma desculpa para não ter de falar sobre os nossos problemas e não ia às sessões. Era complicado porque tocávamos nas feridas um do outro o tempo todo. Foram seis meses de terapia. Quando me dei conta de que ele não se esforçava para mudar, resolvi sair de casa e pedir a separação."

 

 
 
 
 
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