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Comportamento
Separados no divã
Estudos mostram que a terapia
de casal pode não ser tão eficaz
quanto se pensava

Roberta Salomone
Mesmo
quem nunca viveu a experiência conhece algum casal que já
lavou roupa suja no consultório de um terapeuta. Para salvar
uma relação que caminha para o abismo, maridos e mulheres
se empenham na árdua tarefa de dividir o mesmo divã.
Mas a tão sonhada solução da crise normalmente
acaba sendo exatamente isso um sonho: o tratamento pode não
ser tão eficaz, como mostram pesquisas recentes da Universidade
de Washington e da Universidade da Califórnia, nos Estados
Unidos, e da Universidade de Ottawa, no Canadá. De acordo
com os estudos, mais da metade dos que procuram a terapia não
vê melhora em seu relacionamento. Dois anos depois do fim
das sessões, um em cada quatro casais fica pior do que antes.
E, depois de quatro anos, 38% resolvem assinar o divórcio
(veja quadro acima). "Certas incompatibilidades já
existem antes do casamento e muitas vezes são insolúveis.
Quando isso acontece, fica muito complicado reverter esse quadro",
justifica Ailton Amélio da Silva, doutor em relacionamento
amoroso do Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo (USP).
A primeira visita de um casal
a um terapeuta acontece depois de crises provocadas por situações
comuns a qualquer família. Estudos da Universidade de Washington
mostram que 67% dos casais passaram por uma crise conjugal quando
foram pais pela primeira vez. Anos mais tarde, a saída do
filho de casa também é razão para divergências
entre maridos e mulheres no mundo todo. Algumas pesquisas apontam
ainda um aumento da procura pela terapia de casal nos primeiros
anos do casamento. Coincidência ou não, segundo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o maior número
de separações no Brasil ocorre aos dois anos de casamento.
Mas, se a chegada ao consultório é tardia, nada mais
pode ser feito além de apenas adiar o inevitável.
Em média, são seis anos de brigas e discussões
até a primeira sessão. "Antes de chegarem aqui, muitos
já consultaram um advogado para a separação",
diz o psicoterapeuta paulista Flávio Gikovate, que já
atendeu cerca de 1.000 casais em 38 anos de profissão. "As
pessoas não fazem exames rotineiros do coração?
Deveriam visitar o terapeuta para fazer check-up do casamento também."
A frase é de efeito, mas,
na prática, o sugerido "check-up" é quimera
só quando o ambiente está irrespirável se busca
auxílio. Prestes a completarem cinco anos de união,
o ator Brad Pitt e Jennifer Aniston procuraram ajuda para resolver
a principal discordância entre eles: ter ou não ter
filhos. Ele queria. Ela, nem pensar. Foi a última tentativa.
Algumas sessões depois, os atores divulgaram a separação
e Brad logo grudou no ombro mais do que amigo da bela Angelina Jolie.
Antes de pensarem em dar um fim no relacionamento em 2001, a atriz
Goldie Hawn e o ator Kurt Russell acenaram por socorro, assim como
a cantora Mariah Carey e o então marido, o presidente da
Sony Music, Tommy Mottola. "Não adiantou nada", disse Mariah.
Na ocasião, ela confessou que a diferença de idade
entre os dois de 21 anos atrapalhou a relação.
O casal Bill e Hillary Clinton também freqüentou o consultório
de um mesmo analista, depois da pulada de cerca do ex-presidente
americano. Se foi uma vitória do amor, da terapia de casal
ou dos interesses políticos de ambos, não se sabe,
mas o fato é que resolveram ficar juntos.
Para
evitar que o socorro chegue tarde demais, é preciso ficar
atento aos sinais de alerta que denunciam que o casamento não
vai bem (veja quadro ao lado). Falta prolongada de desejo
sexual, desrespeito mútuo e ciúme excessivo são
alguns dos possíveis prenúncios de um divórcio.
Autor de vários livros sobre o assunto, o psiquiatra americano
John Gottman analisou mais de 3.000 casais no chamado Love Lab (Laboratório
do Amor) da Universidade de Washington. Segundo Gottman, brigas
constantes também são um indicador de falência
do relacionamento. Mas é preciso lembrar que todos os casais,
sem exceção, brigam. A diferença está
na maneira como as divergências são colocadas. Enquanto
os pares felizes pontuam seus argumentos com bom humor, os infelizes
se insultam e abusam dos gestos obscenos durante uma discussão.
Se marido e mulher não aprendem a lidar com os problemas
do dia-a-dia, dificilmente terão êxito com a terapia.
A boa comunicação
do casal obviamente é ponto indispensável para o sucesso
de uma terapia a dois, dizem os especialistas. Ou seja, se você
não consegue estabelecer uma relação assim
nem na frente do terapeuta, não hesite: corra para o advogado.
"A falta de diálogo é o início do conflito
de todo relacionamento. Exigir que o outro faça só
o que se quer também é erro grave", diz a psicóloga
paulista Eliete de Medeiros. Para enfrentar uma crise conjugal,
é preciso querer ficar junto de verdade, mas muitos buscam
a terapia porque não conseguem dar um ponto final no relacionamento.
Entre os casais que atendeu, o psicólogo Ailton Amélio
lembra-se de um que permaneceu em tratamento durante meses. Sem
conseguir alcançar bons resultados, Amélio propôs
atendimento individual aos dois. Separados, ambos confessaram que
desejavam o fim do casamento. "O bom resultado independe de o casal
continuar junto ou não. Ajudamos para que a decisão
final seja feita de forma racional, e não passional", defende
a psicanalista Magdalena Ramos, coordenadora do núcleo de
casal e família da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo.
A terapia de casal pode durar
de uma única sessão (de uma hora e meia a duas horas)
a um ano. O preço, salgado, varia de 120 a 500 reais por
sessão. Mas, afinal, o que acontece dentro do consultório?
Bem, depende do método. O tratamento pode ser feito, por
exemplo, focando apenas as desavenças atuais. Ou retomando
o passado da relação, sem que o terapeuta induza a
conversa. Outro método é o psicodrama, em que se usa
a dramatização, colocando um participante em situações
do outro. Um dos mais populares é o chamado sistêmico,
no qual se leva o restante da família (filhos e pais do casal)
para a terapia. Em todos eles, a única coisa certa é
o estridente barraco que surge entre os casais. Sai de baixo.
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ÉRICA
CORNACHIONE,
26 anos, professora
de dança
Roberto Setton
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"Quando resolvi casar não tinha nenhuma dúvida
de que estava fazendo a escolha certa. Mas com menos
de um ano de casamento as diferenças começaram
a aparecer. O meu ex-marido era uma pessoa muito fechada
e negativa. Eu tinha 20 anos e ele 40, e a diferença
de idade entre nós começou a pesar. Pouco
antes de completar dois anos de casamento, ele perdeu
o emprego e entrou em depressão. As coisas ficaram
ainda mais difíceis e ele acabou concordando
que precisávamos da ajuda de um terapeuta de
casal. Às vezes ele inventava uma desculpa para
não ter de falar sobre os nossos problemas e
não ia às sessões. Era complicado
porque tocávamos nas feridas um do outro o tempo
todo. Foram seis meses de terapia. Quando me dei conta
de que ele não se esforçava para mudar,
resolvi sair de casa e pedir a separação."
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