Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Sociedade
Meu casamento é um show

Festas temáticas, fantasias, espetáculos
musicais: não basta casar, tem de arrasar


Sandra Brasil

Luis Henrique Mendes
Cissa Sannomya
A publicitária Gabriela solta a voz: de convencional a cover de Jennifer Lopez


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Véu, grinalda e muito mais

Vestido, buquê, bufê, igreja, festa, som e ainda um mar de lembrancinhas. Quanta coisa, não? Que nada. O exaustivo empreendimento que é organizar uma festa de casamento vem ganhando acréscimos constantes. Fazer uma festança não é suficiente para muitos noivos. Eles querem um espetáculo, um show, um evento inesquecível. Da mesma maneira que crianças escolhem a Pequena Sereia ou o Ursinho Puff como alvo da decoração de seus aniversários, jovens casais estão partindo para casamentos temáticos, como uma festa das Arábias ou uma farra carnavalesca na Bahia. Casamento com batucada, como o da advogada Cristiana Mello, filha do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, é quase lugar-comum. O diferencial, no caso de Cristiana, foi a bênção especial enviada de Roma pelo papa Bento XVI. Outros capricham na originalidade dos trajes ou recorrem a veículos cada vez mais exóticos para uma entrada (ou saída) apoteótica. "As pessoas perderam um pouco o preconceito e estão liberando a criança que têm dentro delas", diz o banqueteiro Toninho Mariutti, que já serviu em casamentos com tema Índia, Marrocos e Bali.

Poucas terão se desvencilhado tão resolutamente das amarras quanto a publicitária Gabriela Silveira Mello Cordes, de 26 anos. A primeira parte de seu casamento com o empresário Burkhar Cordes, 30 anos, no fim do ano passado, seguiu à risca o figurino: num altar erguido no jardim de sua casa, diante de 1.200 convidados, ela usou vestido branco, guirlanda de rosas e véu na cabeça. A surpresa veio em seguida. A noiva apareceu no palco, de calça justa e barriga de fora, dançando e cantando – com a ajuda de playback –, numa espécie de imitação da estrela Jennifer Lopez. Nada foi improvisado. Três meses antes da cerimônia, Gabriela contratou um coreógrafo e dois bailarinos para fazer bonito na dança. O show incluiu ainda um cover de Wanessa Camargo. "Amo dançar e sempre sonhei em ser atriz. Para o show do meu casamento contratei a mim mesma", diz Gabriela.

Lincoln Iff
Reginaldo Martins
Fernando Faria
Três roteiros: Vlademir, como Neo, de Matrix; Cristiana Mello com batucada, em Brasília; e a saída apoteótica de Mário e Ana Paula, dentro de um carro-forte

Surpresa não é privilégio de noiva. O publicitário Vlademir de Moraes Minharro, de 28 anos, caprichou no figurino. Enquanto sua noiva usava um vestido convencional, ele apareceu com uma túnica preta até o pé, réplica da roupa de Neo, o protagonista da série Matrix, interpretado por Keanu Reeves. "Quando assisti ao filme, decidi que usaria a mesma roupa", conta Vlademir, que levou fotos do filme para encomendar a túnica. Faltou uma certa cultura cinematográfica aos convidados. "Quando eu cheguei à igreja, as pessoas que não me conheciam achavam que eu era o padre", relembra o noivo. A loja Black Tie, uma das maiores de São Paulo especializadas em aluguel de roupas de festa, registrou um aumento de 15% nas encomendas de roupas temáticas nos últimos seis meses. "Com a onda do homem metrossexual, quatro entre dez noivos escolhem pelo menos um detalhe diferente na hora de definir o figurino do casamento. Teve cliente que encomendou uma gravata toda bordada com cristais Swarovski", diz Cristofer Mickenhagen, gerente de marketing da loja.

Noivo novidadeiro causa arrepios de pavor aos organizadores de casamentos, para os quais nunca, jamais se deve alterar o figurino masculino convencional. Mário Giannini Baptista de Oliveira seguiu o conselho ao se casar com Ana Paula, em dezembro passado, mas não resistiu ao decidir por uma festa em grande estilo: pediu emprestado um carro-forte da empresa de transporte de valores de seu pai. "Eles chamaram muita atenção quando chegaram ao hotel para a noite de núpcias a bordo do carro-forte todo enfeitado com latas", registra Valéria Giannini, a mãe do noivo.

Para a moderníssima decoração da festa de sua filha Ilca, em Brasília, o empresário e senador cassado Luiz Estevão trouxe de Paris o brasileiro Zéka Marquez, o mesmo que costuma decorar o Copacabana Palace nos bailes carnavalescos. Cerca de 150.000 flores brancas de papel crepom foram usadas para decorar a Catedral de Brasília, o cartão-postal desenhado por Oscar Niemeyer. Até os anjos famosos, que pendem do teto da igreja, receberam guirlandas de flores de papel crepom, colocadas com a ajuda de andaimes. Recorrer a decoradores consagrados no ramo convencional também é outra novidade. O conhecido Sig Bergamin fez a decoração inspirada em Bali – tema que não sai da moda – para o casamento de Patricia Piva de Albuquerque e André Neuding Filho, em abril, na Praia de Laranjeiras, também conhecida como o condomínio dos milionários. Um temporal adiou a festa por quatro horas, mas o pavilhão de 1.000 metros quadrados resistiu. "No final, deu tudo certo", diz a produtora de eventos Vera Simão.

Vera é a organizadora da feira Casar 2005, que foi realizada em São Paulo na semana passada, reunindo todos os muitos interessados no negócio do casamento. Na primeira feira, em 2002, havia trinta expositores. Neste ano, o número saltou para noventa, reflexo do crescimento de um mercado que começou a aumentar nos anos 90, com a volta da moda das grandes festas de casamento, e não dá sinais de retração. Entre os novos nichos, Vera menciona uma empresa de locação de carrinhos de golfe para aliviar as pernas de convidados exaustos e outra que se especializou na decoração dos banheiros das festas. Reunindo suas experiências, Vera Simão prepara um livro com dicas sobre o planejamento de casamentos, que será lançado no segundo semestre. Alguns de seus conselhos:

• A noiva deve amaciar os sapatos antes, para não correr o risco de ficar imobilizada por pés conflagrados. Barriga de fora e decotes excessivos são considerados de mau gosto.

• Branco para o noivo, nem pensar. De dia, ele pode usar roupa clara, mas o branco total continua a ser privilégio da noiva.

• O bufê não deve servir salada de folhas porque não é confortável comer alface de pé. E nada de grandes nacos de carne, pois é raro o casamento que tenha lugar para todo mundo sentar.

• Encher o altar de padrinhos é excessivo. Admitem-se no máximo três casais de cada lado.

• Damas de honra com menos de 5 anos podem criar problemas de disciplina durante a cerimônia.

• E a orientação mais difícil de todas: a noiva pode atrasar no máximo meia hora. Que tal deixar o atraso para a hora do show propriamente dito, por exemplo?

 
 
 
 
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