Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Internet
Blog é coisa séria

Os diários virtuais não são só para
adolescentes. Sua influência já vai
da política aos negócios


Marcelo Marthe

 

Roberto Setton
• NOME: Alexandre Soares Silva
• ENDEREÇO: soaressilva.wunderblogs.com
• CRIADOR: o próprio
• O QUE É: blog cultural
• O QUE FEZ: tradutor e escritor sem projeção, conquistou seu lugar ao sol com uma página em que fala de literatura e outros temas. Num único dia, tem cerca de 800 visitas – tanto quanto seus dois romances, somados, venderam até hoje


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Palanque virtual

Surgidos há pouco mais de cinco anos, e com a velocidade típica das invenções do mundo virtual, os blogs – ou diários da internet – estão deixando a adolescência para entrar na idade adulta. Em sua primeira fase, eles eram usados quase que exclusivamente pela garotada que queria expor sua intimidade e se relacionar com os colegas na rede. Agora, essa ferramenta começa a ser utilizada de maneira séria em campos como a política e os negócios. Por meio de blogs, cidadãos até então anônimos – de jovens militantes a jornalistas – tiveram participação marcante nas últimas eleições americanas. Eles apoiaram candidaturas, trouxeram à luz notícias quentes e fiscalizaram a cobertura da mídia. Os blogueiros, como são chamados os que se devotam à atividade, conquistaram prestígio – um emblema disso é que foram tratados com a mesma deferência da grande imprensa nas convenções partidárias. Os blogs revelaram-se uma forma de expressão extraordinária também em outras situações. Foi por meio deles que o mundo teve contato com as primeiras cenas da tragédia do tsunami na Ásia, no ano passado. Em países como a China e o Irã, eles são hoje uma arma dos dissidentes políticos. E as empresas já apostam que seu uso será cada vez mais estratégico.

Hoje, estima-se que haja mais de 30 milhões desses diários virtuais no mundo inteiro, e deve-se atingir a marca de 53 milhões até o fim do ano, de acordo com a consultoria americana Perseus Development Corp. Nos Estados Unidos, seu universo de leitores cresceu 58% entre 2003 e 2004 – nada menos do que 32 milhões de americanos navegam por blogs. Essa efervescência também já chegou ao Brasil. No mês de abril, segundo o Ibope/NetRatings, mais de 7.milhões de brasileiros visitaram blogs ou fotoblogs – sua versão específica para fotografias. Isso equivale a 60% dos internautas do país. "No ano passado, os blogs foram a área que mais cresceu na internet nacional", diz Alexandre Magalhães, do Ibope/NetRatings.

Desde que surgiu, a internet foi saudada como a ferramenta ideal para que qualquer um pudesse divulgar suas idéias. Mais que os sites, os blogs são a consumação dessa possibilidade. Para montar um site, é preciso ter conhecimento de programação de computadores – ou dinheiro para pagar a alguém que o faça. Com os blogs, as dificuldades se dissiparam. Não se gastam mais que quinze minutos para montar uma dessas páginas (veja quadro). Como tantas histórias de sucesso no mundo da internet, a novidade foi criada por um grupo de jovens especialistas em computação da Califórnia. Então nos seus 20 e poucos anos, Evan Williams e Jason Shellen, os mentores da equipe, pretendiam a princípio elaborar um tipo de site muito simples para técnicos envolvidos num projeto de informática discutirem seu andamento. A ferramenta deu tão certo, contudo, que eles decidiram abri-la ao público. O nome escolhido, Blogger, acabaria definindo como esse tipo de serviço ficaria conhecido. O sucesso do Blogger levou o Google a adquirir a empresa, em 2003. "Achávamos que haveria algum interesse, mas não que se tornaria um fenômeno desse porte", disse Williams a VEJA.

Os blogs levam às últimas conseqüências dois princípios da internet. Um deles é a interatividade. Cada texto postado num blog vem acompanhado de uma janela para que os leitores façam comentários, o que torna essas páginas espaços de debate por excelência. O outro é a formação de comunidades que vão se ampliando e se sobrepondo. Os blogs são interligados uns aos outros por meio de links – os atalhos que permitem ao usuário saltar entre as páginas da internet. Assim, um texto publicado num blog que isoladamente não atrai grande número de leitores pode de repente se espalhar de maneira exponencial. Quanto mais um blog é recomendado pelos similares, mais ganha status. Da mesma forma, o blogueiro que participa das discussões em páginas de terceiros acaba, por tabela, divulgando a sua própria. Atualmente, o campeão em popularidade nos Estados Unidos é um blog chamado Boing Boing, que fala sobre cultura pop e tecnologia. Na semana passada, havia 22.532 atalhos para seu endereço em outras páginas da internet.

Por sua natureza, um blog já nasce com a necessidade de se interligar ao máximo a seus congêneres. Se há um traço comum entre os blogueiros que se destacam é a ânsia em falar e ser ouvido. Em seu novo perfil, os blogueiros são gente com prazer e vocação para se engajar num jogo de opinião e comentário. "Blog é, antes de tudo, atitude", resume o executivo Marcello Póvoa, especialista no mercado de internet. A elite dos blogs é formada por pessoas que trabalham nas margens da grande mídia – muitas vezes, jornalistas freelancers. Há os "linkers" – aqueles que usam seu blog para repercutir as informações que circulam na imprensa, fornecendo atalhos para elas – e os "thinkers" – os que produzem o próprio conteúdo.

Essa figura do blogueiro que não se furta a uma boa discussão e faz de tudo para ser lido já desponta no Brasil. O paulista Alexandre Soares Silva é um exemplo. Ele é tradutor e aspirante a escritor, mas encontrou sua forma de atingir as pessoas por meio dessas páginas na internet. Soares Silva é expoente do Wunderblogs, comunidade que reúne blogueiros de vários estados do país. Seus textos sarcásticos garantem a ele um bom índice de visitação. Seu blog tem entre 700 e 800 acessos por dia – tanto quanto seus dois romances, somados, venderam até hoje. "Tem gente que fica indignada porque critico as cotas raciais nas universidades e falo mal da literatura brasileira. Mas eu adoro provocar", diz.

Nos Estados Unidos, assiste-se ao florescimento de um mercado em torno da chamada "blogosfera". Há serviços de busca especializados em rastrear essas páginas, como o Technorati e o Memeorandum. Se o Google permite entrever o que as pessoas estão pesquisando e estudando na internet, esses serviços vão mais longe: por meio deles, descobre-se o que o mundo está pensando, minuto a minuto. Já surgiu até um novo tipo de guru: o especialista que traça estratégias para as empresas venderem produtos e fazerem propaganda institucional nos blogs. Profissionais como o americano Steve Rubel monitoram a internet para saber o que os blogueiros estão dizendo sobre seus clientes. Em seguida, desenham estratégias para minimizar os danos causados por comentários negativos nos blogs. "Nos Estados Unidos, os blogs hoje são formadores de opinião tão influentes quanto a grande mídia. Quem não notar isso corre o risco de perder negócios", disse Rubel a VEJA. Algumas empresas já descobriram que os blogs podem ser uma poderosa arma de comunicação institucional. A General Motors mantém páginas do gênero para estreitar o relacionamento com os clientes. Em janeiro passado, Bob Lutz, vice-presidente da empresa, criou um blog pessoal no qual recebe sugestões e reclamações dos consumidores sobre os carros produzidos pela companhia. A iniciativa foi um sucesso, pois permitiu à cúpula da empresa mapear falhas até então não percebidas e descobrir novos potenciais de seus produtos.

Recentemente, o McDonald's americano criou um "flog" – um falso blog – para avaliar a aceitação de um de seus anúncios. Outras empresas pagam a blogueiros estabelecidos para falarem bem delas. Como nem sempre revelam sua condição de garotos-propaganda, esses blogueiros têm causado polêmica. Com o aumento do alcance dos blogs, aliás, a discussão ética sobre como se comportar nesse universo veio ao primeiro plano. Em janeiro passado, um empregado do Google, Mark Jen, cometeu indiscrições em seu blog, como dizer que o plano de saúde oferecido pela companhia não era grande coisa. Acabou demitido – e hoje, num novo emprego, atua como consultor de assuntos relacionados a blogs. "Fui educado na prática por essa nova realidade", declarou Jen.

A blogosfera se tornou referência obrigatória na política americana. Em 2002, um dos senadores mais influentes dos Estados Unidos sentiu a força dos blogs na pele. Num discurso no Congresso americano, o republicano Trent Lott teceu loas a um candidato a presidente dos anos 40 que tinha uma plataforma segregacionista. O fato quase passou despercebido pela imprensa – mas os blogueiros não deixaram barato. Fizeram uma campanha contra Lott, que se viu obrigado a renunciar ao posto de líder da maioria no Senado americano. Dois anos atrás, Howard Dean, ex-governador do estado de Vermont, despontou como um forte pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata graças ao burburinho em torno de seu nome nos blogs. Tanto democratas quanto republicanos têm suas estrelas nesse universo. Entre os primeiros, destaca-se o Daily Kos, mantido pelo jovem ex-militar Markos Moulitsas. O fato de ser um especialista em levantar fundos de campanha por meio de correntes de blogs fez dele uma das figuras mais influentes da nova geração democrata.

No lado republicano, a maior estrela é Glenn Reynolds, do Instapundit. Professor de direito na Universidade do Tennessee, ele se tornou referência com um blog em que mapeia notícias e artigos políticos, acrescentando-lhes comentários. Os blogueiros de inclinação republicana são especialmente combativos. Eles foram responsáveis por detonar o escândalo que causou a demissão de Dan Rather do posto de âncora de um dos noticiários mais populares da televisão americana, o 60 Minutes. No calor da campanha eleitoral no país, o programa divulgou um documento que conteria fatos desabonadores sobre o serviço militar do então candidato à reeleição George W. Bush. O blog Power Line, mantido pelo advogado John Hinderaker e por outros dois colegas, notou que o documento parecia forjado. Os blogueiros provaram que o memorando era de fato uma fraude. Desmoralizado, Rather abandonou seu posto.

Em países submetidos a ditaduras, os blogs transformaram-se numa trincheira da liberdade de expressão. Durante a derrubada de Saddam Hussein do poder no Iraque, um jovem morador de Bagdá, sob o pseudônimo de Salam Pax, narrou o cotidiano da invasão americana em seu blog. Ele ficou tão conhecido que lançou um livro a esse respeito e tornou-se colaborador do jornal inglês The Guardian. No vizinho Irã, os blogs incomodam o regime dos aiatolás. Figuras como Hossein Derakhshan, iraniano que vive no Canadá, atraem milhares de leitores com seus textos considerados subversivos. O governo do país já tentou, inutilmente, tirar sua página do ar. Os blogueiros que operam de dentro do Irã não costumam ter a mesma sorte: vários já foram presos. Na China, a internet é vista como uma ameaça à ditadura comunista – e os blogs são a principal artilharia nessa guerra. São páginas como as de Li Xinde, criador da Rede de Sobrevivência da Opinião Pública Chinesa – um dos 4 milhões de blogs do país. Ele percorre o país fazendo denúncias de abusos e corrupção.

De aspirantes a escritores a páginas humorísticas, a blogosfera brasileira cada vez mais se diversifica. Na política, já há blogs com alguma influência. Jorge Bastos Moreno e Tereza Cruvinel, ambos jornalistas do jornal O Globo, são hoje lidos com atenção em Brasília. Tereza usa sua página como um espaço para reverberar os temas de que trata em sua coluna. Moreno, por sua vez, vai um pouco além. A atração de seu blog é uma "novelinha" chamada O Lula Me Disse, em que traz à luz histórias sobre o presidente. Nos últimos tempos, Moreno notou que muitos assessores de imprensa já colocam o conteúdo de blogs como o seu nos clippings diários de seus chefes.

 

ÂNCORA ABAIXO
• NOME: Power Line
• ENDEREÇO: powerlineblog.com
• CRIADORES: os americanos John Hinderaker, Scott Johnson e Paul Mirengoff, advogados e militantes do Partido Republicano, do presidente George W. Bush
• O QUE É: blog político
• O QUE FEZ: provou que um dos noticiários mais populares dos Estados Unidos, o 60 Minutes, baseou-se em documento fraudado numa reportagem negativa sobre o então candidato à reeleição Bush. Com isso, causou a demissão do âncora Dan Rather

DISSIDENTE NO ATAQUE
• NOME: Editor: Myself
• ENDEREÇO: hoder.com/weblog
• CRIADOR: Hossein Derakhshan, iraniano que vive no Canadá
• O QUE É: blog cultural
• O QUE FEZ: com seus textos sobre cultura pop e política, conquistou milhares de leitores no Irã, inclusive políticos. O governo do país tenta, em vão, proibir o acesso a sua página

EXECUTIVO NA REDE
• NOME: FastLane
• ENDEREÇO: fastlane.gmblogs.com
• CRIADOR: o executivo Bob Lutz, vice-presidente da General Motors
• O QUE É: blog empresarial
• O QUE FEZ: criado em janeiro passado, permitiu ao executivo manter um contato mais estreito com os consumidores
da empresa

MIDAS DOS BLOGS
• NOME: Daily Kos
• ENDEREÇO: dailykos.com
• CRIADOR: o americano Markos Moulitsas, militante do Partido Democrata
• O QUE É: blog político
• O QUE FEZ: com mais de 500 000 acessos diários, seu blog é um dos mais influentes dos Estados Unidos. Tornou-se referência por sua capacidade de levantar fundos de campanha

 

 
 
 
 
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