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Internet Blog
é coisa séria Os diários
virtuais não são só para adolescentes. Sua influência já vai da política
aos negócios  Marcelo
Marthe Roberto
Setton
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NOME: Alexandre Soares Silva •
ENDEREÇO: soaressilva.wunderblogs.com
• CRIADOR: o próprio • O QUE É: blog cultural • O QUE
FEZ: tradutor e escritor sem projeção, conquistou seu lugar ao sol com uma
página em que fala de literatura e outros temas. Num único dia, tem cerca de 800
visitas – tanto quanto seus dois romances, somados, venderam até hoje |
Surgidos
há pouco mais de cinco anos, e com a velocidade típica das invenções
do mundo virtual, os blogs ou diários da internet estão
deixando a adolescência para entrar na idade adulta. Em sua primeira fase,
eles eram usados quase que exclusivamente pela garotada que queria expor sua intimidade
e se relacionar com os colegas na rede. Agora, essa ferramenta começa a
ser utilizada de maneira séria em campos como a política e os negócios.
Por meio de blogs, cidadãos até então anônimos
de jovens militantes a jornalistas tiveram participação marcante
nas últimas eleições americanas. Eles apoiaram candidaturas,
trouxeram à luz notícias quentes e fiscalizaram a cobertura da mídia.
Os blogueiros, como são chamados os que se devotam à atividade,
conquistaram prestígio um emblema disso é que foram tratados
com a mesma deferência da grande imprensa nas convenções partidárias.
Os blogs revelaram-se uma forma de expressão extraordinária também
em outras situações. Foi por meio deles que o mundo teve contato
com as primeiras cenas da tragédia do tsunami na Ásia, no ano passado.
Em países como a China e o Irã, eles são hoje uma arma dos
dissidentes políticos. E as empresas já apostam que seu uso será
cada vez mais estratégico.
Hoje,
estima-se que haja mais de 30 milhões desses diários virtuais no
mundo inteiro, e deve-se atingir a marca de 53 milhões até o fim
do ano, de acordo com a consultoria americana Perseus Development Corp. Nos Estados
Unidos, seu universo de leitores cresceu 58% entre 2003 e 2004 nada menos
do que 32 milhões de americanos navegam por blogs. Essa efervescência
também já chegou ao Brasil. No mês de abril, segundo o Ibope/NetRatings,
mais de 7.milhões de brasileiros visitaram blogs ou fotoblogs sua
versão específica para fotografias. Isso equivale a 60% dos internautas
do país. "No ano passado, os blogs foram a área que mais cresceu
na internet nacional", diz Alexandre Magalhães, do Ibope/NetRatings.
Desde que surgiu, a internet foi saudada como a ferramenta ideal para que qualquer
um pudesse divulgar suas idéias. Mais que os sites, os blogs são
a consumação dessa possibilidade. Para montar um site, é
preciso ter conhecimento de programação de computadores ou
dinheiro para pagar a alguém que o faça. Com os blogs, as dificuldades
se dissiparam. Não se gastam mais que quinze minutos para montar uma dessas
páginas (veja quadro).
Como tantas histórias de sucesso no mundo da internet, a novidade foi criada
por um grupo de jovens especialistas em computação da Califórnia.
Então nos seus 20 e poucos anos, Evan Williams e Jason Shellen, os mentores
da equipe, pretendiam a princípio elaborar um tipo de site muito simples
para técnicos envolvidos num projeto de informática discutirem seu
andamento. A ferramenta deu tão certo, contudo, que eles decidiram abri-la
ao público. O nome escolhido, Blogger, acabaria definindo como esse tipo
de serviço ficaria conhecido. O sucesso do Blogger levou o Google a adquirir
a empresa, em 2003. "Achávamos que haveria algum interesse, mas não
que se tornaria um fenômeno desse porte", disse Williams a VEJA.
Os blogs levam às últimas conseqüências dois princípios
da internet. Um deles é a interatividade. Cada texto postado num blog vem
acompanhado de uma janela para que os leitores façam comentários,
o que torna essas páginas espaços de debate por excelência.
O outro é a formação de comunidades que vão se ampliando
e se sobrepondo. Os blogs são interligados uns aos outros por meio de links
os atalhos que permitem ao usuário saltar entre as páginas
da internet. Assim, um texto publicado num blog que isoladamente não atrai
grande número de leitores pode de repente se espalhar de maneira exponencial.
Quanto mais um blog é recomendado pelos similares, mais ganha status. Da
mesma forma, o blogueiro que participa das discussões em páginas
de terceiros acaba, por tabela, divulgando a sua própria. Atualmente, o
campeão em popularidade nos Estados Unidos é um blog chamado Boing
Boing, que fala sobre cultura pop e tecnologia. Na semana passada, havia 22.532
atalhos para seu endereço em outras páginas da internet.
Por sua natureza, um blog já nasce com a necessidade de se interligar ao
máximo a seus congêneres. Se há um traço comum entre
os blogueiros que se destacam é a ânsia em falar e ser ouvido. Em
seu novo perfil, os blogueiros são gente com prazer e vocação
para se engajar num jogo de opinião e comentário. "Blog é,
antes de tudo, atitude", resume o executivo Marcello Póvoa, especialista
no mercado de internet. A elite dos blogs é formada por pessoas que trabalham
nas margens da grande mídia muitas vezes, jornalistas freelancers.
Há os "linkers" aqueles que usam seu blog para repercutir as informações
que circulam na imprensa, fornecendo atalhos para elas e os "thinkers"
os que produzem o próprio conteúdo.
Essa figura do blogueiro que não se furta a uma boa discussão e
faz de tudo para ser lido já desponta no Brasil. O paulista Alexandre Soares
Silva é um exemplo. Ele é tradutor e aspirante a escritor, mas encontrou
sua forma de atingir as pessoas por meio dessas páginas na internet. Soares
Silva é expoente do Wunderblogs, comunidade que reúne blogueiros
de vários estados do país. Seus textos sarcásticos garantem
a ele um bom índice de visitação. Seu blog tem entre 700
e 800 acessos por dia tanto quanto seus dois romances, somados, venderam
até hoje. "Tem gente que fica indignada porque critico as cotas raciais
nas universidades e falo mal da literatura brasileira. Mas eu adoro provocar",
diz. Nos Estados Unidos, assiste-se
ao florescimento de um mercado em torno da chamada "blogosfera". Há serviços
de busca especializados em rastrear essas páginas, como o Technorati e
o Memeorandum. Se o Google permite entrever o que as pessoas estão pesquisando
e estudando na internet, esses serviços vão mais longe: por meio
deles, descobre-se o que o mundo está pensando, minuto a minuto. Já
surgiu até um novo tipo de guru: o especialista que traça estratégias
para as empresas venderem produtos e fazerem propaganda institucional nos blogs.
Profissionais como o americano Steve Rubel monitoram a internet para saber o que
os blogueiros estão dizendo sobre seus clientes. Em seguida, desenham estratégias
para minimizar os danos causados por comentários negativos nos blogs. "Nos
Estados Unidos, os blogs hoje são formadores de opinião tão
influentes quanto a grande mídia. Quem não notar isso corre o risco
de perder negócios", disse Rubel a VEJA. Algumas empresas já descobriram
que os blogs podem ser uma poderosa arma de comunicação institucional.
A General Motors mantém páginas do gênero para estreitar o
relacionamento com os clientes. Em janeiro passado, Bob Lutz, vice-presidente
da empresa, criou um blog pessoal no qual recebe sugestões e reclamações
dos consumidores sobre os carros produzidos pela companhia. A iniciativa foi um
sucesso, pois permitiu à cúpula da empresa mapear falhas até
então não percebidas e descobrir novos potenciais de seus produtos.
Recentemente, o McDonald's americano
criou um "flog" um falso blog para avaliar a aceitação
de um de seus anúncios. Outras empresas pagam a blogueiros estabelecidos
para falarem bem delas. Como nem sempre revelam sua condição de
garotos-propaganda, esses blogueiros têm causado polêmica. Com o aumento
do alcance dos blogs, aliás, a discussão ética sobre como
se comportar nesse universo veio ao primeiro plano. Em janeiro passado, um empregado
do Google, Mark Jen, cometeu indiscrições em seu blog, como dizer
que o plano de saúde oferecido pela companhia não era grande coisa.
Acabou demitido e hoje, num novo emprego, atua como consultor de assuntos
relacionados a blogs. "Fui educado na prática por essa nova realidade",
declarou Jen. A blogosfera se tornou
referência obrigatória na política americana. Em 2002, um
dos senadores mais influentes dos Estados Unidos sentiu a força dos blogs
na pele. Num discurso no Congresso americano, o republicano Trent Lott teceu loas
a um candidato a presidente dos anos 40 que tinha uma plataforma segregacionista.
O fato quase passou despercebido pela imprensa mas os blogueiros não
deixaram barato. Fizeram uma campanha contra Lott, que se viu obrigado a renunciar
ao posto de líder da maioria no Senado americano. Dois anos atrás,
Howard Dean, ex-governador do estado de Vermont, despontou como um forte pré-candidato
à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata graças
ao burburinho em torno de seu nome nos blogs. Tanto democratas quanto republicanos
têm suas estrelas nesse universo. Entre os primeiros, destaca-se o Daily
Kos, mantido pelo jovem ex-militar Markos Moulitsas. O fato de ser um especialista
em levantar fundos de campanha por meio de correntes de blogs fez dele uma das
figuras mais influentes da nova geração democrata.
No lado republicano, a maior estrela é Glenn Reynolds, do Instapundit.
Professor de direito na Universidade do Tennessee, ele se tornou referência
com um blog em que mapeia notícias e artigos políticos, acrescentando-lhes
comentários. Os blogueiros de inclinação republicana são
especialmente combativos. Eles foram responsáveis por detonar o
escândalo que causou a demissão de Dan Rather do posto de âncora
de um dos noticiários mais populares da televisão americana, o 60
Minutes. No calor da campanha eleitoral no país, o programa divulgou
um documento que conteria fatos desabonadores sobre o serviço militar do
então candidato à reeleição George W. Bush. O blog
Power Line, mantido pelo advogado John Hinderaker e por outros dois colegas, notou
que o documento parecia forjado. Os blogueiros provaram que o memorando era de
fato uma fraude. Desmoralizado, Rather abandonou seu posto.
Em países submetidos a ditaduras, os blogs transformaram-se numa trincheira
da liberdade de expressão. Durante a derrubada de Saddam Hussein do poder
no Iraque, um jovem morador de Bagdá, sob o pseudônimo de Salam Pax,
narrou o cotidiano da invasão americana em seu blog. Ele ficou tão
conhecido que lançou um livro a esse respeito e tornou-se colaborador do
jornal inglês The Guardian. No vizinho Irã, os blogs incomodam
o regime dos aiatolás. Figuras como Hossein Derakhshan, iraniano que vive
no Canadá, atraem milhares de leitores com seus textos considerados subversivos.
O governo do país já tentou, inutilmente, tirar sua página
do ar. Os blogueiros que operam de dentro do Irã não costumam ter
a mesma sorte: vários já foram presos. Na China, a internet é
vista como uma ameaça à ditadura comunista e os blogs são
a principal artilharia nessa guerra. São páginas como as de Li Xinde,
criador da Rede de Sobrevivência da Opinião Pública Chinesa
um dos 4 milhões de blogs do país. Ele percorre o país
fazendo denúncias de abusos e corrupção.
De aspirantes a escritores a páginas humorísticas, a blogosfera
brasileira cada vez mais se diversifica. Na política, já há
blogs com alguma influência. Jorge Bastos Moreno e Tereza Cruvinel, ambos
jornalistas do jornal O Globo, são hoje lidos com atenção
em Brasília. Tereza usa sua página como um espaço para reverberar
os temas de que trata em sua coluna. Moreno, por sua vez, vai um pouco além.
A atração de seu blog é uma "novelinha" chamada O Lula
Me Disse, em que traz à luz histórias sobre o presidente. Nos
últimos tempos, Moreno notou que muitos assessores de imprensa já
colocam o conteúdo de blogs como o seu nos clippings diários de
seus chefes.
ÂNCORA ABAIXO
NOME: Power Line ENDEREÇO:
powerlineblog.com
CRIADORES: os americanos John Hinderaker, Scott Johnson e Paul
Mirengoff, advogados e militantes do Partido Republicano, do presidente George
W. Bush O QUE É: blog político
O QUE FEZ: provou que um dos noticiários mais populares
dos Estados Unidos, o 60 Minutes, baseou-se em documento fraudado numa
reportagem negativa sobre o então candidato à reeleição
Bush. Com isso, causou a demissão do âncora Dan Rather DISSIDENTE
NO ATAQUE NOME: Editor:
Myself ENDEREÇO: hoder.com/weblog
CRIADOR: Hossein Derakhshan, iraniano que vive no Canadá
O QUE É: blog cultural O QUE FEZ:
com seus textos sobre cultura pop e política, conquistou milhares de leitores
no Irã, inclusive políticos. O governo do país tenta, em
vão, proibir o acesso a sua página EXECUTIVO
NA REDE NOME: FastLane
ENDEREÇO: fastlane.gmblogs.com
CRIADOR: o executivo Bob Lutz, vice-presidente da
General Motors O QUE É: blog empresarial
O QUE FEZ: criado em janeiro passado, permitiu
ao executivo manter um contato mais estreito com os consumidores da empresa
MIDAS DOS BLOGS
NOME: Daily Kos ENDEREÇO:
dailykos.com CRIADOR:
o americano Markos Moulitsas, militante do Partido Democrata
O QUE É: blog político O
QUE FEZ: com mais de 500 000 acessos diários, seu blog é um
dos mais influentes dos Estados Unidos. Tornou-se referência por sua capacidade
de levantar fundos de campanha | |  |  |
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