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Crime
O "Sombra" está de volta
O caso Celso Daniel ganha fôlego com
um novo depoimento que envolve
o empresário amigo do prefeito
Marcelo Carneiro
Jonne Roriz/AE
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| Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra": propina
revelada em dossiê |
Entre as muitas perguntas que ficaram no ar
no episódio do assassinato de Celso Daniel, em 2002, uma
se refere a uma situação ocorrida quando o então
prefeito de Santo André ainda estava vivo no cativeiro. Na
ocasião, divulgou-se que tanto o senador Eduardo Suplicy
(PT-SP) quanto o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin
(PSDB), haviam recebido telefonemas de um homem que se apresentava
como um dos seqüestradores do prefeito e que pedia,
em troca da libertação do refém, a transferência
de alguns presos de cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro.
A negociação não foi adiante, entre outras
razões, porque Celso Daniel foi encontrado morto logo após
o último telefonema. Nunca se soube quem foi o interlocutor
de Suplicy e Alckmin e nem se estaria blefando. No último
mês de abril, o Ministério Público ouviu um
homem que diz ser o autor desses telefonemas. Em depoimento ao qual
VEJA teve acesso, o detento José Márcio Felício
o "Geleião", que foi um dos principais líderes
da maior organização criminosa de São Paulo,
o Primeiro Comando da Capital (PCC) afirma ter tentado negociar
a libertação do prefeito em troca de benesses para
si. No mesmo depoimento, ele faz afirmações que complicam
ainda mais a situação do empresário Sérgio
Gomes da Silva. O empresário chegou a ficar preso por sete
meses, acusado de participação no seqüestro de
Celso Daniel, de quem era amigo e homem de confiança. Foi
solto em julho do ano passado. No decorrer das investigações,
o Ministério Público colheu depoimentos e provas que
demonstram a participação de "Sombra", como ficou
conhecido o empresário, num esquema de corrupção
que beneficiaria não só a ele como também aos
cofres do PT. Um dos irmãos de Celso Daniel, o médico
João Francisco Daniel, afirmou, em depoimento à Justiça,
ter ouvido de Gilberto Carvalho ex-secretário de governo
na gestão do prefeito de Santo André e hoje chefe-de-gabinete
do presidente Lula que o esquema de propinas na prefeitura
de Santo André teria arrecadado 1,2 milhão de reais,
em espécie. O dinheiro, ainda segundo o testemunho de João
Francisco, teria sido entregue por Carvalho ao então deputado
federal José Dirceu, hoje ministro-chefe da Casa Civil. Dirceu
e Carvalho negam a existência da propina.
Na época da captura do prefeito, Felício
cumpria pena na penitenciária de segurança máxima
Bangu 1, no Rio de Janeiro. No depoimento dado ao Ministério
Público, ele conta que recebeu, pelo celular, o telefonema
de um comparsa espécie de subordinado seu dentro do
PCC. O bandido pedia sua autorização para ajudar o
seqüestrador Ivan Rodrigues da Silva, o "Monstro" um
dos envolvidos na morte do prefeito e atualmente preso , a
encontrar um cativeiro que abrigaria "um pássaro grande":
Celso Daniel. Ao falar diretamente com Ivan, Felício conta
ter proposto a ele que mantivesse o prefeito em cativeiro para que
ele, Felício, por meio desse trunfo, conseguisse negociar
sua transferência de Bangu 1. Ivan, porém, segundo
Felício, avisou que não poderia atender o pedido porque
o seqüestro havia sido "uma encomenda" e a ordem era "pau no
gato". Na gíria da criminalidade, a expressão significa
determinação expressa para matar. Ainda segundo o
depoimento de Felício, um ano após o seqüestro,
ele e Ivan se encontraram em outra penitenciária. Nessa ocasião,
o seqüestrador teria revelado a ele o nome do mandante da "encomenda":
Sérgio Gomes da Silva. Ivan ainda teria dito que, antes de
morrer, Celso Daniel fora torturado para revelar onde havia escondido
um dossiê com acusações contra Sérgio
Sombra.
A menção a essa documentação
fez com que os promotores procurassem a família de Celso
Daniel, que já havia dito estar de posse de um dossiê
contra Sérgio Sombra, encontrado no apartamento do prefeito
depois de sua morte. No início do mês, o dossiê
foi entregue ao Ministério Público. Trata-se de um
envelope que, tendo como remetente um certo Gilberto, traz documentos
obtidos em cartórios listando bens em nome de Sombra e amigos,
além de nomes de empresas que, supostamente, pagariam propinas
ao grupo. Embora, na opinião dos promotores, esse dossiê
não seja aquele mencionado por Felício (teria sido
produzido três anos antes da morte do prefeito e não
apresenta poder de fogo para amedrontar Sombra ao ponto a que se
referiu o bandido Ivan), ele reforça os indícios de
que Daniel, havia muito tempo, tinha conhecimento das atividades
ilícitas praticadas por seu homem de confiança.
O Ministério Público acredita
que Felício fala a verdade ao menos no que diz respeito
ao fato de ter sido o autor dos telefonemas ao senador Suplicy e
ao governador Alckmin. Mesmo assim, não se pode esquecer
que o ex-líder do PCC é um bandido condenado e, como
tal, merece que suas palavras sejam recebidas com o máximo
de precaução. Seu depoimento, no entanto, somado à
existência do dossiê entregue ao Ministério Público,
reforça uma tese há muito defendida pelos investigadores:
"Celso Daniel já sabia das acusações a Sérgio
Sombra pelo menos desde 1999. Mas só passou a preocupar-se
de fato a partir do momento em que se tornou coordenador da campanha
presidencial do PT em 2002", afirma o promotor Roberto Wider. "Ao
tornar-se uma 'vitrine', Celso Daniel pressionou Sérgio a
acabar com o esquema de corrupção dentro da prefeitura,
detonando o episódio que culminou com a sua morte."
O depoimento de Felício e o dossiê
entregue pela família do prefeito provocaram, na semana passada,
a reabertura das investigações sobre o assassinato
de Celso Daniel. "Os fatos obrigam a instauração de
um novo inquérito", diz o promotor Amaro Thomé. Logo
após o assassinato do prefeito, o PT apressou-se em tentar
sepultar o episódio, alegando que se tratava de um crime
comum mais um capítulo da violência urbana.
Levantar qualquer outra hipótese seria uma vil tentativa
de associar o partido a atividades espúrias, defenderam caciques
petistas na ocasião. Vê-se agora que o PT pode estar
errado. E que o sucesso efêmero de operações
do tipo "abafa" não consegue impedir que os esqueletos continuem
teimando em sair do armário.
Flávio Grieger/Folha Imagem
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| O ex-líder do PCC José Felício:
tentativa de negociar com o senador Suplicy e o governador Alckmin
a libertação do "pássaro grande"
em troca de transferência de presídio |
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