Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Diogo Mainardi
Sou um Maurício Marinho

"Brasileiro compra livro até demais.
Quando não compra na livraria, compra
com o pagamento de impostos. Não adianta
boicotar Renato Janine Ribeiro. Não adianta
espernear contra Diogo Mainardi. Querendo ou não,
seu dinheiro
será desviado para o nosso bolso"

Dizem que o brasileiro não compra livros. Compra, sim. Compra até demais. Quando não compra na livraria, compra com o pagamento de impostos. Não adianta biocotar Renato Janine Ribeiro. Não adianta repudiar Maria Victoria Benevides. Não adianta espernear contra Diogo Mainardi. Querendo ou não querendo, seu dinheiro será desviado para o nosso bolso. Somos iguais aos petebistas dos Correios. Somos os Maurício Marinho das letras.

Lula é iletrado, mas sabe perfeitamente como lidar conosco. Quem mexe com livros, no Brasil, se considera um benfeitor. Acha que a sociedade tem a obrigação de recompensá-lo por seu altruísmo, com uma modesta contribuição em dinheiro. É o que faz o governo. Na Bienal do Rio de Janeiro, o Ministério da Cultura e o BNDES apresentaram o ProLivro, um programa de financiamento público que garante crédito barato para editoras, livrarias e, melhor ainda, adiantamentos para escritores. Não são só os usineiros pernambucanos que contam com a liberalidade do BNDES. Nós, escritores, também contamos.

O próprio BNDES, algumas semanas atrás, publicou um documento sobre a economia do livro no Brasil. O Estado é responsável pela compra de quase metade dos exemplares produzidos no país. Os técnicos do BNDES recomendam comprar muito mais. Claro que o único lesado nessa história é o contribuinte. O Estado é mau comprador. Só para dar um exemplo, outro dia o BNDES comprou algumas cópias do Dicionário Aurélio, na versão para computador. Cada uma custou 643 reais. O mesmo produto pode ser encontrado no mercado por 154,80 reais.

A política do governo federal para o setor livreiro está a cargo de Galeno Amorim, coordenador do Programa Nacional do Livro e Leitura. Ele prometeu abrir 1.000 novas bibliotecas nos próximos anos e aumentar em 50% o índice de leitura do brasileiro, graças a uma martelante campanha publicitária. Amorim foi secretário da Cultura de Ribeirão Preto quando o prefeito era Antonio Palocci. Recentemente, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo denunciou Palocci por favorecimento à editora de Amorim, a Palavra Mágica, condenando-o à devolução de 2,6 milhões de reais aos cofres públicos.

O Tribunal de Contas do estado deu outro aborrecimento a Palocci, duas semanas atrás. Reprovou o contrato que ele fez para reformar o centro de Ribeirão Preto na época em que era o prefeito da cidade. O grande projeto palocciano previa uma avenida elevada, um lago artificial e uma ponte suspensa, réplica da Golden Gate, de São Francisco. A obra não foi realizada. Mesmo assim, custou 4 681 763,90 reais à prefeitura. A empresa contratada irregularmente para tocar o projeto foi a Coderp. O superintendente da Coderp era Juscelino Dourado, atual chefe-de-gabinete de Palocci no Ministério da Fazenda. Dourado é afilhado de casamento de Rogério Buratti, secretário de Governo de Ribeirão Preto no primeiro mandato de Palocci e achacador da Gtech no caso Waldomiro Diniz.

Eu sou um Maurício Marinho. Mas não sou o único.

 
 
 
 
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