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Entrevista: Richard
Dawkins O devoto de Darwin O
zoólogo britânico diz que a teoria da evolução
contém uma verdade universal e que há beleza no modo como
a ciência explica a vida  Jerônimo
Teixeira
No início do ano, o zoólogo
britânico Richard Dawkins, de 64 anos, visitou o arquipélago equatoriano
de Galápagos, no Oceano Pacífico. Estava seguindo os passos da excursão
científica realizada em 1835 por seu herói intelectual o
naturalista inglês Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies,
obra que se tornou a base da biologia moderna ao lançar, em 1859, a idéia
de que a vida evoluía por meio da seleção natural. Autor
de verdadeiros clássicos da divulgação científica
como O Gene Egoísta e O Relojoeiro Cego, Dawkins é
ao lado do paleontólogo americano Stephen Jay Gould, que morreu
de câncer em 2002 um dos maiores propagandistas do darwinismo. Seu
novo livro, O Capelão do Diabo, que está sendo lançado
no Brasil pela Companhia das Letras, é uma coletânea de ensaios que
dá uma boa amostra de sua paixão pela ciência e de
sua oposição à religião, tema de uma das seções
mais incendiárias do livro. Por telefone, de seu escritório na Universidade
de Oxford, onde leciona, o zoólogo concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Passados quase 150
anos desde a publicação de A Origem das Espécies,
qual a força do pensamento de Charles Darwin? Dawkins
A conquista de Darwin é universal e atemporal. Os processos evolutivos
descritos por ele devem acontecer em qualquer lugar do universo onde porventura
exista vida. Em um dos ensaios de O Capelão do Diabo, afirmo que
um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as idéias
de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx a quem ele já
foi comparado , cujo trabalho é de interesse mais limitado, paroquial,
"terreno". Quando releio Darwin, sempre me surpreendo com quão moderno
ele soa. Considerando que suas concepções de genética estavam
erradas, é impressionante como ele conseguiu acertar em todo o resto. Com
um princípio básico, a seleção natural, o darwinismo
é capaz de explicar uma enorme variedade de fenômenos complexos.
É uma teoria muito elegante. Veja
Pode-se dizer que o darwinismo é hoje uma teoria bem compreendida
e assimilada? Dawkins Infelizmente, não. As pessoas
pensam que o darwinismo é uma teoria do acaso, quando é na verdade
a teoria que nos permite escapar ao acaso na biologia. Darwin não diz que
organismos tão formidavelmente complexos quanto aqueles que vemos sobre
a Terra surgiram de maneira fortuita. A seleção natural não
opera cegamente: de geração em geração, ela preserva
os genes que trazem vantagens e elimina aqueles que trazem desvantagens aos organismos.
É assim, dessa forma gradual, que a evolução acontece. Muitos
argumentam que a beleza e a complexidade da vida só podem significar que
por trás dela há um projeto deliberado, um "desenho inteligente"
feito por Deus. Não é assim: a alternativa para o acaso não
é um "projeto", mas a seleção natural.
Veja Hoje há um embate entre evolucionistas
como o senhor e os criacionistas. Por que o senhor considera inaceitável
a idéia de que a vida foi criada por Deus? Dawkins
Postular a existência de um Deus que criou a vida é o tipo de idéia
que só complica as coisas. É um raciocínio contraprodutivo,
pois traz a necessidade adicional de explicar a existência desse ser. A
partir de elementos muito simples, a seleção natural mostra como
e por que a natureza abriga a imensa complexidade, a imensa variedade dos seres
vivos existentes. Esse é o poder desse conceito. Com ou sem um ser divino
no início de tudo, a seleção natural ainda teria a mesma
capacidade de explicar o funcionamento da natureza. Veja
Por que o senhor chama a religião de "vírus da mente"? Dawkins
Isso está relacionado à idéia de meme, que lancei
em 1976 no meu livro O Gene Egoísta. Cunhei o termo que já
foi incorporado pelo dicionário Oxford em analogia com gene.
Assim como os genes são unidades auto-replicadoras que passam de uma geração
a outra, também os memes seriam capazes de replicar a si mesmos e passar
de uma mente para a outra. Esse conceito é útil se explica por que
uma idéia em particular se disseminou. Um meme pode ser uma idéia
científica, uma melodia, um poema, e nesse caso ele se dissemina por seus
méritos. A religião seria um memeplexo, isto é, um conjunto
de memes que costumam florescer na presença uns dos outros, tal como acontece
com certos complexos de genes. Mas, ao contrário dos bons memes, a religião
não se dissemina porque é útil. Ela salta de uma mente para
outra como uma infecção, ou como um vírus de computador,
que só se propaga porque traz embutida uma instrução codificada:
"Espalhe-me". Veja O senhor
já observou que a ciência pode ser "religiosa, no sentido não
sobrenatural da palavra". Poderia explicar essa expressão? Dawkins
Eu não estava falando da religião que acredita em um
Deus que ouve nossas preces. Einstein considerava-se religioso, embora não
acreditasse em nenhum plano sobrenatural. Ele só usava a palavra "religião"
para definir seu sentimento de espanto e mistério diante do universo. Eu
empreguei a palavra no mesmo sentido em um ensaio, mas isso talvez não
seja recomendável. Há muita gente ansiosa por deturpar formulações
como essa. Muitos gostariam de trazer pessoas como Einstein para o bloco dos crentes,
ao qual ele certamente não pertencia. Veja
Um cientista não pode ser religioso? Dawkins
Pode, e muitos cientistas são. Mas eu não consigo entender suas
razões. Talvez seja um tipo de cérebro repartido: eles mantêm
suas crenças religiosas em um nicho, e a ciência em outro. Tenho
dificuldade em simpatizar com isso. Se eu mantivesse crenças contraditórias,
tentaria refletir sobre o tema até me decidir por um lado ou outro.
Veja O senhor afirma que evolucionistas
não deveriam participar de debates públicos com partidários
do criacionismo. Por quê? Dawkins Essa é uma
proposta minha e do paleontologista americano Stephen Jay Gould. Pretendíamos
escrever um texto conjunto sobre o tema, mas Gould morreu antes de revisar o esboço
que apresentei a ele. Os criacionistas buscam esse debate para conquistar um verniz
de respeitabilidade intelectual. Eles não têm esperança de
"vencer" a discussão: querem apenas ser reconhecidos no mesmo palanque
ocupado por um cientista de verdade. Por isso devemos evitar esses encontros.
Veja Essa recusa não
passaria a idéia de que os darwinistas são arrogantes ou temem o
debate? Dawkins Talvez sim. É muito difícil
lidar com esse problema. Gould e eu podemos estar errados, mas essa é a
posição que tomamos, e, no momento, eu ainda a sustento. Talvez,
para evitar o perigo de conferir status demais ao criacionismo, o ideal seria
que apenas estudantes de pós-graduação ou mesmo de graduação
participassem desse tipo de debate. Eles estariam tão capacitados quanto
eu para refutar os criacionistas, cuja argumentação não é
tão refinada assim. Veja A
espécie humana não teria uma necessidade natural de religião? Dawkins
Não creio que seja uma necessidade universal. Se a demanda é
por reverência e espanto diante da vida e do universo, a ciência pode
satisfazê-la. Se a demanda é por conforto diante da morte, então
talvez a ciência não possa satisfazê-la. Seja como for, reconhecer
que existam necessidades pessoais ou coletivas atendidas pela religião
não equivale a dizer, de maneira nenhuma, que exista verdade nas concepções
religiosas. Veja O senhor
acredita que algum dia a humanidade possa viver sem religião? Dawkins
Não por um longo tempo. E eu jamais proporia qualquer forma
de proibição à atividade religiosa. A resposta está
na atividade à qual me dedico: a educação. Quanto mais educação
houver, mais teremos discussões racionais e pensamento inteligente, e mais
difícil será para a religião sobreviver.
Veja Há beleza na ciência? Dawkins
A verdade é bela em si mesma. E existe uma elegância própria
do conhecimento. Einstein comovia-se com a beleza das equações.
Além disso, os fenômenos que biólogos ou astrônomos
estudam árvores, pássaros, estrelas são belos
em si mesmos. Lidar com eles é lidar com o belo. Veja
Quando se discute bioética, a questão da clonagem
humana é sempre levantada. Seria mesmo o problema mais importante hoje? Dawkins
Não, não é um problema tão importante.
As pessoas se opõem a essa idéia por razões variadas. Todas
as tecnologias reprodutivas envolvem a morte de embriões, e há um
preconceito religioso contra isso. Há quem reaja com nojo diante da idéia
de clonagem humana. Imaginam, digamos, centenas de Saddam Hussein marchando no
mesmo passo, o que de fato é uma perspectiva aterrorizante. Mas ela está
calcada em idéias falsas como, por exemplo, a de que um clone não
teria personalidade individual. Geneticamente, gêmeos idênticos são
clones um do outro e têm, como bem sabemos, personalidades independentes.
Há muita mistificação sobre esse tema.
Veja O senhor acredita que esse tipo de clonagem
vá ocorrer? Dawkins Não com a tecnologia que
temos hoje, que produziu a ovelha Dolly, um único clone, ao custo de muitos
embriões perdidos. De qualquer forma, a criação de um clone
humano nunca foi proposta seriamente. Propõe-se, isso sim, a clonagem de
células-tronco, para propósitos médicos. As únicas
objeções a isso, repito, têm motivação religiosa,
e são estúpidas. Veja
Devem-se impor limites ao conhecimento científico? Dawkins
Questões sobre o que é certo ou errado não comportam
verdades absolutas. São matéria de julgamento e ponderação.
A ciência não pode decidir sobre esses problemas pode apenas
demonstrar incoerências nas posições que tomamos. A decisão,
por exemplo, de proibir ou não o desenvolvimento de armas biológicas
não é um problema científico. É algo que tem de ser
discutido pela sociedade em geral políticos, juristas, cidadãos.
Veja O senhor já
demonstrou entusiasmo pela idéia de que um dia talvez seja possível
reconstituir geneticamente o elo perdido entre o ser humano e os outros primatas.
Como seria isso? Dawkins O geneticista sul-africano Sydney
Brenner propôs que um dia talvez possamos, a partir do genoma do homem e
do chimpanzé, fazer uma projeção retrospectiva até
nossos antepassados. Uma espécie de "média" entre os dois genomas
seria próxima do ancestral comum de homens e chimpanzés, que viveu
em torno de 6 milhões de anos atrás. Com esse código genético
em mãos, talvez a tecnologia embriológica do futuro seja capaz de
criar esse ser vivo, um espécime do nosso antepassado comum, o elo perdido.
Teríamos vivo, respirando na nossa frente, um ser que é intermediário
entre o homem e outra espécie animal. Um experimento desse tipo seria um
duro golpe contra a arrogância humana. Isso poderia mudar o antropocentrismo
da nossa ética e da nossa moral. Hoje, todos os intermediários estão
extintos, o que fomenta a idéia falsa de que ocupamos um espaço
à parte na natureza. A biologia atual não vê o homem como
o pináculo da evolução. O darwinismo não faz valorações
desse tipo. Quando um darwinista fala em um animal "melhor" quer dizer apenas
melhor em reproduzir-se, em passar adiante sua carga de genes.
Veja O senhor tem escrito muitos artigos
criticando o presidente americano George W. Bush. Faz isso como cientista ou como
cidadão? Dawkins Existem cientistas cujo interesse
em política é tão dominante que acaba colorindo suas pesquisas,
inclusive as mais técnicas. Creio que esse tipo de mistura não é
aconselhável. Digamos que me pronuncio como um cidadão com um nível
elevado de conhecimento científico. Bush não tem nenhum interesse
em ciência, a não ser na medida em que ela possa ser usada para fins
militares, e é uma ameaça ao meio ambiente, pela recusa em assinar
o Protocolo de Kioto. O mundo seria um lugar melhor sem ele.
Veja O senhor recentemente esteve em Galápagos,
onde Darwin fez muitas observações que embasaram sua teoria. Ainda
é um local privilegiado para observar a evolução? Dawkins
Sim. As ilhas são muito novas, têm só 3 ou 4 milhões
de anos, e nesse tempo limitado houve nelas uma diversificação de
espécies fabulosa. É impressionante como os animais lá são
pouco ariscos. Talvez porque tenha havido muito pouca predação,
você pode caminhar até muito próximo deles. E eles não
fogem. É como estar em um imenso zoológico a céu aberto,
sem jaulas. Muito pouco mudou desde a época em que o jovem Darwin esteve
lá, em 1835, perguntando-se exatamente sobre o "mistério dos mistérios"
que era o surgimento de novas espécies. Embora o triunfo de Darwin pudesse
ter sido gestado em qualquer lugar do universo, ele foi fruto de uma viagem de
cinco anos ao redor do planeta, na qual Galápagos foi uma das escalas mais
importantes. |