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Leonardo,
o cientista
Biografia
procura na infância de
Da Vinci a chave para entender
sua face menos conhecida
Marilia Pacheco Fiorillo

Da
Vinci, em auto-retrato: fama de inconstante |

Veja também |
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O
que a psicanálise tem com a vida de um camarada nascido em 1452,
quase cinco séculos antes dela? Muito, a julgar por Leonardo,
o Primeiro Cientista (tradução de Sergio Moraes
Rego; Record; 364 páginas; 38 reais), de Michael White. Ex-editor
de ciência da revista GQ, o britânico White é
autor de best-sellers sobre cientistas, como Isaac Newton, o Último
Feiticeiro, e da série Uma Vida na Ciência. É
também um contador de histórias nato. Dá a seu protagonista
uma vivacidade tal que o torna quase nosso companheiro de geração.
Leonardo da Vinci, claro, é um eterno moderno, sempre à
frente de qualquer tempo o que explica inclusive os 30 milhões
de dólares pagos por Bill Gates, há oito anos, por um de
seus manuscritos. Mas a intenção desse livro não
é a de desdizer tudo o que já escreveram, deitar louvores
ou caprichar na difamação, fórmulas correntes em
biografias de sucesso. Freudiano instintivo, o autor quer desencavar a
faceta oculta de seu personagem. Não o arquiconhecido pintor da
Mona Lisa ou o tataravô do tanque de guerra, do pára-quedas,
do submarino, do avião, da lente de contato aquele Leonardo
ingovernável que vivia criando coisas, mas era incapaz de concluí-las,
pois já estava matutando a próxima. O Da Vinci que emerge
aqui é outro: além do artista e inventor de máquinas
malucas, ele aparece no livro como o verdadeiro criador da ciência
aplicada, 200 anos antes do inglês Isaac Newton.
Os últimos capítulos são dedicados exatamente a esse
Leonardo que os biógrafos negligenciam, o pioneiro em anatomia,
ótica, geologia, hidrologia e astronomia. White se serve do que
restou dos Cadernos de Notas do artista, cerca de metade de 13.000
páginas de manuscritos, e vinga Leonardo da fama de inconstante
e imprevisível. Como arquiteto, o florentino Da Vinci esboçou
maravilhas, mas não deixou nada acabado. Como pintor, nunca teve
interesse em terminar uma tela. Como engenheiro militar, jamais ganhou
uma batalha para seus patrões. Mas, se White está certo,
como cientista ele foi metódico até a exasperação,
deixando cerca de 1.500 desenhos tão detalhados quanto os modernos
diagramas da física quântica.

Estudo
anatômico do artista: metódico até a exasperação |
Não
é no intelecto de Leonardo, porém, que White vai buscar
a chave da genialidade, e sim como faria um bom analista
no seu caráter. E caráter é infância. Mais
significativo que a amizade ou os serviços prestados às
grandes famílias da Itália do século XV, como os
Medici, os Borgia ou os Sforza, mais marcante que a peste, as guerras
ou os amores por rapazes é sua história familiar: o fato
de ser filho ilegítimo, abandonado pela mãe e apenas tolerado
pelo pai. Os primeiros anos da vida de Leonardo explicariam sua personalidade
única, totalmente autocentrada e automotivada.
Ao contrário do arquiinimigo Michelangelo, que era um católico
fanático, Leonardo não se interessava por religião.
Contrastando com seu amigo Maquiavel, desprezava a política com
um zelo que beirava a candura: mal um de seus mecenas era assassinado
e ele já encaminhava seus projetos para o patrocínio do
substituto. Vegetariano que dissecava cadáveres numa época
em que isso era considerado magia negra, pacifista que desenhava máquinas
de guerra, admirador do corpo humano que chamava os homens de "enchedores
de latrina" essas e outras contradições nunca perturbaram
Da Vinci. O segredo, parece, era a total ausência de paixão
e uma solene indiferença a tudo que não fosse a busca do
conhecimento. Não é de estranhar que Freud tenha feito de
Leonardo um dos alicerces da sua teoria da sublimação, que
vincula a sexualidade ao instinto de investigação. Ainda
mais interessante do que a tese do livro, contudo, são os rodeios
do autor para chegar lá: uma descrição inspirada
do século XV italiano, de intrigas e crueldades inomináveis,
gestos magnificentes e arte sublime, da temível Lucrécia
Borgia e do inefável Botticelli. Uma época feliz que ainda
não tinha inventado a triste figura do especialista.
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Uma
descoberta em Florença

A
Adoração dos
Magos: só o esboço seria de Da Vinci |
A
Adoração dos Magos é uma obra fundamental
da pintura italiana e um exemplo do espírito inquieto de
Leonardo da Vinci, que a deixou inacabada. Novos estudos, porém,
sugerem que ele dedicou à tela ainda menos tempo do que se
imaginava. A pedido da Galeria Uffizi, em Florença, uma análise
mostrou que Da Vinci não teria feito mais do que o esboço
da obra-prima. A tinta foi acrescentada por um anônimo, entre
cinqüenta e 100 anos depois. Graças a recursos como
raio X e microscópio, descobriu-se que o desenho original
era um tanto diferente. Os pés e mãos das figuras,
por exemplo, revelam-se mais elegantes e condizentes com
o talento de Da Vinci.
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