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Edição 1 749 - 1° de maio de 2002
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Leonardo, o cientista

Biografia procura na infância de
Da Vinci a chave para entender
sua face menos conhecida

Marilia Pacheco Fiorillo

 

Da Vinci, em auto-retrato: fama de inconstante


Veja também
Uma galeria de fotos com alguns dos estudos realizados por Da Vinci

O que a psicanálise tem com a vida de um camarada nascido em 1452, quase cinco séculos antes dela? Muito, a julgar por Leonardo, o Primeiro Cientista (tradução de Sergio Moraes Rego; Record; 364 páginas; 38 reais), de Michael White. Ex-editor de ciência da revista GQ, o britânico White é autor de best-sellers sobre cientistas, como Isaac Newton, o Último Feiticeiro, e da série Uma Vida na Ciência. É também um contador de histórias nato. Dá a seu protagonista uma vivacidade tal que o torna quase nosso companheiro de geração. Leonardo da Vinci, claro, é um eterno moderno, sempre à frente de qualquer tempo – o que explica inclusive os 30 milhões de dólares pagos por Bill Gates, há oito anos, por um de seus manuscritos. Mas a intenção desse livro não é a de desdizer tudo o que já escreveram, deitar louvores ou caprichar na difamação, fórmulas correntes em biografias de sucesso. Freudiano instintivo, o autor quer desencavar a faceta oculta de seu personagem. Não o arquiconhecido pintor da Mona Lisa ou o tataravô do tanque de guerra, do pára-quedas, do submarino, do avião, da lente de contato – aquele Leonardo ingovernável que vivia criando coisas, mas era incapaz de concluí-las, pois já estava matutando a próxima. O Da Vinci que emerge aqui é outro: além do artista e inventor de máquinas malucas, ele aparece no livro como o verdadeiro criador da ciência aplicada, 200 anos antes do inglês Isaac Newton.

Os últimos capítulos são dedicados exatamente a esse Leonardo que os biógrafos negligenciam, o pioneiro em anatomia, ótica, geologia, hidrologia e astronomia. White se serve do que restou dos Cadernos de Notas do artista, cerca de metade de 13.000 páginas de manuscritos, e vinga Leonardo da fama de inconstante e imprevisível. Como arquiteto, o florentino Da Vinci esboçou maravilhas, mas não deixou nada acabado. Como pintor, nunca teve interesse em terminar uma tela. Como engenheiro militar, jamais ganhou uma batalha para seus patrões. Mas, se White está certo, como cientista ele foi metódico até a exasperação, deixando cerca de 1.500 desenhos tão detalhados quanto os modernos diagramas da física quântica.



Estudo anatômico do artista: metódico até a exasperação

Não é no intelecto de Leonardo, porém, que White vai buscar a chave da genialidade, e sim – como faria um bom analista – no seu caráter. E caráter é infância. Mais significativo que a amizade ou os serviços prestados às grandes famílias da Itália do século XV, como os Medici, os Borgia ou os Sforza, mais marcante que a peste, as guerras ou os amores por rapazes é sua história familiar: o fato de ser filho ilegítimo, abandonado pela mãe e apenas tolerado pelo pai. Os primeiros anos da vida de Leonardo explicariam sua personalidade única, totalmente autocentrada e automotivada.

Ao contrário do arquiinimigo Michelangelo, que era um católico fanático, Leonardo não se interessava por religião. Contrastando com seu amigo Maquiavel, desprezava a política com um zelo que beirava a candura: mal um de seus mecenas era assassinado e ele já encaminhava seus projetos para o patrocínio do substituto. Vegetariano que dissecava cadáveres numa época em que isso era considerado magia negra, pacifista que desenhava máquinas de guerra, admirador do corpo humano que chamava os homens de "enchedores de latrina" – essas e outras contradições nunca perturbaram Da Vinci. O segredo, parece, era a total ausência de paixão e uma solene indiferença a tudo que não fosse a busca do conhecimento. Não é de estranhar que Freud tenha feito de Leonardo um dos alicerces da sua teoria da sublimação, que vincula a sexualidade ao instinto de investigação. Ainda mais interessante do que a tese do livro, contudo, são os rodeios do autor para chegar lá: uma descrição inspirada do século XV italiano, de intrigas e crueldades inomináveis, gestos magnificentes e arte sublime, da temível Lucrécia Borgia e do inefável Botticelli. Uma época feliz que ainda não tinha inventado a triste figura do especialista.

 

Uma descoberta em Florença

 

A Adoração dos Magos: só o esboço seria de Da Vinci

A Adoração dos Magos é uma obra fundamental da pintura italiana e um exemplo do espírito inquieto de Leonardo da Vinci, que a deixou inacabada. Novos estudos, porém, sugerem que ele dedicou à tela ainda menos tempo do que se imaginava. A pedido da Galeria Uffizi, em Florença, uma análise mostrou que Da Vinci não teria feito mais do que o esboço da obra-prima. A tinta foi acrescentada por um anônimo, entre cinqüenta e 100 anos depois. Graças a recursos como raio X e microscópio, descobriu-se que o desenho original era um tanto diferente. Os pés e mãos das figuras, por exemplo, revelam-se mais elegantes – e condizentes com o talento de Da Vinci.

 

   
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