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A
turma do sotaque
O papel que os brasilianistas
tiveram
na compreensão da
história do país
João Gabriel de Lima
Paulo Jares
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| Thomas
Skidmore: "Não éramos agentes da CIA" |

Veja também |
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Nada
mais antipático do que dar palpite na casa dos outros. Troque-se,
na frase acima, o termo "casa" por "país" e a situação
fica ainda mais complicada. Nos anos 60 e 70, vários intelectuais
americanos desembarcaram no Brasil para estudar a estranha nação
tropical habitada, no imaginário do Hemisfério Norte, por
papagaios de guarda-chuva como Zé Carioca e mulheres com chapéu
de fruteira à la Carmen Miranda. Financiados pelo governo americano,
temeroso de que uma praga de sapos barbudos desse aos países ao
sul do Rio Grande o mesmo destino de Cuba, estudiosos como Thomas Skidmore,
Kenneth Maxwell e Alfred Stepan ganharam notoriedade no Brasil
e despertaram, ao mesmo tempo, a antipatia dos forasteiros que palpitam.
Davam entrevistas em seu português cheio de sotaque, arriscavam
previsões sobre o futuro da nação que outro gringo
o austríaco Stefan Zweig apelidara ironicamente de
"país do futuro", e eram reconhecidos como autoridades sobre o
Brasil numa época em que os intelectuais locais estavam amordaçados
pela censura. Enquanto isso, parte desses enciumados intelectuais locais
difundia, à boca pequena, meias verdades que se tornariam lugares-comuns
sobre os colegas ianques. Os brasilianistas seriam agentes da CIA disfarçados.
Por isso, tinham a simpatia dos militares da ditadura, que lhes franqueavam
arquivos fechados aos estudiosos brasileiros. Mesmo com dinheiro e facilidades,
não conseguiam chegar a um entendimento profundo do Brasil. Prova
disso é que, entre os livros publicados por brasilianistas, não
teria surgido nenhuma obra-prima como Casa-Grande & Senzala,
de Gilberto Freyre, ou Raízes do Brasil, de Sérgio
Buarque de Holanda.
Negreiros
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Esfriadas as paixões ideológicas da Guerra Fria, surgiu
finalmente uma obra destinada a avaliar a contribuição americana
aos estudos brasileiros: O Brasil dos Brasilianistas (Paz
e Terra; 512 páginas; 45 reais). O livro, com previsão de
lançamento para a próxima semana, foi idealizado pelo sociólogo
Paulo Roberto de Almeida, ministro-conselheiro da Embaixada do Brasil
em Washington. Almeida também é o organizador da obra, ao
lado do americano Marshall Eakin e do embaixador Rubens Barbosa. O
Brasil dos Brasilianistas reúne textos de especialistas, em
sua maioria americanos, sobre diversas áreas, como história,
ecologia, economia, ciência política e literatura. Lê-se
o livro com três perguntas na cabeça. Os brasilianistas,
afinal, deram alguma contribuição significativa aos estudos
do país? Existe uma visão americana do Brasil, diferente
da visão das potências hegemônicas França
e Inglaterra de séculos anteriores? Esses estudiosos teriam
contribuído para formar uma imagem do Brasil no exterior? Heterogêneo,
mesclando capítulos bem resolvidos com outros que são meros
levantamentos bibliográficos, o livro não explicita as respostas.
A partir da leitura atenta da obra, no entanto, é possível
formar juízos claros sobre essas questões.
Realmente nenhum livro escrito por autor americano atingiu o status de
clássico comparável ao de Casa-Grande & Senzala.
A contribuição dos brasilianistas foi de outra espécie.
"Eles voaram mais baixo do que Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque,
mas seu vôo se deu sobre um terreno mais seguro", avalia a pesquisadora
Lúcia Lippi Oliveira, da Fundação Getúlio
Vargas. Grosso modo, os intelectuais brasileiros do século XX se
filiavam a duas tradições. A das grandes interpretações
sobre o Brasil coisa, em última análise, típica
de país jovem que precisa formar uma identidade e a marxista,
que tentava encaixar a realidade nos dogmas da esquerda. Em contraposição
a isso, os estudiosos americanos trouxeram o empirismo anglo-saxônico.
Em campos como o da história, por exemplo, em que sua contribuição
foi mais robusta, isso significava ir às fontes, aos arquivos,
aos documentos em suma, aos fatos. "O historiador brasileiro sempre
teve horror a poeira, e o inglês e o americano costumam ser adeptos
da pesquisa rigorosa", avalia o sociólogo Paulo Roberto de Almeida.
Uma obra emblemática da contribuição brasilianista
é A Devassa da Devassa, do inglês (naturalizado americano)
Kenneth Maxwell. Mergulhando nos arquivos, o historiador descobriu que
a Inconfidência Mineira havia sido, antes de tudo, um movimento
de elite. Pensava-se anteriormente que houvesse sido uma insurreição
popular e de intelectuais. Maxwell descobriu que os ricos da época
haviam usado sua influência para apagar seus próprios nomes
dos autos. O historiador montou esse quebra-cabeça graças
a um conjunto de documentos da antiga Vila Rica que ocupavam quarenta
caixas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Nenhum historiador brasileiro,
até então, se havia dado ao trabalho de esmiuçar
o cartapácio.
O episódio mostra que há um tanto de lenda na versão
segundo a qual os brasilianistas só conseguiram realizar suas pesquisas
graças à ajuda dos militares. "Chamavam-nos de agentes da
CIA, o que é um absurdo. Embora a maior parte de nós não
fosse marxista, éramos contra a ditadura militar tanto quanto os
intelectuais brasileiros", diz Thomas Skidmore, o brasilianista mais emblemático
o termo "brasilianista" apareceu pela primeira vez por escrito
no prefácio a um livro dele, Brasil: de Getúlio a Castelo,
lançado em português em 1969 e que é até hoje
o grande best-seller dessa produção, com 70.000 exemplares
vendidos. "Houve, claro, pessoas que estabeleceram relações
pessoais com os militares, e isso as ajudou bastante." Ele se refere,
por exemplo, a Alfred Stepan, autor de Os Militares na Política,
que se valeu do passado de fuzileiro naval para chegar perto da turma
da caserna, gente que nunca se sentaria com um intelectual da oposicionista
Universidade de São Paulo em volta de um mesmo gravador.
Examinando-se o conjunto da produção brasilianista, chega-se
a alguns temas recorrentes: democracia, modernização e relações
raciais, "assuntos candentes também nos Estados Unidos", como observa
o brasilianista Marshall Eakin. A partir desse fato, é possível
deduzir qual a "visão americana" do Brasil. Ela é, antes
de tudo, uma visão especular, que compara, principalmente nesses
três temas, duas nações que tiveram uma origem parecida
e um destino diferente. Foi para estudar as razões de a democracia
que se adaptou tão bem nos Estados Unidos ter dificuldades
de aclimatação no Brasil que Skidmore escreveu seu Brasil:
de Getúlio a Castelo. Outra obra importante, Os Últimos
Anos da Escravatura no Brasil, de Robert Conrad, se vale de uma comparação
entre os dois países para desmistificar a nossa propalada cordialidade
inter-racial. O autor mostra que por aqui não havia imprensa abolicionista
até muito perto do fim da escravatura, nem Estados onde os negros
pudessem refugiar-se condições que existiam nos Estados
Unidos, e que levaram o país à Guerra de Secessão.
A "visão especular" americana difere da inglesa, que predominou
no século XIX. Os ingleses encaravam o Brasil principalmente como
uma possibilidade de mercado. Já o ponto de vista francês,
bastante em voga nos séculos anteriores, era acima de tudo literário.
Essa interessante comparação entre mentalidades e épocas
tão diversas é desenvolvida nos dois últimos capítulos
de O Brasil dos Brasilianistas.
Resta a última questão: que imagem do país esses
estudiosos americanos projetaram lá fora? A resposta é:
nenhuma. Conforme observa Kenneth Maxwell num artigo sobre o assunto que
não ficou pronto a tempo de ser incluído em O Brasil
dos Brasilianistas, a imagem externa do Brasil é muito mais
influenciada pelo noticiário ou pela música popular do que
pela produção acadêmica, que nunca ultrapassou a muralha
das universidades. "É duro dizer isso, mas, por mais que nos esforcemos
para acabar com os estereótipos sobre o Brasil nos Estados Unidos,
a maior parte dos estudantes, mesmo os de nível superior, ainda
não distingue o país do resto da América Latina.
Nem sequer sabe que aí se fala português, e não espanhol",
constata Jon Tolman, diretor executivo da Brasa, entidade que congrega
brasilianistas nos Estados Unidos. A verdade é que gente como Skidmore,
Maxwell ou Stepan teve relativa notoriedade no Brasil, mas nos Estados
Unidos são apenas acadêmicos com uma carreira honesta, sem
nenhuma repercussão na opinião pública. Na versão
americana do dicionário Oxford, referência da língua
inglesa, o termo "brazilianist" simplesmente não aparece. Isso
diz muita coisa.
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O
BRASILIANISMO EM MIÚDOS
Vera Bungartem
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Alfred
Stepan
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ORIGEM
DA PALAVRA: criada pelo historiador Francisco de Assis Barbosa,
para o prefácio de Brasil: De Getúlio a Castelo,
de Thomas Skidmore, publicado em 1969
NÚMERO
DE OBRAS PUBLICADAS: cerca de 500
LIVRO
MAIS VENDIDO: Brasil: De Getúlio a Castelo, de
Thomas Skidmore, com 70 000 exemplares
ASSUNTOS
MAIS ABORDADOS: democracia, modernização econômica,
relações raciais
PRINCIPAL
CONTRIBUIÇÃO: mostrar como dois países
com origens semelhantes, Brasil e Estados Unidos, se desenvolveram
de forma diferente
AUTORES
QUE ESCREVERAM OBRAS DE REFERÊNCIA: Thomas Skidmore (sobre
democracia), Kenneth Maxwell (sobre Inconfidência Mineira),
Robert Conrad (sobre escravidão), Alfred Stepan (sobre militares),
John Dulles (sobre a esquerda brasileira)
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