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Melhor
que o livro
Abril
Despedaçado,
de Walter Salles,
supera em beleza e
idéias a sua fonte
Isabela
Boscov

Veja também |
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O
diretor Walter Salles tem grande admiração pelo albanês
Ismail Kadaré, de quem adaptou o livro Abril Despedaçado
para o cinema. O escritor, por sua vez, desmanchou-se em elogios ao brasileiro
ao ver o filme, que considera a melhor adaptação de sua
obra até aqui. Entre os dois, tem mais razão Kadaré.
Abril Despedaçado (Brasil/Suíça/França,
2001), que estréia nesta quarta-feira no país, é
um dos poucos casos de versões cinematográficas que avançam
sobre o original literário e saem mais coesas, coerentes e talentosas
do que ele. O título do romance de Kadaré se refere à
trágica divisão da vida de seu protagonista: os vinte anos
que ele viveu até ali e os poucos dias que lhe restam até
que seja assassinado, em mais uma etapa de uma disputa de sangue entre
clãs. O rapaz acabou de matar, a mando do pai, um jovem de uma
família rival. Terá agora um mês de trégua
até que chegue a sua vez de ser morto e depois também
vingado, num ciclo que se repete há gerações. Nesse
intervalo, ele troca olhares com uma mulher que está em viagem
ao interior albanês para observar os costumes locais. Os dois se
apaixonam e buscam-se todo o tempo, sem que consigam jamais se encontrar.
Kadaré ambientou essa história no pré-II Guerra para
acentuar não só seu drama humano, mas também a grande
metáfora do livro: a da fricção entre arcaísmo
e modernidade. Em seu enredo, contudo, essa fricção produz
faíscas, mas não fogo: o mundo da mulher sofisticada e o
do camponês são estanques e incapazes de se comunicar.
Divulgação
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| Santoro,
como o predestinado Tonho: da Albânia para o sertão |
Salles tem uma visão ainda mais pungente, embora menos fatalista,
dessa história. Transportou-a para 1910, no sertão nordestino.
Lá o jovem Tonho Breves (Rodrigo Santoro) trabalha com Pacu, o
irmão mais novo (o ótimo estreante Ravi Ramos Lacerda),
e os pais (José Dumont e Rita Assemany) na bolandeira, ou moinho
de cana, que é a única possessão dos Breves que resistiu
à luta com os mais ricos Ferreiras. É um cotidiano brutal,
que abrange não mais do que cortar a cana, espremer seu suco, cozê-lo
e transformá-lo em tijolos de rapadura, que serão trocados
por uma miséria de dinheiro no mercado. Tonho acabou de vingar
a morte do irmão mais velho, e agora espera sua vez. As imagens
sugerem essa contagem regressiva para a sua morte: os bois que andam em
círculo, o mecanismo da bolandeira que se assemelha ao de um relógio
e o balanço pendurado na árvore, que lembra um pêndulo.
Pacu que não existe no livro e é um desdobramento
dramático do personagem de Tonho não se conforma
com esse desperdício inútil de juventude. Seu maior desejo
é que o irmão se liberte.
A chance de Tonho vem com a passagem de um casal de saltimbancos pelo
seu vilarejo. Tonho e Clara (Flavia Marco Antonio), a atriz mambembe,
se enamoram. A despeito da inércia das tradições,
essa paixão conduzirá a uma ruptura. Tonho paga por ela
um preço altíssimo mas, de certa forma, justo: uma parte
de si por uma liberdade que se sobreponha a um papel social anacrônico.
Sem esse impulso e esse sacrifício, defende o filme, a civilização
perderia o seu motor. É em boa parte daí que vem a força
de Abril Despedaçado: da segurança de um diretor
que reconhece um bom ponto de partida e sabe como guiá-lo para
a sua própria visão.
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