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Edição 1 749 - 1° de maio de 2002
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Pouco mudou para as afegãs

Agora elas já podem estudar
e trabalhar, mas
falta muito para
acabar com a discriminação


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Dos arquivos de VEJA
As mulheres em países islâmicos, de 10/10/2001

A queda do regime fundamentalista do Talibã, em novembro passado, abriu uma porta de esperança para muitas mulheres do Afeganistão. Durante cinco anos, elas haviam penado sob os rigores de uma interpretação tão radical das regras e tradições muçulmanas que o período pode ser classificado como um mergulho na idade das trevas. Não podiam estudar, trabalhar nem mesmo se internar num hospital devido à exigência de separação absoluta entre os sexos. Tampouco podiam rir alto, usar esmalte ou fazer barulho com os saltos do sapato, ao andar, entre outras proibições insanas. Todas foram obrigadas a usar a burca, o manto pesado que cobre o corpo dos pés à cabeça – um costume regional, de determinadas tribos, imposto ao país inteiro. A entrada triunfante dos guerrilheiros da Aliança do Norte em Cabul, a capital, foi acompanhada de vários gestos simbólicos. Coube a uma mulher anunciar ao país, pelo rádio, o fim do regime fundamentalista. Muitas comemoraram exibindo o rosto – com maquiagem e penteado caprichados. Centenas delas surpreenderam os jornalistas estrangeiros ao organizar um protesto para exigir trabalho. Salões de beleza e escolas para meninas, que funcionavam em regime de segredo, puderam deixar a clandestinidade.


AFP

Depois de seis anos, a volta às aulas: para muitas, a burca é questão de segurança


A sensação de início de uma nova era atingiu o ápice quando o chefe do governo provisório, Hamid Karzai, assinou em janeiro a Declaração dos Direitos Essenciais das Mulheres Afegãs, um documento que garante igualdade de direitos entre homens e mulheres, incluindo liberdade de movimento, de expressão e de participação política para as afegãs. Três meses depois, o país não dá a impressão de estar passando por uma revolução emancipadora. Longe disso. Como era de esperar, os chefes tribais não se tornaram politicamente corretos da noite para o dia, a força de costumes ancestrais continua enorme e o Afeganistão ainda está muito distante de qualquer padrão de sociedade moderna. Os estupros são relativamente tolerados pelas autoridades locais, como acontecia durante o período conflagrado que antecedeu o regime dos mulás. "Muitas mulheres se sentiam mais seguras sob o Talibã. Os homens que comandam o país hoje têm um histórico de abusos e cumplicidade", diz Jessica Neuwirth, que dirige uma ONG que defende os direitos das mulheres. Esse é um dos motivos invocados para explicar a sobrevivência generalizada da burca, que, ao tornar as mulheres invisíveis, supostamente as protege dos desatinos da libido masculina.

As mulheres que se colocaram na linha de frente da luta para modificar essa sociedade patriarcal sentem na pele que têm uma tarefa nada fácil. A médica Sima Samar, de 45 anos, é a ministra para Assuntos Femininos – um ministério com poder quase nulo, criado para contentar a opinião pública de países desenvolvidos, comovida com a vasta exposição das agruras das afegãs durante a campanha dos Estados Unidos contra o Talibã. Isolada, sem dinheiro e precariamente instalada, ela já fala em renunciar. Sima, que usa jeans e anda com a cabeça descoberta, também foi ameaçada de morte várias vezes. Uma de suas clínicas foi destruída por vândalos. Menos grave é a situação da ministra da Saúde, Suhaila Sidiq, que trata de um tema considerado bem mais importante que os direitos da mulher. Boa parte das verbas da saúde provém de organismos internacionais, o que de certa forma garante a sobrevivência da ministra. A ajuda estrangeira é vista até em pequenos detalhes. A revista francesa Elle colaborou na produção da primeira revista feminina do país pós-Talibã. A americana Eve Ensler, autora do sucesso teatral Os Monólogos da Vagina, doou e paga a manutenção dos telefones por satélite do Ministério dos Assuntos Femininos. Só 4% das afegãs são alfabetizadas e 98% delas não possuem carteira de identidade, o que as impede de votar. No mês passado, no programa de volta às aulas, 1,5 milhão de crianças puderam retomar os estudos, e quase metade era de meninas. Depois de cinco anos sem ter acesso à educação, um bom avanço diante de tantas outras frustrações.

 
 
   
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