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Pouco mudou para
as afegãs
Agora
elas já podem estudar
e trabalhar, mas falta
muito para
acabar com a discriminação

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A queda do
regime fundamentalista do Talibã, em novembro passado, abriu uma
porta de esperança para muitas mulheres do Afeganistão.
Durante cinco anos, elas haviam penado sob os rigores de uma interpretação
tão radical das regras e tradições muçulmanas
que o período pode ser classificado como um mergulho na idade das
trevas. Não podiam estudar, trabalhar nem mesmo se internar num
hospital devido à exigência de separação absoluta
entre os sexos. Tampouco podiam rir alto, usar esmalte ou fazer barulho
com os saltos do sapato, ao andar, entre outras proibições
insanas. Todas foram obrigadas a usar a burca, o manto pesado que cobre
o corpo dos pés à cabeça um costume regional,
de determinadas tribos, imposto ao país inteiro. A entrada triunfante
dos guerrilheiros da Aliança do Norte em Cabul, a capital, foi
acompanhada de vários gestos simbólicos. Coube a uma mulher
anunciar ao país, pelo rádio, o fim do regime fundamentalista.
Muitas comemoraram exibindo o rosto com maquiagem e penteado caprichados.
Centenas delas surpreenderam os jornalistas estrangeiros ao organizar
um protesto para exigir trabalho. Salões de beleza e escolas para
meninas, que funcionavam em regime de segredo, puderam deixar a clandestinidade.
AFP

Depois
de seis anos, a volta às aulas: para muitas, a burca é questão de
segurança |
A sensação de início de uma nova era atingiu o ápice
quando o chefe do governo provisório, Hamid Karzai, assinou em
janeiro a Declaração dos Direitos Essenciais das Mulheres
Afegãs, um documento que garante igualdade de direitos entre homens
e mulheres, incluindo liberdade de movimento, de expressão e de
participação política para as afegãs. Três
meses depois, o país não dá a impressão de
estar passando por uma revolução emancipadora. Longe disso.
Como era de esperar, os chefes tribais não se tornaram politicamente
corretos da noite para o dia, a força de costumes ancestrais continua
enorme e o Afeganistão ainda está muito distante de qualquer
padrão de sociedade moderna. Os estupros são relativamente
tolerados pelas autoridades locais, como acontecia durante o período
conflagrado que antecedeu o regime dos mulás. "Muitas mulheres
se sentiam mais seguras sob o Talibã. Os homens que comandam o
país hoje têm um histórico de abusos e cumplicidade",
diz Jessica Neuwirth, que dirige uma ONG que defende os direitos das mulheres.
Esse é um dos motivos invocados para explicar a sobrevivência
generalizada da burca, que, ao tornar as mulheres invisíveis, supostamente
as protege dos desatinos da libido masculina.
As mulheres
que se colocaram na linha de frente da luta para modificar essa sociedade
patriarcal sentem na pele que têm uma tarefa nada fácil.
A médica Sima Samar, de 45 anos, é a ministra para Assuntos
Femininos um ministério com poder quase nulo, criado para
contentar a opinião pública de países desenvolvidos,
comovida com a vasta exposição das agruras das afegãs
durante a campanha dos Estados Unidos contra o Talibã. Isolada,
sem dinheiro e precariamente instalada, ela já fala em renunciar.
Sima, que usa jeans e anda com a cabeça descoberta, também
foi ameaçada de morte várias vezes. Uma de suas clínicas
foi destruída por vândalos. Menos grave é a situação
da ministra da Saúde, Suhaila Sidiq, que trata de um tema considerado
bem mais importante que os direitos da mulher. Boa parte das verbas da
saúde provém de organismos internacionais, o que de certa
forma garante a sobrevivência da ministra. A ajuda estrangeira é
vista até em pequenos detalhes. A revista francesa Elle colaborou
na produção da primeira revista feminina do país
pós-Talibã. A americana Eve Ensler, autora do sucesso teatral
Os Monólogos da Vagina, doou e paga a manutenção
dos telefones por satélite do Ministério dos Assuntos Femininos.
Só 4% das afegãs são alfabetizadas e 98% delas não
possuem carteira de identidade, o que as impede de votar. No mês
passado, no programa de volta às aulas, 1,5 milhão de crianças
puderam retomar os estudos, e quase metade era de meninas. Depois de cinco
anos sem ter acesso à educação, um bom avanço
diante de tantas outras frustrações.
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