
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
AP
 |
| Expoente
dos brucutus na Europa, Le Pen se diverte citando Adolf Hitler |
O extremista
Le Pen deu só um susto.
O fenômeno mesmo é outro: a Europa
está mais conservadora

Eduardo Salgado
A chegada
do extremista de direita Jean-Marie Le Pen ao segundo turno das eleições
presidenciais envergonhou a França. O ex-pára-quedista de
73 anos, líder de um partido fascistóide, a Frente Nacional,
deu um susto em todo mundo ao se colocar na reta final para o primeiro
posto da hierarquia política do país que ajudou a inventar
a democracia moderna e o conceito de direitos humanos. Mas tudo não
passou de um susto. Uma campanha sonolenta em que concorreram dezesseis
candidatos e o primeiro fim de semana ensolarado da primavera européia
se combinaram para produzir uma abstenção recorde de quase
30%. Resultado: com cerca de 200.000 votos
a mais, num universo de 40 milhões de eleitores, Le Pen foi para
o segundo turno e mandou para casa o atual primeiro-ministro socialista,
Lionel Jospin. Derrotado, o socialista anunciou sua aposentadoria da vida
pública. Com quase 17% dos votos, Le Pen conquistou a chance de
disputar o segundo turno contra Jacques Chirac, o atual presidente, que
busca a reeleição. Prevê-se um massacre de Chirac
contra Le Pen no enfrentamento final de ambos nas eleições
de 5 de maio. "Vote no ladrão, não no fascista", gritavam
militantes de esquerda nas ruas de Paris na semana passada. É uma
mostra de que estão dispostos a engolir Chirac para se livrar do
fantasma de Le Pen.
O velho
pára-quedista, que gosta de irritar os adversários citando
frases ligeiramente modificadas de Adolf Hitler, não tem muito
futuro. A França e, de resto, toda a Europa namoram as coalizões
de direita, mas estão longe de aceitar as teses fascistas de Le
Pen. O grande fenômeno político no continente europeu é
o avanço da centro-direita. Três anos atrás, doze
dos quinze países da União Européia eram governados
por partidos de centro-esquerda. Hoje, somente sete governos podem ser
classificados como representantes da vertente mais à esquerda do
espectro político. Nas últimas eleições na
Áustria, Espanha, Itália, Dinamarca e Portugal, a preferência
foi por candidatos conservadores. A novidade não está na
alternância de poder entre socialistas e conservadores. Ela é
corriqueira em todo o continente há décadas. Muitos eleitores
da Dama de Ferro Margaret Thatcher atualmente apóiam o primeiro-ministro
Tony Blair. Gente que adorava o socialista espanhol Felipe González
agora não troca o direitista José María Aznar por
nada. A novidade está na crescente popularidade dos conservadores,
que antes ocuparam o poder em países europeus com aquele ar de
quem pede desculpa por não ser politicamente correto.
A extrema
direita se aproveita do fato de ser o fiel da balança. "É
preciso entender que esse pessoal de extrema direita só está
chegando ao poder em coalizões porque os centristas necessitam
dos poucos votos deles para vencer eleições majoritárias",
disse a VEJA o francês Arnauld Miguet, professor de política
européia da London School of Economics. Eles também, admita-se,
dão mais colorido às campanhas. No fundo, tirando os extremistas
à esquerda e à direita, os eleitores conseguem identificar
poucas divergências entre as principais correntes partidárias
da Europa. Uma forte razão para isso é o fato de a União
Européia ser um arranjo que realmente funciona. Não existe
diferença de políticas macroeconômicas entre os doze
países que adotaram o euro (Alemanha, Áustria, Bélgica,
Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda,
Itália, Luxemburgo e Portugal). Nesses países, o banco central
europeu é o responsável pela condução dos
rumos da economia há dois anos. "As eleições nacionais
não motivam mais o eleitor como antes porque ele sabe que os grandes
rumos já estão traçados e o presidente, seja qual
for, terá pouco poder de mudança", escreveu o jornal francês
Le Monde.
Essa sensação
de esvaziamento ajuda a explicar também o crescimento dos extremistas.
Afinal, eles são os únicos que conseguem chocar o eleitorado
e falar de problemas localizados. "Os candidatos dos principais partidos
são os mesmos faz anos e pararam de ouvir os anseios das ruas",
diz Miguet. Lionel Jospin e Jacques Chirac encaixam-se à perfeição
nessa definição. Em relação à eleição
de 1995, ambos perderam. Chirac encolheu 700 000 votos. Jospin, 2,5 milhões.
Com pequenas variações, os partidos de extrema direita da
Dinamarca à Itália, da Holanda a Portugal têm focado
sua pregação no problema da imigração, tema
que não deixa um único europeu indiferente. Le Pen chegou
a sugerir na semana passada a criação de centros de triagem
para imigrantes. Eles seriam apenas versões modernas de campos
de prisioneiros. Pode parecer bárbaro, mas na Europa, berço
da civilização contemporânea, essa pregação
encontra ouvintes atentos. Felizmente, eles são minoria. E devem
continuar a ser.
|
O
que pensam os radicais
Em
todos os países, eles têm uma obsessão: os imigrantes.
A receita deles é o isolacionismo
AP

|
SILVIO
BERLUSCONI,
primeiro-ministro italiano
"Devemos estar conscientes da superioridade da civilização
ocidental em relação à islâmica." |
UMBERTO
BOSSI,
chefão da Liga Norte e ministro da Reforma
da Itália
"Vamos todos dizer não à União Européia
fascista. Não à esquerda nazista."
AFP
 |
PAULO
PORTAS,
ministro da Defesa de Portugal
"Precisamos fechar as torneiras da imigração
em Portugal." |
PIA
KJAERSGAARD,
do Partido do Povo Dinamarquês
"Na Dinamarca, um país cristão, há
muçulmanos demais. Acho que eles são
um problema."
PIM
FORTUYN,
expoente
dos radicais holandeses
"Os 16 milhões de holandeses já são um número
de bom tamanho. O país está cheio."
|

|
|
 |