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Sem peso, dólar
nem esperança

Duhalde tem a missão impossível
de fazer as reformas, convencer
o FMI e manter-se no cargo

Raul Juste Lores

Fotos Reuters
ters
Protestos contra a conversão de depósitos em bônus: poupadores sem saída Lenicov, o quinto ministro em um ano, não conseguiu convencer o FMI


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Noticiário diário de VEJA on-line sobre a crise na Argentina

O colapso da economia argentina transformou pobres em miseráveis, tornou realidade o maior pesadelo da classe média, que é desabar na escala social, e, agora, começa a penalizar até os muito ricos. Ao fim do quarto mês de crise social aguda, um número grande de argentinos está vivendo das cédulas de dólar que conseguiu guardar fisicamente em casa. Os bancos não funcionam normalmente há uma semana. Os caixas eletrônicos secaram. Eduardo Duhalde, o presidente-tampão, é refém do Congresso e dos governadores provinciais, que, por sua vez, são prisioneiros dos panelaços, talvez a única forma de atividade política ainda em pleno vigor na Argentina. Tudo o que Duhalde conseguiu fazer no campo externo até agora foi uma carta de boas intenções. No front interno, tenta aprovar um plano e emplacar um novo ministro da Economia, o embaixador Roberto Lavagna. Ambos entraram em cena na sexta 26. Para um país que teve cinco presidentes em quatro meses, substituir o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, por Lavagna, o sexto a ocupar o posto em um ano, não significa muita coisa. "Antes de mais nada, é preciso recompor o tecido social", salientou o novo ministro num artigo escrito antes de sua nomeação, demonstrando que entende a natureza da questão da Argentina, um país à beira de uma tragédia humanitária.

Traduzida em números, a tragédia mostra que 38% dos argentinos das maiores cidades do país são classificados como pobres. Nas regiões metropolitanas, há 3 milhões de pessoas que se encontram na indigência, ou seja, vivendo com menos de 100 pesos por mês. Para se manterem, elas precisam de ajuda de associações religiosas e ONGs. O número de miseráveis argentinos duplicou nos últimos dois anos. A miséria não pára de crescer. Apenas no primeiro trimestre deste ano, 180 000 pessoas foram demitidas. Com um desemprego recorde de 23%, é quase impossível que essas pessoas possam voltar a manter suas casas. As escolas públicas estão inchadas de crianças que abandonaram os colégios particulares, e nos hospitais públicos enfrentam-se filas, algo absolutamente incomum na Argentina. Protestos de médicos se repetem por falta de remédios ou de equipamentos. Na província de Buenos Aires, a mais populosa e mais rica do país (que, apesar do nome, não inclui a capital), 50% da população vive abaixo da linha da pobreza. O número atual superou o contingente de pobres gerado pela hiperinflação de 1989. No interior a situação é pior. Enquanto na capital menos de 10% estão abaixo da linha da pobreza, na província de Formosa, por exemplo, essa é a situação de 60% da população.

 
Editorial Perfil
A bilionária Amalita, em crise: leilão de obras de arte e dívidas de 400 milhões

O enredo não oferece saídas. A tragédia argentina parece ter sido tramada pelo pior inimigo do país. Mas não. Foi urdida internamente por décadas de descaso fiscal e ilusão de que a formidável riqueza natural da nação resistiria a toda sorte de desmandos. Não resistiu, como se vê. Ninguém sabe até quando os bancos sobreviverão à falta de dinheiro, provocada pelo calote do governo e de outros grandes devedores, entre eles as maiores empresas argentinas. Pelos cálculos da federação de bancos, alguns deles teriam fundos para funcionar por apenas duas semanas. Num sinal dos tempos, uma enquete na quarta-feira passada de um site de pesquisas convidava os internautas a votar no banco que eles achavam que cairia em primeiro lugar. Como quem vive da mão para a boca e um dia de cada vez, o presidente Duhalde parecia somente querer garantir um fim de semana mais tranqüilo. "Na segunda-feira teremos ministro novo e plano novo", disse ele na madrugada de sexta-feira.

 
Editorial Perfil
O milionário Costantini: exposições canceladas no novo museu

Infelizmente, a promessa não infunde uma gota de esperança no povo. A Argentina está, na magistral definição do economista americano Martin Feldstein, da Universidade Harvard, "na condição de um homem que precisa tentar erguer a si próprio do chão puxando pelos cadarços do sapato". Isso se chama ciclo vicioso. O país precisa de ajuda internacional. Mas esta virá apenas depois que ele fizer reformas. Ocorre que, sem auxílio, a Argentina não tem forças para empreendê-las. Só o governo e as províncias deram um calote de quase 30 bilhões de pesos nos bancos locais, o que representa metade do total que a população tinha em depósitos. Os cofres estão vazios. O governo promete fazer uma reforma fiscal e um ajuste de contas, mas pede, inicialmente, uma ajuda bilionária ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para poder começar a devolver parte do que deve. No entanto o fundo, que conhece a habilidade argentina de prometer acordos e jamais cumpri-los, quer primeiro um ajuste profundo e doloroso para depois liberar o dinheiro – antes que outros bilhões sejam tragados por esse buraco negro das finanças do país. Afinal, a Argentina decretou o maior calote da história, do total de sua dívida externa – 150 bilhões de dólares. Os ajustes que o FMI pede colocariam na rua 400.000 funcionários públicos das províncias, do total de 1,5 milhão existente. É um sacrifício e tanto que nenhum governador argentino tem pulso político para implantar, especialmente numa época em que o poder político emana dos panelaços em meio ao caos social. Enquanto isso, milhões de argentinos temem por suas economias confiscadas nos bancos, o desemprego chega à inacreditável taxa de 23% e a economia do país deve encolher 15% neste ano.

Na semana passada Duhalde tentou converter os depósitos bancários em bônus, que os poupadores retirariam para trocar a longo prazo. Propôs também voltar a um câmbio fixo, de 3 pesos por 1 dólar. Resultado: o palácio do Congresso amanheceu cercado de manifestantes irados. Os congressistas eram obrigados a passar por uma espécie de corredor polonês, em que eram xingados e recebiam cusparadas. Duhalde só não foi forçado a renunciar porque os governadores peronistas que lhe dão sustentação política são candidatíssimos à sucessão no ano que vem e não querem o abacaxi de administrar um país inteiramente implodido. Esperam que Duhalde faça o serviço mais espinhoso e necessário: as reformas impopulares na gastança das províncias e na arrecadação de impostos, que não foram realizadas nos governos de Carlos Menem e De la Rúa. Será um calvário. "Não há sinais de mudança na atitude dos governadores. Vários acordos de controle dos gastos já foram assinados e nenhum foi cumprido", diz o economista Eduardo Rodríguez Diez, da Fundação Capital, uma das maiores consultorias do país.

 
Reuters
Aposentados cercam agência: temor de que os bancos quebrem

A sociedade entrou em guerra. Os aposentados estão hostilizando os correntistas que conseguiram reaver seu dinheiro com ajuda da Justiça. Os funcionários dos bancos começaram a fazer barricadas para impedir o trabalho do Judiciário. Afinal, eles acham que serão os primeiros prejudicados se os estabelecimentos quebrarem. Um juiz ordenou à polícia abrir o cofre de um banco com maçaricos e pés-de-cabra. É um salve-se-quem-puder. Nos últimos quatro meses, o que movimentou a economia argentina foram os estimados 25 bilhões de dólares que a população, precavida, guardou embaixo do colchão, longe da Receita Federal e de toda forma organizada de governo. Quando a crise começou, em dezembro, estimava-se que o dinheiro físico estocado em casa pelos argentinos não passasse de 6 bilhões de dólares. Pelos cálculos do banco central argentino, esse número é quatro vezes maior. Obviamente, esse dinheiro tem vida curta. Ninguém investe. Sem confiança, não há empréstimos nem arrecadação. Ele permite ao país apenas não morrer de inanição. Mas não pode tirá-lo da paralisia.

A população, sacudida e aterrorizada por crises seqüenciais, achava que já havia chegado ao fundo do abismo. Estava enganada. Sem dinheiro, com seus cartões de crédito reduzidos a bolachas de plástico coloridas sem poder de compra, poucos argentinos podem sair à noite, algo que eles prezam quase tanto quanto a carne e o futebol. Shopping centers fecham as portas e restaurantes caros atendem uma única mesa por noite. É a crise mudando a cultura e os padrões de comportamento de todo um país. Dificilmente um povo pode ser submetido a provação mais dolorosa. Até os endinheirados estão sofrendo – à sua maneira, é claro. A mulher mais rica do país, a empresária do cimento Amalita Lacroze de Fortabat, 80 anos, está leiloando quadros em Nova York para fazer caixa. Outro milionário, Eduardo Costantini, cancelou exposições porque não pôde pagar as altas taxas de seguro e de transporte, cotadas em dólar, das obras que viriam de fora. Ricos, pobres e classe média encontram-se no mesmo barco. Uma nau sem lastro nem rumo.

 
 
   
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