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A
agonia do vizinho
AP
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| Os
argentinos protestam: a democracia das ruas é a maior força
política |

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Com
um governo-tampão, um eterno feriado bancário, o Judiciário
desmoralizado e a economia paralisada, a Argentina está submetendo
o povo à maior provação de sua história. Paradoxalmente,
a única forma de energia criativa que o país demonstra vem
das ruas, da democracia direta que, em geral, nada constrói, mas
no caso argentino vem, ao som dos panelaços, mantendo acesa no
país a chama da sobrevivência. A rivalidade entre os brasileiros
e os tradicionalmente orgulhosos vizinhos do sul foi substituída
por um sentimento misto de compaixão e temor pelo contágio
da crise. É compreensível. A cada dia fica mais claro que
o labirinto argentino não tem uma porta de saída.
O país foi aprisionado num círculo vicioso quase impossível
de ser rompido. Para ser ajudada pelos países ricos e seus organismos
financeiros, como o FMI, o Tesouro americano e o Banco Mundial, únicos
agentes que podem guindá-la do caos, a Argentina tem de fazer reformas.
Mas, para fazê-las, ela precisa de ajuda em dinheiro. E muito dinheiro.
Pelas contas do FMI, será preciso entregar ao governo argentino
34 bilhões de dólares para pavimentar uma saída honrosa
da crise. Não existe a menor boa vontade internacional para com
a Argentina capaz de alavancar ajuda tão volumosa. Teme-se, não
sem razão, que o país transforme mais essa chance em um
instrumento de preservação de suas estruturas administrativas
falidas. Foi exatamente isso que a Argentina fez com a última ajuda
recebida do FMI, cerca de 8 bilhões de dólares, que apenas
permitiram ao governo de Fernando de la Rúa arrastar-se por mais
três meses no fim do ano passado.
Rapidamente a crise argentina deixa de ser um enigma de finanças
internacionais para se tornar uma questão humanitária. O
dinheiro acabou, e mesmo assim se prevê que o ano termine com uma
inflação acima de 80%, combinação maléfica
que caracteriza a estagflação, estado terminal das sociedades
organizadas. Ainda que o contágio esteja tecnicamente distante
da realidade brasileira, a tragédia argentina cada vez nos machuca
mais.
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