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Edição 1 749 - 1° de maio de 2002
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A agonia do vizinho

AP
Os argentinos protestam: a democracia das ruas é a maior força política


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Noticiário diário de VEJA on-line sobre a crise na Argentina

Com um governo-tampão, um eterno feriado bancário, o Judiciário desmoralizado e a economia paralisada, a Argentina está submetendo o povo à maior provação de sua história. Paradoxalmente, a única forma de energia criativa que o país demonstra vem das ruas, da democracia direta que, em geral, nada constrói, mas no caso argentino vem, ao som dos panelaços, mantendo acesa no país a chama da sobrevivência. A rivalidade entre os brasileiros e os tradicionalmente orgulhosos vizinhos do sul foi substituída por um sentimento misto de compaixão e temor pelo contágio da crise. É compreensível. A cada dia fica mais claro que o labirinto argentino não tem uma porta de saída.

O país foi aprisionado num círculo vicioso quase impossível de ser rompido. Para ser ajudada pelos países ricos e seus organismos financeiros, como o FMI, o Tesouro americano e o Banco Mundial, únicos agentes que podem guindá-la do caos, a Argentina tem de fazer reformas. Mas, para fazê-las, ela precisa de ajuda em dinheiro. E muito dinheiro. Pelas contas do FMI, será preciso entregar ao governo argentino 34 bilhões de dólares para pavimentar uma saída honrosa da crise. Não existe a menor boa vontade internacional para com a Argentina capaz de alavancar ajuda tão volumosa. Teme-se, não sem razão, que o país transforme mais essa chance em um instrumento de preservação de suas estruturas administrativas falidas. Foi exatamente isso que a Argentina fez com a última ajuda recebida do FMI, cerca de 8 bilhões de dólares, que apenas permitiram ao governo de Fernando de la Rúa arrastar-se por mais três meses no fim do ano passado.

Rapidamente a crise argentina deixa de ser um enigma de finanças internacionais para se tornar uma questão humanitária. O dinheiro acabou, e mesmo assim se prevê que o ano termine com uma inflação acima de 80%, combinação maléfica que caracteriza a estagflação, estado terminal das sociedades organizadas. Ainda que o contágio esteja tecnicamente distante da realidade brasileira, a tragédia argentina cada vez nos machuca mais.

 
 
   
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