Livros
Memórias quase póstumas
Chico
Buarque segue os passos de Machado de
Assis e retrata, com desgosto, a elite
brasileira

Carlos Graieb
Leonardo Aversa/Ag. O Globo
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Parece
ser uma sina inescapável para os escritores brasileiros fazer uma oferenda,
cedo ou tarde, no altar de Machado de Assis. A oferenda de Chico Buarque acaba
de ser entregue: é o seu quarto romance, Leite Derramado
(Companhia das Letras; 196 páginas; 36 reais). O espírito do livro
não poderia ser mais machadiano: com um misto de amargura pelos próprios
fracassos e desdém senhorial pelas pessoas que o cercam, Eulálio
Montenegro DAssumpção, um filho da classe alta brasileira,
relembra a sua história de maneira não inteiramente honesta. Mas
também nos detalhes as dívidas com Machado se revelam. De Dom
Casmurro vem, por exemplo, o tema do ciúme doentio que acaba por destruir
a vida de uma mulher. E, se as Memórias Póstumas de Brás
Cubas são narradas, de maneira inusitada, por um "defunto autor",
Leite Derramado se esforça em busca de um efeito próximo:
com mais de 100 anos, e meio embotado pela morfina, o anti-herói Eulálio
agoniza no "ambiente pestilento" de um hospital público do subúrbio
carioca, onde desfia seu monólogo para enfermeiras distraídas.
Leite
Derramado pretende fazer um diagnóstico crítico da sociedade
brasileira. Filho de senador da República, neto de nobre do Império,
bisneto de um figurão da corte de dom João VI e assim por
diante, até o tempo dos afonsinhos , Eulálio é herdeiro
de todos os vícios e preconceitos de seus antepassados. Ele seria a prova
viva de como males ancestrais ainda infectam o presente. O problema é que,
nascido em 1907, Eulálio não é, verdadeiramente, um homem
do tempo atual. Na verdade, ele quase não é um homem do século
XX. Tudo o que aconteceu no Brasil a partir dos anos 50 mal se reflete em sua
narrativa. Novamente, a sombra de Machado de Assis se impõe. Machado apontou
mazelas concretas de seu tempo. Chico Buarque, ao contrário, não
fala de como o racismo, o sexismo, a corrupção ou o esbulho das
coisas públicas se manifestam no Brasil contemporâneo fala
apenas das peculiaridades odiosas de um homem muito velho, criado 100 anos atrás.
Sua pretensão sociológica naufraga nas águas rasas do esquerdismo.
O que sobra é a denúncia, vazia e caricatural, de uma "elite
podre".
Isso não
significa que Leite Derramado seja uma má leitura. Desde o seu primeiro
livro, Estorvo, Chico Buarque pratica um estilo em que o prosaico se mistura
a efetivos achados poéticos. Esse estilo leve arrasta o leitor para dentro
da história. A maneira fragmentária como Eulálio vai arrancando
lembranças do "pandemônio da memória" também
cria lacunas e um certo suspense. O maior enigma é a natureza do sumiço
de Matilde, a amada esposa de Eulálio. Ela fugiu com outro homem? Foi acometida
por uma doença terrível? Ou recebeu um castigo imerecido? Longe
de ser um fracasso como narrativa, o novo livro de Chico Buarque apenas deixa
de realizar todas as suas ambições e mostra que nunca é
seguro para um escritor seguir as pegadas de Machado de Assis.
| DESEJO POR FÊMEAS "Foi
meu pai quem me apresentou às mulheres em Paris, contudo, mais que as próprias
francesas, sempre me impressionou o seu olhar para elas. Assim como o aroma das
mulheres daqui não me impressionava tanto quanto o cheiro dele, impregnado
na garçonnière que ele me emprestava. Debaixo do chuveiro eu agora
me olhava quase com medo, imaginando em meu corpo toda a força e a insaciedade
do meu pai. Olhando meu corpo, tive a sensação de possuir um desejo
potencial equivalente ao dele, por todas as fêmeas do mundo, porém
concentrado numa só mulher." Trecho de Leite
Derramado, de Chico Buarque |