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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Qualidade
ou inovação?
"No
Brasil, como não acertamos
com os caminhos tradicionais, nosso sistema educacional tornou-se permeável
a toda sorte de inovação" Volta
e meia nos comparamos com o Leste Asiático, e as conclusões são
lúgubres. De fato, nos testes internacionais de rendimento escolar, os
resultados de Cingapura, Coréia e Japão são sempre espetaculares.
E a China está avançando.
Quando analisamos mais a fundo, vemos que o sucesso desses países resulta
do esforço concentrado. Repete-se a velha fórmula de estudar até
aprender. E dá certo. O lado ruim é que os sistemas do Leste Asiático
são convencionais e promovem um aprendizado muito estreito. O Ministério
da Educação do Japão se queixa de que há poucos desafios
à imaginação. O ensino é impecável, mas gera
pessoas pouco criativas. As tentativas de mudança são rechaçadas
ferozmente pelos pais, temendo que a escola use seus filhos como cobaias para
testar inovações o que poderia prejudicar suas chances futuras.
Ilustração
Ale Setti
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Se
não está na Ásia, onde estaria a inovação educativa?
Estados Unidos e Israel são grandes usinas de inovação e,
ao mesmo tempo, têm excelência. A América Latina tem uma educação
que não deu certo. É atrasada historicamente e custa muito para
alcançar resultados apenas sofríveis. Mas o curioso é ser
ela um dos grandes laboratórios da educação. Parece inverossímil
e paradoxal sermos um grande pólo de inovação.
No topo da criatividade estão Brasil e Colômbia, onde a educação
é péssima. E há também o Chile, introduzindo soluções
inovadoras na gestão do ensino. Em contraste, apesar de terem a Argentina
e o Uruguai os melhores sistemas educativos, são os países com menos
inovações. Por que diabos
seria assim? Ao que parece, a criatividade de alguns países da América
Latina é um mecanismo de compensação. Como não conseguiram
fazer uma escola convencional boa, tentam inovar, buscando modelos melhores, mais
robustos ou apoiados em tecnologia. Vejamos alguns exemplos.
A Colômbia criou a Escuela Nueva, uma fórmula de escola rural extraordinariamente
bem-sucedida e bastante copiada. Tem também ampla experiência com
o marketing social da educação. A fragilidade institucional do país
é compensada pela força e pela inovação de suas instituições
do terceiro setor. Os economistas
que tiveram muito poder no Chile criaram mecanismos interessantes
para a contratação de cursos (privados ou públicos) de formação
profissional, condicionando a concessão de recursos públicos à
obtenção de emprego para os alunos. Implantaram também um
sistema engenhoso de privatização da formação profissional
e foram pioneiros no uso sistemático de testes para monitorar o funcionamento
das escolas. Mas, possivelmente, a
maior coleção de inovações educativas esteja no Brasil,
um pobre coitado em matéria de ensino. Paulo Freire é a grande referência
internacional em programas de alfabetização de adultos. O modelo
do Senai foi copiado em quase toda a América Latina e continua imbatível.
O Brasil foi pioneiro no uso do rádio para o ensino e, junto com o México,
é líder na TV educativa. O programa de reforma educativa de Minas
Gerais aparece em vários livros estrangeiros e serve de exemplo de como
é possível dar um grande salto em pouco tempo. Os programas de aceleração
para os alunos repetentes mostram resultados excepcionais. O Provão foi
um programa único no mundo, invejado pelos educadores estrangeiros.
Não chega a ser um paradoxo. Em alguns países que tiveram êxito
como os asiáticos e, em menor grau, Argentina e Uruguai ,
erguem-se barreiras de proteção às mudanças. Deu certo,
então por que mudar? Contudo, podem encontrar menor resistência às
inovações certos países que estão por baixo e não
logram resolver seus problemas pelas soluções convencionais. O Brasil
está nesse time. Horrendamente atrasado em sua educação,
vale tudo para encontrar uma fórmula salvadora. Como não acertamos
com os caminhos tradicionais, nosso sistema tornou-se permeável a toda
sorte de inovação. É um consolo, um alento e um potencial.
Mas apenas com criatividade não chegaremos lá. Nada substitui o
esforço obstinado e persistente que deu certo na Ásia e onde
quer que haja educação de qualidade. Claudio
de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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