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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Histeria, patetice
e rock'n'roll
"Vai ser o delírio", diz o repórter.
É o delírio. Sem o incentivo da TV,
o delírio não seria tão delirante
A infausta passagem pelo Brasil
de dois famosos conjuntos de rock deu ensejo a que os meios de comunicação
em geral, a televisão em particular, se dessem com gosto
e empenho a uma de suas práticas prediletas a de incitar
a histeria e/ou idiotia da população. "O que você
vai sentir quando eles entrarem no palco?", perguntava a repórter,
esticando o microfone para um grupo de mocinhas, instantes antes
do show do grupo U2. "Vou morrer", disse uma. "Vou surtar", disse
outra, tudo entre gritinhos e pulinhos. Era o que a repórter
queria ouvir. Morrer, surtar que delícia! Volta para
o estúdio, e os apresentadores do telejornal sorriem, satisfeitos
como um político do PSDB depois de esvaziar uma garrafa de
Amarone della Valpolicella, corte Sant'Alda, safra 1995, no restaurante
Massimo.
Dias antes dos shows, como é
de rigor, já havia pessoas acampadas nos locais onde aconteceriam.
Imagina-se o desconforto desse novo povo das ruas, a dormir mal,
comer pior e sofrer os efeitos dramáticos da falta de um
banheiro. Alguém dotado de um mínimo de espírito
humanitário procuraria encaminhar essas pessoas a um tratamento
psicológico. Não os meios de comunicação.
Estes se deleitam diante de tais faquires do universo pop. "Há
quanto tempo vocês estão aqui?", pergunta-lhes o repórter.
"Dois dias? E o outro lá três? E o outro
cinco?" E é um maravilhamento só. "Vale a pena?" "Vale,
qualquer sacrifício vale." E a televisão exalta o
exemplo desses jovens que deixam tudo, conforto, estudo, trabalho,
em honra dos ídolos. São os nossos muçulmanos,
em tempo de hajj, quando vale qualquer sacrifício,
inclusive morrer pisoteado, para visitar os lugares do profeta.
O líder dos Rolling Stones
marcha com passos enérgicos de um lado para outro do palco,
move os braços de modo decidido, nunca sorri. Abstraia-se
o som infernal e, se aquilo fosse cinema mudo, teríamos a
cena de um recruta que se perdeu do regimento e procura desesperadamente
o rumo, no meio do campo de batalha. Ou, então, a ação
de uma dona-de-casa enraivecida, andando de um lado para outro da
casa, a mostrar à faxineira como ela fez tudo errado. Não,
ninguém está lá para tapar os ouvidos e brincar
de cinema mudo. Na verdade essas pessoas estão lá
para algo que vai além de ver ou escutar adorar. "Agora
ele se aproxima do público", conta o repórter. "Vai
ser o delírio." É o delírio. Se não
fosse a presença das câmeras de TV, talvez não
se configurasse delírio tão delirante. A TV e o delírio
têm tudo a ver.
O líder dos Rolling Stones,
na boa tradição do rock, é um nulo em matéria
de política. Um "alienado", como se dizia, numa ofensa pior
do que xingar a mãe, na época em que ele era jovem.
Já Bono, do U2, se entrega à militância em favor
de todas as boas causas, tantas que alguém lhe precisaria
dizer: "Calma, rapaz! Assim nem Madre Teresa de Calcutá..."
Ele considera que o presidente Lula está fazendo muito para
diminuir a fome e a pobreza no mundo. Com isso, aumentou em 100%
a quantidade de pessoas que partilham desse pensamento agora
ele se soma ao próprio Lula. Ao ir ao encontro do presidente
brasileiro, Bono disse que visitar Brasília sempre fora seu
sonho. Como? Alguém pode ter o sonho de visitar Brasília?
Ou o rapaz está mal, muito mal de sonhos, ou foi insincero.
E, se foi insincero nesse ponto, será que também nas
causas que defende...
Não. Afastemos as suspeitas
descabidas. Importante é que ele chamou uma mocinha de Volta
Redonda para dançar no palco. "Que sortuda", exclamou a apresentadora
do telejornal. A apresentadora aparentemente gostaria de estar no
lugar da mocinha. Ou talvez não. Talvez o que ela quisesse
era mostrar que também estava no clima. Não cabiam
dissensões. A TV empenhava-se em fazer crer que era saudável,
bonito e razoável que todos os brasileiros reagissem com
efusões desmesuradas, quanto mais desmesuradas melhor, à
presença dos ídolos do rock. O marido da mocinha de
Volta Redonda disse que não teve ciúme, nem quando
ela afagou o queixo do cantor, bem apertadinha, nem quando lhe sapecou
um beijinho na boca. "Fã é assim mesmo", disse. A
mocinha, naquele momento, era o retrato do ser humano subjugado.
Desceria aos infernos com seu ídolo, o seguiria nas batalhas
mais espinhosas pela justiça no mundo, juntaria à
dele a voz pelo hexa do Brasil e pela glória da irredenta
Irlanda. Fã é assim mesmo.
Bono, portento de tolerância
que é, uniu os símbolos do cristianismo, do judaísmo
e do Islã na mesma faixa enrolada à testa. Em outro
momento, recitou os nomes dos países da América Latina
e, quando falou "Argentina", o público vaiou. A platéia
provou que, em matéria de tolerância, não é
digna de Bono. Em compensação, os coleguinhas de escola
do filho brasileiro de Mick Jagger, o homem dos Rolling Stones,
mostraram que estão no clima. Quando Jagger apareceu por
lá, causou tumulto. Provou-se que as lições
da TV estão sendo bem aproveitadas. A histeria e a parvoíce
já se implantaram entre as novas gerações.
Com isso está garantida sua continuidade.
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