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Cinema No
princípio, era o verbo Terrence Howard mostra
como um homem se transforma ao domar as palavras 
Isabela Boscov
Fotos divulgação  |
| Howard, como o aspirante a rapper DJay: às vezes
o Oscar faz justiça |
Ritmo
de um Sonho (Hustle & Flow, Estados Unidos, 2005), que estréia
nesta sexta-feira no país, parte de um ponto aparentemente difícil
de sustentar: que o cafetão DJay é um homem de bem. De dentro de
seu "escritório", um Chevrolet caindo aos pedaços, DJay (interpretado
por Terrence Howard, que concorre ao Oscar de melhor ator) explora três
prostitutas e às vezes também vende maconha, circulando pelas vielas
sujas, pelos bares decadentes e pelos clubes de strip-tease baratos dos guetos
de Memphis. O diretor Craig Brewer, ele próprio criado na cidade, mostra
esses ambientes com uma intimidade e uma riqueza de detalhes que, a princípio,
parecem querer sustentar a idéia de que DJay e suas "meninas", nesse mundo
miserável, não teriam muita alternativa além de ser o que
são. DJay, porém, se recusa a engolir essa espécie de determinismo
social. Um pensador intuitivo, ele argumenta, em frases que quase sempre perdem
o fôlego antes de chegar ao seu destino, que a obrigação do
ser humano é exercitar seu arbítrio e elevar-se acima de sua natureza
e de suas circunstâncias. A
saída que DJay vislumbra é tornar-se um rapper. A partir dela, Ritmo
de um Sonho descreve duas trajetórias complementares. A primeira, matéria-prima
de incontáveis outros filmes, é a da música como rota de
fuga da pobreza. A segunda, absolutamente original, é de como o ato de
compor obrigará DJay a verbalizar de forma conseqüente seus pensamentos
esse, sim, o requisito indispensável para que um indivíduo
possa se elevar acima de suas circunstâncias. Esse é o primeiro aspecto
em que o filme se excede: o de mostrar o rap não como moda ou desabafo,
mas como instrumento de articulação individual. O segundo é
a maneira como Terrence Howard dá corpo a essa idéia. Num percurso
dramático que se move milímetro a milímetro, ele termina
por conduzir seu personagem até o ponto diametralmente oposto daquele em
que é visto no início. A Academia não é célebre
por fazer justiça, mas a indicação de Howard ao Oscar mostra
que até ela, como DJay, é capaz de redenção.
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