Edição 1945 . de março de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
No princípio, era o verbo

Terrence Howard mostra como um homem
se transforma ao domar as palavras


Isabela Boscov


Fotos divulgação
Howard, como o aspirante a rapper DJay: às vezes o Oscar faz justiça

DA INTERNET
Trailer do filme

Ritmo de um Sonho (Hustle & Flow, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, parte de um ponto aparentemente difícil de sustentar: que o cafetão DJay é um homem de bem. De dentro de seu "escritório", um Chevrolet caindo aos pedaços, DJay (interpretado por Terrence Howard, que concorre ao Oscar de melhor ator) explora três prostitutas e às vezes também vende maconha, circulando pelas vielas sujas, pelos bares decadentes e pelos clubes de strip-tease baratos dos guetos de Memphis. O diretor Craig Brewer, ele próprio criado na cidade, mostra esses ambientes com uma intimidade e uma riqueza de detalhes que, a princípio, parecem querer sustentar a idéia de que DJay e suas "meninas", nesse mundo miserável, não teriam muita alternativa além de ser o que são. DJay, porém, se recusa a engolir essa espécie de determinismo social. Um pensador intuitivo, ele argumenta, em frases que quase sempre perdem o fôlego antes de chegar ao seu destino, que a obrigação do ser humano é exercitar seu arbítrio e elevar-se acima de sua natureza e de suas circunstâncias.

A saída que DJay vislumbra é tornar-se um rapper. A partir dela, Ritmo de um Sonho descreve duas trajetórias complementares. A primeira, matéria-prima de incontáveis outros filmes, é a da música como rota de fuga da pobreza. A segunda, absolutamente original, é de como o ato de compor obrigará DJay a verbalizar de forma conseqüente seus pensamentos – esse, sim, o requisito indispensável para que um indivíduo possa se elevar acima de suas circunstâncias. Esse é o primeiro aspecto em que o filme se excede: o de mostrar o rap não como moda ou desabafo, mas como instrumento de articulação individual. O segundo é a maneira como Terrence Howard dá corpo a essa idéia. Num percurso dramático que se move milímetro a milímetro, ele termina por conduzir seu personagem até o ponto diametralmente oposto daquele em que é visto no início. A Academia não é célebre por fazer justiça, mas a indicação de Howard ao Oscar mostra que até ela, como DJay, é capaz de redenção.

 
 
 
 
topovoltar