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Espaço
Ao infinito e além – em marketing Astronauta
brasileiro vai finalmente ao espaço, em viagem de muito efeito e pouco
resultado 
Camila Pereira
AP  |
| Marcos Pontes: palestras a 12 000 reais e camisetas "com
o emblema do único astronauta brasileiro" |
No mês
que vem, o tenente-coronel-aviador da Aeronáutica Marcos Cesar Pontes decolará
do Cazaquistão, a bordo da nave russa Soyuz, rumo à Estação
Espacial Internacional (ISS, em inglês), mantida por um consórcio
de dezesseis países, entre os quais o Brasil. O astronauta permanecerá
oito dias no espaço. Do ponto de vista do espetáculo, a missão
já tem retorno garantido. Pontes fará três teleconferências
com o Brasil (sendo a primeira delas com o presidente Lula), terá o lançamento
de sua aeronave transmitido em rede nacional de televisão e se tornará
o primeiro brasileiro a deixar a órbita terrestre. Já do ponto de
vista da ciência, os resultados são bem menos promissores. "O valor
científico dessa viagem é quase nulo", afirma o físico Ennio
Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC). "Os experimentos programados não trarão avanços para
a ciência a ponto de justificar o investimento", diz.
Como todo astronauta em missão, Pontes leva na bagagem um pacote de testes
científicos a ser realizados durante a viagem. Ocorre que, dos nove experimentos
previstos, um já foi vetado pela agência espacial russa, por não
atender às normas de segurança exigidas, e dois têm origem
nas sugestões de um grupo de alunos do ensino fundamental de São
José dos Campos (SP) o que lhes confere caráter muito mais
pedagógico do que científico (ninguém espera que o plantio
de grãos de feijão em chumaços de algodão, uma das
propostas dos estudantes, vá representar um grande passo para o progresso
da ciência). Restam, portanto, seis experimentos a ser levados em conta.
Destes, pelo menos dois, relacionados à construção de satélites,
poderiam ser "automatizados" ou seja, enviados para o espaço em
satélites e ativados da Terra, a partir de ondas eletromagnéticas.
Sairia bem mais barato, concordam os cientistas. Quanto aos últimos quatro
testes previstos, eles têm todos o mesmo objetivo: avaliar o efeito que
a ausência de gravidade produz sobre organismos vivos mais especificamente,
sobre dois tipos de enzima, um tipo de bactéria e um tipo de semente da
região do cerrado. "O problema desses experimentos reside muito menos nos
seus propósitos, que não deixam de ser meritórios, do que
no fato de eles não estarem inseridos no contexto do programa espacial
brasileiro", afirma José Monserrat Filho, membro da diretoria do Instituto
Internacional de Direito Espacial. "É como se servissem apenas para justificar
a missão", diz. A viagem do
astronauta brasileiro, inicialmente prevista para 2001, ocorre depois de dois
adiamentos, uma suspensão e uma sucessão de trapalhadas protagonizada
pelo governo brasileiro. Originalmente, a ida de Pontes ao espaço fazia
parte do acordo que, em 1997, estabeleceu a participação do Brasil
na ISS. Esse acordo previa que, em troca da viagem do astronauta brasileiro, o
país fabricaria, em um prazo de cinco anos, um pacote de seis peças
a ser anexadas à estação, incluindo as janelas e os suportes
para as câmeras que fotografariam a superfície terrestre. Assinado
o acordo, no entanto, constatou-se que as indústrias nacionais não
possuíam a tecnologia necessária para produzir a encomenda. O resultado
foi uma sucessão de constrangimentos, 50 milhões de reais jogados
fora na fracassada tentativa de fabricar as peças e um atraso de cinco
anos numa viagem que, afinal, só saiu porque o Brasil decidiu pagar 10
milhões de dólares por ela (veja
quadro). Se, para o país, os benefícios que o empreendimento
trará ainda são duvidosos, o mesmo não se aplica ao astronauta
Pontes. No site que montou na internet, ele se oferece para dar palestras sobre
temas diversos a preços que variam de 10.000 a 12.000 reais e anuncia a
venda de 33 produtos que vão de adesivos com seu nome a camisetas baby
look "com o emblema do único astronauta brasileiro". Em ano eleitoral,
a missão também é uma boa oportunidade de marketing para
Lula. É a ciência a serviço do progresso nem que seja
o de alguns poucos.
| Ivan é mais útil
AP/NASA TV  |
| O traje no espaço: minissatélite |
Todo mundo se desfaz de roupas velhas. Mas o que fazer
com um traje espacial que já não serve para nada? Os russos lançaram
uma moda literalmente. Transformaram um traje antigo numa espécie
de satélite e o mandaram para a órbita terrestre, desta vez sem
ninguém dentro. O "astronauta", batizado de Ivan Ivanovich, foi equipado
com baterias, sensores, computador, emissor de sinais e um transmissor de rádio
traquitanas criadas por estudantes universitários. A vida útil
de Ivan Ivanovich, lançado por dois astronautas da Estação
Espacial Internacional, durou cerca de duas semanas. Seus últimos sinais
compreensíveis foram captados no dia 17 de fevereiro. O pessoal envolvido
no projeto acredita que as baterias tenham descarregado. Mas a experiência
foi satisfatória. Os sensores estavam programados para assimilar dados
sobre a temperatura interna do traje e a potência das baterias que os faziam
funcionar. Tais informações serão úteis para que outros
trajes espaciais possam ser transformados em minissatélites, depois de
aposentados de sua função original. Ivan Ivanovich ainda permanecerá
em órbita por mais algumas semanas, até que se desintegre ao adentrar
a atmosfera da Terra. | | |