Edição 1945 . de março de 2006

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Espaço
Ao infinito e além
– em marketing

Astronauta brasileiro vai finalmente ao espaço,
em viagem de muito efeito e pouco resultado


Camila Pereira


AP
Marcos Pontes: palestras a 12 000 reais e camisetas "com o emblema do único astronauta brasileiro"


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Perdido no espaço

EXCLUSIVO ON-LINE
Em profundidade: Exploração do Espaço

No mês que vem, o tenente-coronel-aviador da Aeronáutica Marcos Cesar Pontes decolará do Cazaquistão, a bordo da nave russa Soyuz, rumo à Estação Espacial Internacional (ISS, em inglês), mantida por um consórcio de dezesseis países, entre os quais o Brasil. O astronauta permanecerá oito dias no espaço. Do ponto de vista do espetáculo, a missão já tem retorno garantido. Pontes fará três teleconferências com o Brasil (sendo a primeira delas com o presidente Lula), terá o lançamento de sua aeronave transmitido em rede nacional de televisão e se tornará o primeiro brasileiro a deixar a órbita terrestre. Já do ponto de vista da ciência, os resultados são bem menos promissores. "O valor científico dessa viagem é quase nulo", afirma o físico Ennio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "Os experimentos programados não trarão avanços para a ciência a ponto de justificar o investimento", diz.

Como todo astronauta em missão, Pontes leva na bagagem um pacote de testes científicos a ser realizados durante a viagem. Ocorre que, dos nove experimentos previstos, um já foi vetado pela agência espacial russa, por não atender às normas de segurança exigidas, e dois têm origem nas sugestões de um grupo de alunos do ensino fundamental de São José dos Campos (SP) – o que lhes confere caráter muito mais pedagógico do que científico (ninguém espera que o plantio de grãos de feijão em chumaços de algodão, uma das propostas dos estudantes, vá representar um grande passo para o progresso da ciência). Restam, portanto, seis experimentos a ser levados em conta. Destes, pelo menos dois, relacionados à construção de satélites, poderiam ser "automatizados" – ou seja, enviados para o espaço em satélites e ativados da Terra, a partir de ondas eletromagnéticas. Sairia bem mais barato, concordam os cientistas. Quanto aos últimos quatro testes previstos, eles têm todos o mesmo objetivo: avaliar o efeito que a ausência de gravidade produz sobre organismos vivos – mais especificamente, sobre dois tipos de enzima, um tipo de bactéria e um tipo de semente da região do cerrado. "O problema desses experimentos reside muito menos nos seus propósitos, que não deixam de ser meritórios, do que no fato de eles não estarem inseridos no contexto do programa espacial brasileiro", afirma José Monserrat Filho, membro da diretoria do Instituto Internacional de Direito Espacial. "É como se servissem apenas para justificar a missão", diz.

A viagem do astronauta brasileiro, inicialmente prevista para 2001, ocorre depois de dois adiamentos, uma suspensão e uma sucessão de trapalhadas protagonizada pelo governo brasileiro. Originalmente, a ida de Pontes ao espaço fazia parte do acordo que, em 1997, estabeleceu a participação do Brasil na ISS. Esse acordo previa que, em troca da viagem do astronauta brasileiro, o país fabricaria, em um prazo de cinco anos, um pacote de seis peças a ser anexadas à estação, incluindo as janelas e os suportes para as câmeras que fotografariam a superfície terrestre. Assinado o acordo, no entanto, constatou-se que as indústrias nacionais não possuíam a tecnologia necessária para produzir a encomenda. O resultado foi uma sucessão de constrangimentos, 50 milhões de reais jogados fora na fracassada tentativa de fabricar as peças e um atraso de cinco anos numa viagem que, afinal, só saiu porque o Brasil decidiu pagar 10 milhões de dólares por ela (veja quadro). Se, para o país, os benefícios que o empreendimento trará ainda são duvidosos, o mesmo não se aplica ao astronauta Pontes. No site que montou na internet, ele se oferece para dar palestras sobre temas diversos a preços que variam de 10.000 a 12.000 reais e anuncia a venda de 33 produtos que vão de adesivos com seu nome a camisetas baby look "com o emblema do único astronauta brasileiro". Em ano eleitoral, a missão também é uma boa oportunidade de marketing para Lula. É a ciência a serviço do progresso – nem que seja o de alguns poucos.

 

Ivan é mais útil


AP/NASA TV
O traje no espaço: minissatélite

Todo mundo se desfaz de roupas velhas. Mas o que fazer com um traje espacial que já não serve para nada? Os russos lançaram uma moda – literalmente. Transformaram um traje antigo numa espécie de satélite e o mandaram para a órbita terrestre, desta vez sem ninguém dentro. O "astronauta", batizado de Ivan Ivanovich, foi equipado com baterias, sensores, computador, emissor de sinais e um transmissor de rádio – traquitanas criadas por estudantes universitários. A vida útil de Ivan Ivanovich, lançado por dois astronautas da Estação Espacial Internacional, durou cerca de duas semanas. Seus últimos sinais compreensíveis foram captados no dia 17 de fevereiro. O pessoal envolvido no projeto acredita que as baterias tenham descarregado. Mas a experiência foi satisfatória. Os sensores estavam programados para assimilar dados sobre a temperatura interna do traje e a potência das baterias que os faziam funcionar. Tais informações serão úteis para que outros trajes espaciais possam ser transformados em minissatélites, depois de aposentados de sua função original. Ivan Ivanovich ainda permanecerá em órbita por mais algumas semanas, até que se desintegre ao adentrar a atmosfera da Terra.

 
 
 
 
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