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Economia e Negócios
Um "baby boom" na Bolsa
Com a forte presença de estrangeiros na
bolsa, empresas que acabaram de chegar
ao mercado são as que mais se valorizam

Leandra Peres
Quem melhor aproveitou a excepcional
valorização das ações negociadas na
Bovespa 30% no ano passado e 15% só nos dois primeiros
meses deste ano foi um grupo de empresas com menos de dois
anos no mercado acionário. Em alguns casos, as ações
subiram o dobro da média do mercado. As ações
da Localiza, por exemplo, a rede de aluguel de carros com o maior
número de agências no Brasil, já renderam 109%
acima da média da bolsa nos últimos nove meses. As
ações do Submarino, site de vendas pela internet,
começaram a ser negociadas na bolsa há apenas um ano
e, nesse período, já se valorizaram 81,9% acima da
média do mercado. Com altas tão expressivas, muitas
das empresas novatas na bolsa atingiram um valor de mercado superior
ao de tradicionais pesos-pesados do mundo das ações
(veja
o quadro). A Natura é um exemplo. Líder
no mercado de cosméticos no Brasil, a Natura vale a metade
da Gerdau, a maior siderúrgica do país.
Como o lucro da Gerdau é
oito vezes maior do que o da Natura, fica no ar uma pergunta: a
Bovespa vive uma bolha especulativa como a que fez explodir o preço
das ações de empresas de internet nos anos 90 em Wall
Street? A súbita valorização das empresas recém-chegadas
à bolsa tem apenas um componente de bolha, que é a
excessiva liquidez de dólares no mercado mundial aliada à
baixíssima rentabilidade projetada para os investimentos
tradicionais e mesmo para os agressivos e arriscados "hedge funds"
nos mercados americano e europeu em 2006. Ou seja, os dólares
estão entrando na Bovespa em busca de valorização
rápida, o que teoricamente é mais alcançável
em empresas novas mas com excelente potencial de crescimento. Com
a possibilidade de queda dos juros em 2006, de crescimento da renda
e do consumo dos brasileiros, empresas do setor de serviços,
como a Gol, e aquelas ligadas ao consumo, como a Natura e o Submarino,
tendem a aumentar suas vendas e crescer. Com isso, os investidores
apostam que a valorização dessas empresas vai superar
o que elas podem eventualmente perder com variações
no câmbio e nos juros.
Fora a artificialidade conjuntural
da liquidez externa, é consenso entre os analistas que a
economia brasileira tem atualmente atrativos que combinam lucratividade
e segurança. Com as finanças públicas em relativa
ordem, o Brasil caminha para atingir o "grau de investimento", classificação
que coloca a economia brasileira em condições de atrair
recursos externos de fontes que antes não cogitavam
ou não podiam legalmente investir por aqui. Em maio
do ano passado, quando a Localiza vendeu seu primeiro lote de 264
milhões de reais em ações, 86,7% delas ficaram
na mão de investidores estrangeiros. A Cosan, empresa do
setor sucroalcooleiro, vendeu 640 milhões de reais a investidores
internacionais de um total de 885 milhões de reais ofertados.
"A presença do investidor estrangeiro tem sido decisiva para
a valorização da bolsa", diz Fernando Exel, presidente
da Economática, empresa especializada em informações
financeiras. O cálculo mais confiável dá conta
de que 36% dos recursos do mercado acionário brasileiro chegam
de fora.
O interesse dos estrangeiros
pelas novas estrelas do mercado acionário deve-se também
à transparência e ao respeito aos investidores minoritários.
Essas companhias, ao lançar ações na bolsa,
assumiram publicamente o compromisso de pagar aos minoritários
o mesmo preço que os controladores receberão por suas
ações caso as empresas sejam vendidas. Além
disso, elas têm o hábito de divulgar mais informações
em seus balanços que o exigido por lei. No caso de dívidas,
por exemplo, essas empresas não se limitam a divulgar o valor
total de seus passivos, conforme manda a legislação.
Vão muito além, informando ao investidor detalhes
sobre o prazo da dívida, garantias que tenham sido empenhadas
e até mesmo se esse passivo está sujeito a riscos
da variação do dólar. Com esses detalhes, o
investidor consegue fazer uma avaliação muito mais
precisa da situação real da companhia. Diz Mauro Cunha,
diretor de investimentos do Bradesco Templeton: "Havia uma demanda
reprimida por ativos de boa qualidade e, quando essas empresas concordaram
em fazer mais do que a lei exige, o investidor aceitou pagar mais
pelas ações".
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