Edição 1945 . de março de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Economia e Negócios
Um "baby boom" na Bolsa

Com a forte presença de estrangeiros na
bolsa, empresas que acabaram de chegar
ao mercado são as que mais se valorizam


Leandra Peres

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A vez das novatas

Quem melhor aproveitou a excepcional valorização das ações negociadas na Bovespa – 30% no ano passado e 15% só nos dois primeiros meses deste ano – foi um grupo de empresas com menos de dois anos no mercado acionário. Em alguns casos, as ações subiram o dobro da média do mercado. As ações da Localiza, por exemplo, a rede de aluguel de carros com o maior número de agências no Brasil, já renderam 109% acima da média da bolsa nos últimos nove meses. As ações do Submarino, site de vendas pela internet, começaram a ser negociadas na bolsa há apenas um ano e, nesse período, já se valorizaram 81,9% acima da média do mercado. Com altas tão expressivas, muitas das empresas novatas na bolsa atingiram um valor de mercado superior ao de tradicionais pesos-pesados do mundo das ações (veja o quadro). A Natura é um exemplo. Líder no mercado de cosméticos no Brasil, a Natura vale a metade da Gerdau, a maior siderúrgica do país.

Como o lucro da Gerdau é oito vezes maior do que o da Natura, fica no ar uma pergunta: a Bovespa vive uma bolha especulativa como a que fez explodir o preço das ações de empresas de internet nos anos 90 em Wall Street? A súbita valorização das empresas recém-chegadas à bolsa tem apenas um componente de bolha, que é a excessiva liquidez de dólares no mercado mundial aliada à baixíssima rentabilidade projetada para os investimentos tradicionais e mesmo para os agressivos e arriscados "hedge funds" nos mercados americano e europeu em 2006. Ou seja, os dólares estão entrando na Bovespa em busca de valorização rápida, o que teoricamente é mais alcançável em empresas novas mas com excelente potencial de crescimento. Com a possibilidade de queda dos juros em 2006, de crescimento da renda e do consumo dos brasileiros, empresas do setor de serviços, como a Gol, e aquelas ligadas ao consumo, como a Natura e o Submarino, tendem a aumentar suas vendas e crescer. Com isso, os investidores apostam que a valorização dessas empresas vai superar o que elas podem eventualmente perder com variações no câmbio e nos juros.

Fora a artificialidade conjuntural da liquidez externa, é consenso entre os analistas que a economia brasileira tem atualmente atrativos que combinam lucratividade e segurança. Com as finanças públicas em relativa ordem, o Brasil caminha para atingir o "grau de investimento", classificação que coloca a economia brasileira em condições de atrair recursos externos de fontes que antes não cogitavam – ou não podiam legalmente – investir por aqui. Em maio do ano passado, quando a Localiza vendeu seu primeiro lote de 264 milhões de reais em ações, 86,7% delas ficaram na mão de investidores estrangeiros. A Cosan, empresa do setor sucroalcooleiro, vendeu 640 milhões de reais a investidores internacionais de um total de 885 milhões de reais ofertados. "A presença do investidor estrangeiro tem sido decisiva para a valorização da bolsa", diz Fernando Exel, presidente da Economática, empresa especializada em informações financeiras. O cálculo mais confiável dá conta de que 36% dos recursos do mercado acionário brasileiro chegam de fora.

O interesse dos estrangeiros pelas novas estrelas do mercado acionário deve-se também à transparência e ao respeito aos investidores minoritários. Essas companhias, ao lançar ações na bolsa, assumiram publicamente o compromisso de pagar aos minoritários o mesmo preço que os controladores receberão por suas ações caso as empresas sejam vendidas. Além disso, elas têm o hábito de divulgar mais informações em seus balanços que o exigido por lei. No caso de dívidas, por exemplo, essas empresas não se limitam a divulgar o valor total de seus passivos, conforme manda a legislação. Vão muito além, informando ao investidor detalhes sobre o prazo da dívida, garantias que tenham sido empenhadas e até mesmo se esse passivo está sujeito a riscos da variação do dólar. Com esses detalhes, o investidor consegue fazer uma avaliação muito mais precisa da situação real da companhia. Diz Mauro Cunha, diretor de investimentos do Bradesco Templeton: "Havia uma demanda reprimida por ativos de boa qualidade e, quando essas empresas concordaram em fazer mais do que a lei exige, o investidor aceitou pagar mais pelas ações".

 
 
 
 
topovoltar