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Brasil
É ainda pior do
que se pensava
Enquanto seu filho enriquecia, Lula quis
mudar a lei que atrapalhava a Telemar

Alexandre Oltramari
Marcelo Ximenez/AE
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| O biólogo Fábio Luís,
conhecido como Lulinha: dinheirama repentina |
Já se sabia que o biólogo
Fábio Luís da Silva, um dos filhos do presidente Lula,
se tornou milionário nos últimos dois anos fazendo
negócios com a Telemar, a maior operadora de telefones do
país. Também se sabia que, além de ser uma
concessionária de serviço público, a Telemar
é em parte uma empresa pública, pois 55% de suas ações
pertencem ao Banco do Brasil, ao Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) e a fundos de pensão de
estatais. Na semana passada, descobriu-se que a relação
da Telemar com Lulinha, como é conhecido o filho do presidente,
é ainda mais estreita. Em primeiro lugar, o repasse da Telemar
para Lulinha não se limitou a 5 milhões de reais,
como se noticiou no ano passado, nem a 10 milhões de reais,
como a empresa admitiu há duas semanas. A cifra é
ainda maior: bate na casa dos 15 milhões de reais. O mais
estranho é que, enquanto a Telemar abastecia o filho de Lula
com recursos, o Palácio do Planalto preparava uma mudança
na legislação que beneficiava a Telemar. O projeto
foi abortado quando saiu das sombras a sociedade Lulinha-Telemar.
A Telemar comprou 35% das ações
da Gamecorp, a empresa da qual Lulinha é sócio, em
dezembro de 2004. Pagou 5 milhões de reais. Há duas
semanas, noticiou-se que, além dos 5 milhões de reais,
a Telemar se comprometera a repassar outros 5 milhões de
reais à Gamecorp em 2006. A justificativa oficial é
um patrocínio a um programa de televisão produzido
pela empresa do filho de Lula, cujos índices de audiência
são desprezíveis. Ao confirmar o patrocínio
de 5 milhões de reais, porém, a Telemar escondeu que
já repassara à Gamecorp outros 5 milhões de
reais, sob a mesma justificativa do patrocínio, no ano passado.
Assim, os repasses da Telemar à empresa de Lulinha chegam
a 15 milhões de reais. Cinco milhões a mais do que
se admitira anteriormente. As coisas se complicam ainda mais quando
se examinam as razões pelas quais a Telemar decidiu fazer
do filho do presidente um alvo preferencial de seus investimentos.
Paulo Jares
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| O leilão das teles em julho de 1998:
de lá para cá, disputas intermináveis |
Enquanto os negócios com
Lulinha prosperavam, a Telemar articulava paralelamente uma transação
cujo êxito dependia do governo: queria comprar a Brasil Telecom.
Como a legislação brasileira proíbe que uma
empresa seja dona de duas operadoras de telefonia ao mesmo tempo,
o negócio só se viabilizaria com uma mudança
na lei. A Telemar, no entanto, tinha tanta confiança de que
a proibição legal seria removida que chegou até
a fazer proposta de compra. Em julho do ano passado, o presidente
da Telecom Italia, Paolo Dal Pino, que é sócio da
Brasil Telecom, admitiu que recebera uma proposta da Telemar, mas
manifestou sua estranheza. "Ou a Telemar está afrontando
a legislação ou a proposta já faz parte de
um plano da empresa para mudar a Lei Geral das Telecomunicações",
dizia, então, Dal Pino. O fato é que, desde o início
de 2005, o governo vinha discutindo mudar a lei para permitir que
uma empresa controlasse duas concessionárias ao mesmo tempo
presente dos céus à Telemar. Mas a mudança
dividia o governo. Luiz Gushiken, então titular da Secretaria
de Comunicação, era favorável à alteração,
que beneficiaria os planos expansionistas de Carlos Jereissati e
Sérgio Andrade, controladores da Telemar. José Dirceu,
que ocupava a Casa Civil, apoiava o empresário Daniel Dantas,
então controlador da Brasil Telecom. Dirceu, portanto, era
contra a mudança da lei.
O cabo-de-guerra entre as teles
coincidiu com um assédio repentino ao governo. Daniel Dantas
contratou o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay,
amigão de José Dirceu, por 8 milhões de reais.
Contratou, também, o advogado Roberto Teixeira, compadre
de Lula, por 1 milhão de reais. Não se sabe até
hoje que serviço jurídico eles prestaram. Do lado
da Telemar, a situação era mais tranqüila. Um
dos controladores, o empreiteiro Sérgio Andrade, é
um velho conhecido do presidente. A única filha de Lula,
Lurian, chegou a morar no apartamento de familiares de Andrade em
Paris. Além disso, Lulinha, a essa altura, já era
sócio da Telemar na Gamecorp havia seis meses embora
o público ainda não soubesse disso. Na semana passada,
um ex-membro do governo, com a condição de não
ser identificado, disse a VEJA que a divisão dentro do governo
foi arbitrada pelo próprio presidente que se decidiu
a favor da Telemar. Em um encontro com um ministro, Lula explicou
que a Telemar deveria ser priorizada pelo governo por ser uma empresa
nacional e que poderia representar o país no exterior. Deu
até o exemplo da Telefónica, que, segundo ele, ajuda
a divulgar a Espanha pelo mundo.
"Achei que a posição
do governo era apenas estratégica, uma idéia nacionalista.
Hoje, desconfio que o aporte da Telemar à Gamecorp pode,
de alguma maneira, ter influenciado a cabeça do presidente",
diz o ex-auxiliar do governo. Uma minuta do projeto chegou a ser
redigida e a circular por gabinetes de ministros envolvidos com
o processo. No dia 8 de julho de 2005, porém, a sociedade
secreta entre Lulinha e a Telemar veio a público. O deputado
Delfim Netto, que fora informado das intenções da
Telemar de comprar a Brasil Telecom assim que a lei fosse alterada,
procurou o presidente Lula para alertá-lo. "Se o governo
mudar a lei, vai ser um escândalo, presidente", advertiu Delfim.
Lula escutou com atenção. No dia 21 de julho, duas
semanas depois da revelação da sociedade secreta entre
Lulinha e a Telemar, o ministro das Comunicações,
Hélio Costa, a pedido de Lula, anunciou publicamente que
o governo não tinha a intenção de mudar a lei.
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