"Sou um novo homem"
Lindomar Castilho, o símbolo da
violência contra a mulher, quer voltar a ser apenas
um cantor
Sérgio Martins, de
Goiânia
Fotos:
Antonio Milena
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Lindomar
e suas recordações: retrato da filha ao
lado dos seus discos
de ouro |
Em 1981, a vida do cantor Lindomar Castilho deu uma virada
brusca. Lindomar era "o rei do bolero" até 30 de
março daquele ano, dia em que assassinou a tiros
a ex-mulher Eliane de Grammont numa boate em São
Paulo. Preso em flagrante, esperou na cadeia o julgamento.
Em 23 de agosto de 1984, foi condenado a doze anos de reclusão,
por homicídio doloso e tentativa de homicídio.
O artista também havia tentado matar seu primo, o
músico Carlos Randal, namorado de Eliane, que estava
com ela na ocasião. Tudo premeditado: antes de encontrar
o casal, Lindomar comprou um revólver calibre 38
e o recheou com balas "dundum", daquelas que explodem dentro
do corpo provocando ferimentos ainda mais graves nas vítimas.
O crime do cantor foi um divisor de águas na história
jurídica brasileira. Até então, a figura
da "legítima defesa da honra" costumava ser utilizada,
cinicamente, como atenuante para atos covardes como o que
ele praticou. A desculpa não serviu para Lindomar.
Seu julgamento foi acompanhado de perto por organizações
feministas, que pressionaram para que se fizesse justiça.
Sentença proferida, ele permaneceu preso até
1988, quando ganhou liberdade condicional por bom comportamento.
Antes disso, já gozava de algumas regalias. Transferido
para Goiânia, onde tem parentes importantes, ele ficava
por longos períodos fora da prisão, sob pretexto
de estar realizando serviços comunitários.
Ao sair da cadeia, Lindomar tentou retomar a carreira.
No começo dos anos 90, fez alguns shows. Em todos
eles, enfrentou vaias sonoríssimas de mulheres na
platéia. "Em uma das vezes, durante um espetáculo
beneficente, os assobios eram tantos que ele desistiu de
cantar", lembra Sérgio Reis, um dos poucos amigos
que não se afastaram de Lindomar. Enxotado dos palcos,
o artista foi cuidar das três fazendas que possui
em sua cidade natal, Santa Helena de Goiás. Agora,
aos 61 anos, ele tem uma grande oportunidade. Vai lançar
um CD ao vivo em abril pela multinacional Sony. A gravadora,
que já ressuscitou Reginaldo Rossi, aposta no apelo
de clássicos castilhianos, como Você É
Doida Demais e Eu Vou Rifar Meu Coração.
Em seu auge, nos anos 70, Lindomar chegou a vender 500.000
cópias de um único LP, um número assombroso
para o mercado da época. "Já paguei minha
dívida com a sociedade", diz o cantor. "Quero começar
uma outra vida."
Lindomar se diz um novo homem. Trocou o cavanhaque por
um rabo-de-cavalo. Parou de beber e de fumar. Não
fala sobre o crime que o marcou indelevelmente prefere
chamá-lo de "o acidente" ou "a burrada". Tem até
namorada, a funcionária pública Vera Cruz
de Castro Lobo, de 49 anos. Não moram juntos. Lindomar
vive com um irmão mais velho num confortável
apartamento em Goiânia. "Não pretendo mais
me casar. Prefiro cada um no seu canto, está bom
assim." Ele afirma que está menos machista e cita
um episódio para ilustrar o fato. "Uma vez, num dos
raros shows que dei, um casal de gays pediu para que eu
cantasse Nós Somos Dois Sem-Vergonhas em homenagem
a eles. Achei estranho esse público apreciar minha
música, mas no fim considerei tudo muito engraçado."
Curso de dança O ponto mais delicado
da reconstrução da vida do cantor é
o relacionamento com a filha. Liliane de Grammont Cabral,
de 20 anos, tinha 1 ano e 8 meses quando a tragédia
aconteceu. Com a mãe morta e o pai na cadeia, foi
criada pelos tios Carmen, irmã de Eliane, e Haroldo.
Teve assistência psicológica, mas ninguém
lhe contava sobre o que realmente tinha acontecido. Soube
do assassinato na época do julgamento, por uma prima,
aos 5 anos. Na família Grammont, o nome de Lindomar
é tabu. "Meus tios evitam falar dele, mas também
nunca julgaram em casa a moral de meu pai", diz Liliane,
que é bailarina e estuda psicologia. Na adolescência,
resolveu, enfim, conhecer Lindomar. Telefonou para ele.
O cantor chora quando se lembra desse momento. "Eu esperei
dezessete anos para ouvir minha filha me chamar de pai",
emociona-se. Estabelecido o contato, o artista patrocinou
um curso de dança de seis meses para a moça
na prestigiada Juilliard School de Nova York. Só
vieram a se encontrar pessoalmente em 1998, quando Liliane
apareceu de surpresa na festa de aniversário do pai.
Hoje Lindomar paga o seu curso de psicologia numa faculdade
paulista. Mesmo assim, os dois não são próximos.
Eles raramente se vêem. Liliane atualmente mora com
outra tia, a jornalista Helena de Grammont, casada com o
comentarista esportivo Juarez Soares. Lindomar não
se sente à vontade em telefonar para lá. Quando
a saudade aperta, pede para a sua namorada ligar e chamar
Liliane. Em seu apartamento, coleciona as lembranças
dos melhores momentos de sua vida discos de ouro,
pôsteres, troféus. Num lugar de destaque está
a foto da filha.
Para relançar-se, o cantor arrendou as fazendas
e abriu um escritório em Goiânia. Não
tem secretária nem empresário. Ele próprio
atende aos telefonemas e tenta vender os seus shows, a um
cachê de 3.000 reais. Está
de passagem marcada para Boston e Toronto, onde cantará
para os brasileiros e portugueses que emigraram para essas
cidades. O CD que sai em abril terá os maiores sucessos
de sua época áurea e incluirá uma música
composta na cadeia, Muralhas da Solidão. A
letra tem versos como Essa dor eu transformo em sorriso/
E meu inferno em paraíso/ Ao plantar na lama e colher
uma flor. "Tudo o que posso dizer é que lamento,
de verdade, o que aconteceu", diz o artista. Há quase
dezesseis anos, Lindomar submeteu-se a júri popular
e foi condenado. Agora, espera com ansiedade o veredicto
do público que dirá se ele merece ou
não ter sua carreira de volta.
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