O salário máximo
Pressionado pelo PFL,
o governo calcula até onde
o mínimo pode subir sem
estourar as contas públicas
Alexandre Secco
Uma parcela significativa dos brasileiros depende diretamente
do salário mínimo. Dois em cada dez trabalhadores e quase
seis em cada dez dos aposentados recebem 136 reais por mês.
Para essas pessoas, é fundamental o debate que se trava
em Brasília sobre até onde pode subir o novo piso salarial
do país. Historicamente, conforme se aproximava o mês de
maio, data da correção anual, o índice a ser adotado para
o salário costumava agitar as centrais sindicais e as associações
de idosos. A novidade deste ano (eleitoral) foi o ingresso
do PFL na contenda. O partido quer um salário equivalente
a 100 dólares (quase 180 reais), pelo menos. A equipe econômica
deseja fixá-lo em 150 reais, no máximo. O governo Fernando
Henrique Cardoso está diante de um desafio político real.
Se desagradar ao PFL, corre o risco de enfrentar a ira daquele
que se envolveu pesssoalmente no assunto: o senador Antonio
Carlos Magalhães. Por outro lado, se o reajuste for alto
demais, algumas prefeituras passarão por dificuldades financeiras,
o déficit da Previdência subirá, alguma inflação indesejável
pode ser sentida e as taxas de juros podem ser elevadas
para conter os preços. A busca do ponto de equilíbrio tem
obrigado o ministro Waldeck Ornélas, da Previdência, a trabalhar
até catorze horas por dia, sem direito a almoço. "Vamos
resolver esse problema o mais rápido possível", diz
Ornélas.
Antonio Milena
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Aposentados em Veranópolis,
interior
gaúcho: salários mirrados para pagar
a conta do déficit |
O mínimo sempre produziu discussões acaloradas. Elas ficaram
mais quentes agora, pois os números em discussão irritam.
A equipe da Fazenda recomenda um aumento de 7,5%
ou seja, míseros 10,20 reais a mais no final do mês. Chega
a ser um escárnio. Mesmo quando se pensa num mínimo um pouco
mais generoso, de 160 reais, a situação não fica muito melhor.
Daria um aumento de 24 reais. A ironia continua, pois ainda
que os beneficiários do reajuste ganhem tostões, a repercussão
macroeconômica do salário possui dimensões monstruosas.
Começa pelas contas da Previdência. Cerca de 13 milhões
de aposentados recebem apenas um salário mínimo a título
de benefício. Estima-se que, para cada ponto porcentual
de aumento, a Previdência precise conseguir um repasse de
mais 115 milhões de reais do Tesouro Nacional por ano. Com
o salário mínimo em 100 dólares, como quer o PFL, o déficit
total ao ano passaria para inacreditáveis 53 bilhões de
reais. Hoje o Brasil já apresenta um dos maiores déficits
previdenciários do mundo. Sabe-se que, quanto maior a dívida
do governo, mais difíceis são as possibilidades de a economia
se recuperar, mais lento o crescimento econômico e mais
minguada a geração de empregos e riqueza.
Embora
não passe de um desalentador fio de sobrevivência básica
para milhões de brasileiros, o salário mínimo é uma enorme
dor de cabeça para quem tem de responder pelas contas públicas
e, em última análise, pelo ritmo de crescimento do país.
Um exemplo assustador? Compare-se o impacto do mínimo ao
dos marajás. O pagamento dos 3.300 funcionários que recebem mais do que presidente custa
ao Estado 400 milhões de reais por ano. Já o rombo adicional
na Previdência provocado pelo reajuste do mínimo deve ser
da ordem de 7 bilhões de reais. Imbatível, não? "Diante
de números tão delicados, vê-se que a discussão não pode
ser feita no bate-boca fácil e no discurso de plenário",
diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. Além do
impacto direto sobre o caixa da Previdência, o debate precisa
ser sóbrio, porque o reajuste do mínimo tem um efeito imediato
que se espalha pelo mercado. Embora a economia tenha sido
desindexada com a criação do real, o mínimo ainda regula
informalmente muitos preços. Os dos produtos agrícolas e
industriais que utilizam de forma intensiva mão-de-obra
são impactados automaticamente pelo aumento do salário mínimo.
Desse modo, ele acaba virando uma espécie de indexador informal
da economia. Se sobe acima da inflação, inevitavelmente
puxa outros preços para cima.
Do ponto de vista apenas do desembolso de caixa, acredita-se
que a iniciativa privada até possa suportar um maxiaumento
do mínimo. O governo e as prefeituras do interior, nem isso
agüentariam. A Previdência pública é uma máquina falida:
arrecada hoje pouco mais da metade do que gasta e deixa
um prejuízo anual de 46 bilhões de reais, uma bolada maior
do que o orçamento da Educação e o da Saúde juntos. O governo
cobre essa diferença tirando dinheiro do caixa dos investimentos
e tomando recursos entre os bancos. Alguns dos resultados
visíveis dessa prática são estradas esburacadas, filas em
hospitais e juros altos. A única saída comprovadamente segura
para o problema são as reformas. Uma delas é a da Previdência
Social, que já passeou pelo Congresso mas nunca foi enfrentada
para valer. Menos da metade das pessoas que trabalham no
Brasil contribui para a Previdência. Em números absolutos,
significa que 40 milhões de pessoas não recolhem taxas previdenciárias.
Há coisa pior. A prática mostra que, para cada real que
um empregado da iniciativa privada recolhe à Previdência
no decorrer da vida, ele recebe mais tarde, na forma de
pensão, 1,30 real. No caso do serviço público a conta é
outra. Para cada real arrecadado, os funcionários tiram
26 dos cofres públicos. É uma máquina de produzir injustiça
e desequilíbrios sociais que precisa ser desativada.
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Saiba
mais |
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Veja quanto é
o salário mínimo em outros países
(em dólares) |
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| Estados Unidos |
1 236
|
| França |
1 071
|
| Itália |
800
|
| Espanha |
480
|
| Argentina |
240
|
| Venezuela |
216
|
| Uruguai |
90
|
| México |
85
|
| Brasil |
75
|
| Peru |
70
|
| Bolívia |
70
|
| Fonte: Dieese
(dados de 1998, à exceção
do Brasil) |
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A maioria dos países adota um salário mínimo. Em todo lugar,
seu reajuste provoca debates polêmicos e chama a atenção
para complicadas questões econômicas. Na Inglaterra se estuda
a criação de uma comissão permanente para acompanhamento
dos menores salários. Na Indonésia, o governo vem aplicando,
sob protestos, uma política já proposta para o Brasil: os
reajustes diferenciados por região. Lá, os governos regionais
acertam os valores do mínimo negociando com os sindicatos
locais. Como aqui, os salários mínimos na Indonésia não
são considerados suficientes para as necessidades básicas
dos trabalhadores. A previsão do governo é de que o mínimo
passe por reajustes constantes até 2001 até recuperar o
poder de compra que tinha antes da crise asiática. Nos Estados
Unidos, a grande discussão entre os candidatos à sucessão
de Bill Clinton é qual seria o impacto de um reajuste do
mínimo na vida das pequenas empresas, a força motriz do
emprego por lá. O democrata Al Gore está defendendo o aumento
do mínimo de 5,15 dólares por hora trabalhada para 6,15
dólares, como forma de aumentar a renda dos mais pobres.
Seu principal oponente, George W. Bush, discorda e diz que
a medida não vai trazer benefícios amplos e imediatos. Segundo
ele, nas cidades mais pobres do país as pequenas empresas
não conseguiriam suportar o aumento e poderiam fechar postos
de trabalho, prejudicando os próprios trabalhadores.
Na discussão de Brasília, a primeira idéia que apareceu
para contornar o problema foi desvincular o valor do salário
mínimo das aposentadorias. Feito isso, poderiam ser reajustados
os salários da turma que está trabalhando sem causar abalos
ainda mais sérios no caixa da Previdência. Esse plano, arquitetado
pelo governo, foi anunciado no final do ano passado. Ele
foi tão mal recebido que acabou escondido dias após o anúncio.
Temia-se que resultasse em uma grande injustiça para com
os aposentados. Eles não têm ninguém que os defenda: muitos
estão sem forças para protestar, outros já rasgaram seu
título de eleitor, são poucos os políticos que se identificam
com sua causa. Desatrelados do valor mínimo, os salários
dos aposentados poderiam acabar esquecidos e cada vez mais
achatados, piorando ainda mais a vida dos 13 milhões de
velhinhos que fazem ginástica para sobreviver com o salário
mínimo de 136 reais. Outra idéia é a criação de mínimos
regionais, mais uma idéia polêmica que vem sendo estudada
cuidadosamente pelo governo. A idéia é tecnicamente razoável,
mas pode se transformar em um desastre político. Como convencer
um empregado na Bahia que ele merece um mínimo menor do
que um trabalhador da indústria paulista?
Com reportagem de José
Edward, de Belo Horizonte
O truque das emendas
Draulio Joca
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Obra parada no Ceará:
verba do governo
caiu pela metade |
Enquanto o governo discute onde vai arrumar recursos
para reajustar o salário mínimo, os parlamentares
da Comissão de Orçamento desenvolveram uma técnica
para fazer mágica com dinheiro público. Todos os anos,
o governo manda para o Congresso a proposta orçamentária
indicando de onde virão os recursos e quanto virá.
Em vez de usar os cálculos feitos pelo governo sobre
as receitas disponíveis para investimento, os deputados
e senadores da comissão "refazem" as contas
jogando as receitas para cima. E para quê? Com "mais"
dinheiro disponível, podem apresentar um número maior
de emendas ao Orçamento. Na semana passada, chamou
a atenção uma tentativa de dobrar a previsão de arrecadação
de taxas rodoviárias, como se o tráfego de veículos
pudesse dobrar de um ano para outro. Resultado: o
Orçamento do governo falava em 6 bilhões de reais
para investimento. Os números preliminares mostram
que os pedidos de emenda já somam mais de 30 bilhões
de reais.
Do ponto de vista financeiro, a estratégia de fabricar
dinheiro tem efeito nulo. Na hora de executar o Orçamento,
o governo só pode autorizar despesas conforme sua
disposição de caixa. Portanto, não adianta inventar
receitas. Mas do ponto de vista político a técnica
é um show. Ao incluir os pedidos do eleitorado no
Orçamento, os políticos podem voltar para suas bases
e fazer discurso em praça pública ou dar entrevista
à rádio local dizendo que já incluíram no Orçamento
o dinheiro da ponte ou da escola. Mais tarde, quando
a obra não for feita, lá vão eles outra vez fazer
discurso contra o governo. Além do mais, se a emenda
já está no Orçamento, o deputado pode valer-se da
pressão política para obrigar o governo a aprovar
esse projeto em vez daquele. O expediente torna mais
promíscua a relação entre o Congresso e o governo.
No começo do Plano Real, o Orçamento reservava até
12 bilhões de reais para investimento, equivalente
ao dobro do volume atual. Com tanta obra para tocar,
tornou-se comum iniciar várias delas simultaneamente
e depois não concluí-las no prazo. Um exemplo é o
Porto de Pecém, no Ceará, que depende dos repasses
de Brasília, cujo cronograma está atrasado. Há vários
Pecéns espalhados pelo Brasil.
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