Sob
o manto do fanatismo
O fundamentalismo islâmico, que ameaça
subverter o mundo
com as bombas dos
terroristas, perde fôlego
e enfrenta uma contra-revolução na
sua maior fortaleza, o Irã
Jaime Klintowitz
O islã tem catorze séculos de existência,
mas é relativamente recente a preocupação
do mundo com os aspectos de fanatismo político que
cresceu nas comunidades islâmicas. O fenômeno
tem pouco mais de duas décadas e sua forma é
uma guerra santa cujo projeto é tomar o poder, varrer
a influência ocidental e estabelecer o reino de Alá
na Terra. O novo credo espalhou-se como uma labareda entre
o 1,2 bilhão de fiéis, fatia que representa
um quinto da humanidade. Produziu ditaduras religiosas medievais,
dadas ao terrorismo em nome de Deus. Logo se profetizou
que a existência de uns cinqüenta países
com populações majoritariamente muçulmanas,
além de algumas dezenas deles com grandes minorias
de seguidores de Alá, poderia evoluir como uma nova
ameaça global, comparável em alguns aspectos
a outra ideologia messiânica do século XX,
o comunismo. Estudiosos apressaram-se em prever um titânico
choque de civilizações, ainda mais irreconciliável
que a falecida Guerra Fria.
O ápice do furor revolucionário foi a derrubada
da monarquia e a criação da primeira república
islâmica no Irã, em 1979. A tomada do poder
num país de importância estratégica
e dono de 9% da reserva mundial de petróleo pôs
em marcha uma cadeia de acontecimentos que até hoje
ameaça mudar a ordem mundial. Nesta virada do milênio,
uma nova revolução está em marcha no
país que serve de vitrine à teocracia islâmica.
Só que esta revolução agora vai no
sentido contrário da anterior. Uma nova geração,
moderada e moderna, decidiu guardar a espada e tenta dar
uma face humana ao regime dos aiatolás. O que está
ocorrendo no Irã vai ter influência em todo
o universo muçulmano. É ali que se pôde
observar com mais clareza como funciona um regime islâmico
que aplica a lei do Corão a todos os aspectos da
vida do povo. O resultado é desencorajador e essa
conclusão tem a força de uma prova de laboratório.
Além de seu poder religioso, como intérpretes
da vontade de Alá, os aiatolás se firmaram
no papel de donos do aparelho de Estado, dos tribunais e
dos canhões. Mas, finalmente, começam a perder
a luta pela alma do povo iraniano. Na sexta-feira 18, o
voto popular colocou para fora uma chusma de clérigos
que há duas décadas dava as cartas no Parlamento
do Irã. A sede de mudança ficou demonstrada
de forma cristalina: 70% dos deputados eleitos estão
alinhados com a ala moderada e reformista do presidente
Mohammed Khatami, o inimigo número 1 da linha dura
dos turbantes negros. Só a Frente de Participação
Islâmica, liderada por Reza Khatami, irmão
do presidente, conquistou 141 cadeiras. Vinte e um anos
depois de o aiatolá Ruhollah Khomeini derrubar o
xá Reza Pahlevi e instalar uma ditadura religiosa,
os mais de 70 milhões de iranianos estão fartos
do clero que manda no país e em cada detalhe de suas
vidas. O resultado das urnas é uma dessas reviravoltas
que os historiadores costumam aproveitar como um marco que
sinaliza o antes e o depois. O antes era uma nação
de costumes medievais, opressão política e
furor místico de meter medo até na superpotência
americana. O que se tem agora é a contraprova de
que o fanatismo islâmico o mesmo que parecia
prestes a pôr fogo no mundo está perdendo
fôlego. Dentro e fora do Irã, respira-se um
ar um pouco mais leve.
Os iranianos já tinham expressado sua insatisfação
nas eleições para presidente, em 1997. Khatami
foi eleito com mais de 70% dos votos, massacrando o adversário
abençoado pelos ultraconservadores. Ele próprio
é um clérigo, filho de um aiatolá famoso
e usa com orgulho o turbante preto daqueles que se acreditam
descendentes diretos do profeta Maomé. A diferença
é que reza por um catecismo moderadíssimo.
Ministro da Cultura em 1992, ele se pôs a liberar
livros e a permitir debates públicos sobre temas
tabus. Terminou expurgado por "liberalismo" e "negligência".
Dois em cada três iranianos são jovens demais
para se lembrar das frustrações da vida sob
a monarquia do xá. Eles só conhecem as frustrações
sob os aiatolás e esperam que Khatami promova uma
reforma de alto a baixo na república islâmica.
Querem coisas complexas, como restabelecer a supremacia
da lei civil sobre o direito canônico. E também
restaurar direitos triviais do cotidiano, como namorar,
vestir gravata e usar saia curta. Se isso está demorando
é porque, apesar do formidável valor simbólico
da votação, o presidente tinha até
agora limitada liberdade de ação. Não
controlava o Parlamento, nem os órgãos de
segurança e o Exército. Mesmo a economia,
por ser em grande parte nacionalizada, está sob o
domínio da caciqueria religiosa. A maioria no Parlamento
significa que agora o Irã dispõe de uma base
sólida na luta pela descompressão política
e religiosa. Mas é preciso reconhecer: os iranianos
ainda estão longe de resolver a polêmica sobre
quem manda no país.
No Irã, como em todo o mundo muçulmano,
a questão vai muito além de desacordos políticos.
Khatami sustenta que a vontade popular, expressa pelo voto,
deve prevalecer sobre a opinião dos sábios
nas mesquitas. Trata-se de um conceito aceito universalmente,
mas para o clero iraniano é mais que subversivo,
beira a heresia. Desde o início do século
XX, quando a influência ocidental entrou na terra
dos minaretes, teólogos e políticos engalfinham-se
em torno de uma dúvida: a democracia pode existir
numa verdadeira república islâmica? Os aiatolás
iranianos dizem que não. Num Estado islâmico
perfeito, a única lei é a de Alá e
daqueles que governam em seu nome. "O próprio conceito
de liberdade do homem pode ser visto como uma afronta à
única lei legítima, a de Deus, porquanto o
islã dispõe de regras para qualquer assunto
espiritual ou temporal", escreveu um especialista, o inglês
David Hirst.
O desastre eleitoral da ortodoxia iraniana reflete um
fenômeno mais abrangente, o declínio do islã
militante, aquele das bombas assassinas. O fanatismo político
islâmico que o mundo conheceria a partir de atentados
terroristas e do controle total das sociedades pelo clero
não nasceu em Teerã, mas com a Fraternidade
Muçulmana no Egito, nos anos 20. Demorou meio século
para o grito de "O islã é a solução"
tornar-se uma ideologia forte no mundo muçulmano.
Outro problema: o mundo muçulmano adora fingir unidade,
mas é um saco de gatos étnico e político,
onde se misturam povos e culturas totalmente diferentes
uns dos outros.
Os governos em alguns países de maioria muçulmana
olham para o islã político com temor e aversão
ainda maiores que os sentidos nos países de tradição
européia e cristã. Em 1982, o governo Hafez
Assad massacrou 20 000 pessoas na cidade síria de
Hama, considerada um bastião da Irmandade Muçulmana.
O Egito recém-proclamou vitória sobre o terrorismo
islâmico, que durante uma década tentou arruinar
a indústria turística do país chacinando
visitantes estrangeiros. A Turquia, talvez o mais democrático
país muçulmano do Oriente Médio, já
saiu dos trilhos para impedir que a oposição
islâmica (moderadíssima) assumisse o poder
conquistado nas urnas. O momento é contraditório,
pois, ao mesmo tempo em que o fundamentalismo armado perde
fôlego, o islã, como fé e cultura, passa
por um vibrante processo de renascimento. A noção
de que a religião deve ter um papel importante na
vida pública tem raízes profundas e não
pode ser ignorada pelos governantes dos países de
população muçulmana. Como reagem à
religiosidade de seus habitantes depende, contudo, das peculiaridades
de cada país.
O que se conhece como mundo islâmico é uma
área vasta, que vai da Europa ao Pacífico,
no outro lado do planeta. Um único país, o
Irã, é absolutamente teocrático, ou
seja, é dirigido pelo clero muçulmano a partir
não de leis votadas em parlamento, e sim das regras
do Corão. Boa parte dos 23 países árabes
é governada por presidentes com preocupações
religiosas apenas formais. Ainda que disponham de poder
de decisão equivalente ao dos aiatolás do
Irã, Hafez Assad, na Síria, Hosni Mubarak,
no Egito, e Saddam Hussein, no Iraque, se fazem reeleger
periodicamente em simulacros de eleições,
mantendo uma democracia de fachada. O zelo religioso é
várias vezes mais intenso nas monarquias do Golfo
Pérsico. Guardiã dos lugares santos, a família
real saudita inventou a polícia da moralidade, que
os iranianos copiariam mais tarde. Mulher que sai de casa
sem véu apanha na rua de chicote. Uma embaixatriz
brasileira levou um pontapé no traseiro num shopping
de Riad, capital da Arábia Saudita, porque deixou
o véu sobre cabeça deslizar para cima dos
ombros. Adúlteras são executadas em vários
países muçulmanos rígidos, como o Afeganistão.
Mesmo o pai que mata uma filha, por surpreendê-la
em relação sexual fora do casamento, não
costuma ser condenado a prisão.
A diversidade das formas de governo é sempre citada,
entre os árabes, como prova de que o islamismo não
é necessariamente sinônimo de ditadura. Dizem
eles que, se há pouca democracia no Oriente Médio,
isso decorre mais da história de cada país
do que da religião. Há certa verdade nisso.
Mesmo naqueles países onde os cléricos não
tomaram o poder, no entanto, há quase sempre partidos
islâmicos, mais ou menos extremados, na oposição
política. Não costumam ter sucesso nas urnas.
Nas desastrosas eleições de 1992, na Argélia,
cujo cancelamento levou à guerra civil com 100.000
mortos, a Frente Islâmica recebeu apenas 3,25 milhões
dos 13 milhões de votos. Onde ganhou, como ocorreu
na Turquia, declinou nas eleições seguintes.
A baixa popularidade dos islâmicos fundamentalistas
nesses lugares decorre, em parte, da sombria invocação
dos chamados Versos da Espada. Trata-se de uma interpretação
seletiva do Corão, com ênfase no apelo
à Guerra Santa. "O clero e os fundamentalistas ensinam
uma história errada do islã, olhando apenas
para o autoritarismo e o militarismo do passado", disse
a VEJA o romancista paquistanês Tarik Ali, que vive
em Londres. "Por que nunca falam no verso corânico
que diz que a fé não tem valor se for imposta
à força?" O fato é que a postura belicosa
que se tornou a palavra de ordem no islã significa
encrenca em toda parte. Em fevereiro, a introdução
da sharia, a lei islâmica, em dois Estados no norte
da Nigéria deflagrou uma guerra tribal com a população
cristã, minoritária. Há também
conflitos confessionais na Indonésia e perseguição
oficial aos cristãos no Paquistão.
A adoção da sharia faz parte do discurso
oposicionista em todo o mundo islâmico. Mas quando
isso ocorre os excessos assustam até quem está
disposto a colaborar. Os iranianos sentiram na carne o que
significa reduzir a religião à observância
cega de certas normas que proíbem o álcool,
exigem vestuário de freira para as mulheres e não
admitem sexo nas condições aceitas em países
ocidentais. Um grupo de estudantes fanáticos e com
origem tribal, o Taliban, tomou a maior parte do Afeganistão
e adotou a sharia ao pé da letra. Baniu o corte de
barba e a música e proibiu as mulheres de trabalhar
fora de casa. Há uma longa distância entre
o exagero bárbaro do Taliban e o exagero refinado
dos aiatolás. Os dois regimes são, por sinal,
inimigos mortais e já estiveram perto da guerra aberta.
"Como fundamentalista sunita, o Taliban é profundamente
antixiita", explica o professor Houchang E. Chehabi, da
Universidade de Boston. "Se o Irã abrandar o regime,
os fundamentalistas sunitas podem entender isso mais como
um fracasso da seita rival do que como um exemplo a ser
seguido."
A revolução iraniana começou como
uma explosão espontânea, reunindo todas as
forças políticas e os grupos sociais descontentes
com a monarquia. O regime tornou-se rapidamente um pesadelo.
Os sacerdotes (mulás) saíram matando e exilando
todos que pudessem ser oposição, de comunistas
a muçulmanos moderados. Logo fizeram o aparato repressivo
do xá parecer coisa de criança. Os mulás
também não tinham nenhum truque para sanar
as mazelas do subdesenvolvimento. Talvez não exista
mesmo como aplicar na prática uma economia baseada
na justiça islâmica. O clero foi além,
contudo, aproveitando-se das propriedades confiscadas para
enriquecer. O Irã, em que o petróleo responde
por 85% das exportações, foi esmagado pela
queda no preço do barril, pelas sanções
internacionais (impostas porque o regime financiava o terrorismo
no exterior) e pela interminável guerra contra o
Iraque. Não houve investimentos em atividade produtiva
e o desemprego tornou-se crônico.
Na última década, o governo iraniano produziu
alguns benefícios: pavimentou estradas, melhorou
a distribuição de eletricidade e de água.
No final dos anos 70, só metade dos jovens iranianos
eram alfabetizados. O porcentual cresceu 93% em duas décadas.
O número de formandos universitários saltou
de 430.000 para mais de 4 milhões.
Com o xador negro, as iranianas tornaram-se o estereótipo
da opressão xiita. Em contrapartida, são as
mulheres com maior atividade política no Golfo Pérsico
e, talvez, no mundo islâmico. Mais de 40% dos estudantes
universitários são do sexo feminino. É
verdade que a revolução também baixou
a idade mínima para uma mulher se casar para 9 anos.
A ironia é que a revolução produziu
uma geração bem-educada, ansiosa por mergulhar
na cultura globalizada. Iranianos, homens e mulheres, querem
hoje usar roupas elegantes, expor suas antenas parabólicas
e namorar em público exatamente o que é
proibido.
O fracasso da única teocracia deu impulso a novas
formulações sobre o Estado islâmico
moderno. Muitas das discussões mais profundas dentro
do islã estão ocorrendo nos jornais, tribunais
e salas de aula iranianas. Mesmo clérigos e intelectuais
que foram próximos a Khomeini estão agora
colocando em dúvida as bases do pensamento religioso
sobre o qual construíram a República Islâmica.
A luta dos iranianos para liberalizar o regime (ninguém
sugere publicamente que a teocracia pode ser abolida) é
um dos movimentos mais fascinantes da virada do milênio.
Ao derrubar o xá, Khomeini atingiu pela primeira
vez na História moderna o objetivo comum a todos
os muçulmanos: tomar o poder político em nome
de Alá. A atual geração está
tentando devolver o poder político ao povo, sem precisar
jogar Alá pela janela.
A vida atrás dos véus
O mais enérgico movimento social a emergir
no Irã desde 1979 foi o das mulheres. Apesar
de obrigadas a esconder os cabelos com lenços
pretos, as iranianas conquistaram posições
importantes no governo, na universidade e na imprensa.
Não é uma situação comum
no mundo islâmico, sobretudo nos países
árabes. Ao contrário, as mulheres são
privadas de direitos básicos na maioria deles
e não há notícia de nenhuma organização
pelos direitos femininos que tenha sobrevivido por
muito tempo. Na Arábia Saudita, elas não
podem dirigir automóvel ou sentar-se sozinhas
num restaurante. Em vários países, entre
eles o Irã, seu testemunho na Justiça
vale metade do de um homem. O Egito, que no início
do século XX aboliu o uso do véu e nos
anos 50 adotou o voto feminino, não permite
que a mãe passe a nacionalidade egípcia
ao filho. Há hoje 80 000 apátridas no
país, todos filhos fora do casamento ou de
pai desconhecido. Na década passada, o Estado
baniu a mutilação genital, mas o hábito
cujo objetivo é privar a mulher do prazer
sexual continua amplamente difundido. Recentemente,
para não contrariar a oposição
islâmica, o governo retirou um projeto de lei
que permitiria às mulheres viajar para o exterior
sem autorização escrita do marido.
A situação de inferioridade da mulher
no Islã decorre, sobretudo, dos costumes patriarcais,
mas a religião desempenha seu papel. Inspirada
nos preceitos do Corão, a lei concede
ao marido o direito de repudiar a esposa, sem que
ela possa contestar ou pedir pensão. Na situação
inversa, o divórcio exige da mulher longas
batalhas judiciais. Em muitas nações,
a mãe divorciada só pode criar as filhas
até os 12 anos e os filhos até os 10.
Daí em diante são entregues ao pai.
Em vários países, a viúva não
tem direito à herança do marido, repartida
apenas entre a prole masculina. O próprio rei
da Jordânia está empenhado numa campanha
contra os chamados "crimes de honra". São pais
ou irmãos que matam a filha ou irmã
solteira suspeita de conduta sexual imprópria
e raramente são punidos. A polícia jordaniana
coloca as jovens ameaçadas atrás das
grades para evitar que sejam assassinadas pela própria
família. Em todos os países árabes
em que há estatísticas disponíveis,
a presença das mulheres no mercado de trabalho
dobrou nos últimos vinte anos. Em vários
existem mais mulheres que homens nas universidades.
Ainda assim, elas continuam inferiores perante a lei
e sem presença na política. A milícia
fundamentalista Taliban, dona da maior parte do território
do Afeganistão, foi mais longe. Proibiu as
mulheres de trabalhar fora de casa, obrigou-as a cobrir
todo o corpo inclusive os olhos com
vestidões que escondem as formas femininas.
Um tornozelo à mostra em local público
pode ser punido com chibatada. Uma suspeita de adultério
é morte certa, a pedrada.
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Saiba
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