Edição 1 638 - 1°/3/2000

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Sob o manto do fanatismo

O fundamentalismo islâmico, que ameaça subverter o mundo
com as bombas dos
terroristas, perde fôlego
e enfrenta uma contra-revolução na
sua maior fortaleza, o Irã

Jaime Klintowitz

O islã tem catorze séculos de existência, mas é relativamente recente a preocupação do mundo com os aspectos de fanatismo político que cresceu nas comunidades islâmicas. O fenômeno tem pouco mais de duas décadas e sua forma é uma guerra santa cujo projeto é tomar o poder, varrer a influência ocidental e estabelecer o reino de Alá na Terra. O novo credo espalhou-se como uma labareda entre o 1,2 bilhão de fiéis, fatia que representa um quinto da humanidade. Produziu ditaduras religiosas medievais, dadas ao terrorismo em nome de Deus. Logo se profetizou que a existência de uns cinqüenta países com populações majoritariamente muçulmanas, além de algumas dezenas deles com grandes minorias de seguidores de Alá, poderia evoluir como uma nova ameaça global, comparável em alguns aspectos a outra ideologia messiânica do século XX, o comunismo. Estudiosos apressaram-se em prever um titânico choque de civilizações, ainda mais irreconciliável que a falecida Guerra Fria.

O ápice do furor revolucionário foi a derrubada da monarquia e a criação da primeira república islâmica no Irã, em 1979. A tomada do poder num país de importância estratégica e dono de 9% da reserva mundial de petróleo pôs em marcha uma cadeia de acontecimentos que até hoje ameaça mudar a ordem mundial. Nesta virada do milênio, uma nova revolução está em marcha no país que serve de vitrine à teocracia islâmica. Só que esta revolução agora vai no sentido contrário da anterior. Uma nova geração, moderada e moderna, decidiu guardar a espada e tenta dar uma face humana ao regime dos aiatolás. O que está ocorrendo no Irã vai ter influência em todo o universo muçulmano. É ali que se pôde observar com mais clareza como funciona um regime islâmico que aplica a lei do Corão a todos os aspectos da vida do povo. O resultado é desencorajador e essa conclusão tem a força de uma prova de laboratório.

Além de seu poder religioso, como intérpretes da vontade de Alá, os aiatolás se firmaram no papel de donos do aparelho de Estado, dos tribunais e dos canhões. Mas, finalmente, começam a perder a luta pela alma do povo iraniano. Na sexta-feira 18, o voto popular colocou para fora uma chusma de clérigos que há duas décadas dava as cartas no Parlamento do Irã. A sede de mudança ficou demonstrada de forma cristalina: 70% dos deputados eleitos estão alinhados com a ala moderada e reformista do presidente Mohammed Khatami, o inimigo número 1 da linha dura dos turbantes negros. Só a Frente de Participação Islâmica, liderada por Reza Khatami, irmão do presidente, conquistou 141 cadeiras. Vinte e um anos depois de o aiatolá Ruhollah Khomeini derrubar o xá Reza Pahlevi e instalar uma ditadura religiosa, os mais de 70 milhões de iranianos estão fartos do clero que manda no país e em cada detalhe de suas vidas. O resultado das urnas é uma dessas reviravoltas que os historiadores costumam aproveitar como um marco que sinaliza o antes e o depois. O antes era uma nação de costumes medievais, opressão política e furor místico de meter medo até na superpotência americana. O que se tem agora é a contraprova de que o fanatismo islâmico – o mesmo que parecia prestes a pôr fogo no mundo – está perdendo fôlego. Dentro e fora do Irã, respira-se um ar um pouco mais leve.

Os iranianos já tinham expressado sua insatisfação nas eleições para presidente, em 1997. Khatami foi eleito com mais de 70% dos votos, massacrando o adversário abençoado pelos ultraconservadores. Ele próprio é um clérigo, filho de um aiatolá famoso e usa com orgulho o turbante preto daqueles que se acreditam descendentes diretos do profeta Maomé. A diferença é que reza por um catecismo moderadíssimo. Ministro da Cultura em 1992, ele se pôs a liberar livros e a permitir debates públicos sobre temas tabus. Terminou expurgado por "liberalismo" e "negligência". Dois em cada três iranianos são jovens demais para se lembrar das frustrações da vida sob a monarquia do xá. Eles só conhecem as frustrações sob os aiatolás e esperam que Khatami promova uma reforma de alto a baixo na república islâmica. Querem coisas complexas, como restabelecer a supremacia da lei civil sobre o direito canônico. E também restaurar direitos triviais do cotidiano, como namorar, vestir gravata e usar saia curta. Se isso está demorando é porque, apesar do formidável valor simbólico da votação, o presidente tinha até agora limitada liberdade de ação. Não controlava o Parlamento, nem os órgãos de segurança e o Exército. Mesmo a economia, por ser em grande parte nacionalizada, está sob o domínio da caciqueria religiosa. A maioria no Parlamento significa que agora o Irã dispõe de uma base sólida na luta pela descompressão política e religiosa. Mas é preciso reconhecer: os iranianos ainda estão longe de resolver a polêmica sobre quem manda no país.

No Irã, como em todo o mundo muçulmano, a questão vai muito além de desacordos políticos. Khatami sustenta que a vontade popular, expressa pelo voto, deve prevalecer sobre a opinião dos sábios nas mesquitas. Trata-se de um conceito aceito universalmente, mas para o clero iraniano é mais que subversivo, beira a heresia. Desde o início do século XX, quando a influência ocidental entrou na terra dos minaretes, teólogos e políticos engalfinham-se em torno de uma dúvida: a democracia pode existir numa verdadeira república islâmica? Os aiatolás iranianos dizem que não. Num Estado islâmico perfeito, a única lei é a de Alá e daqueles que governam em seu nome. "O próprio conceito de liberdade do homem pode ser visto como uma afronta à única lei legítima, a de Deus, porquanto o islã dispõe de regras para qualquer assunto espiritual ou temporal", escreveu um especialista, o inglês David Hirst.

O desastre eleitoral da ortodoxia iraniana reflete um fenômeno mais abrangente, o declínio do islã militante, aquele das bombas assassinas. O fanatismo político islâmico que o mundo conheceria a partir de atentados terroristas e do controle total das sociedades pelo clero não nasceu em Teerã, mas com a Fraternidade Muçulmana no Egito, nos anos 20. Demorou meio século para o grito de "O islã é a solução" tornar-se uma ideologia forte no mundo muçulmano. Outro problema: o mundo muçulmano adora fingir unidade, mas é um saco de gatos étnico e político, onde se misturam povos e culturas totalmente diferentes uns dos outros.

Os governos em alguns países de maioria muçulmana olham para o islã político com temor e aversão ainda maiores que os sentidos nos países de tradição européia e cristã. Em 1982, o governo Hafez Assad massacrou 20 000 pessoas na cidade síria de Hama, considerada um bastião da Irmandade Muçulmana. O Egito recém-proclamou vitória sobre o terrorismo islâmico, que durante uma década tentou arruinar a indústria turística do país chacinando visitantes estrangeiros. A Turquia, talvez o mais democrático país muçulmano do Oriente Médio, já saiu dos trilhos para impedir que a oposição islâmica (moderadíssima) assumisse o poder conquistado nas urnas. O momento é contraditório, pois, ao mesmo tempo em que o fundamentalismo armado perde fôlego, o islã, como fé e cultura, passa por um vibrante processo de renascimento. A noção de que a religião deve ter um papel importante na vida pública tem raízes profundas e não pode ser ignorada pelos governantes dos países de população muçulmana. Como reagem à religiosidade de seus habitantes depende, contudo, das peculiaridades de cada país.

O que se conhece como mundo islâmico é uma área vasta, que vai da Europa ao Pacífico, no outro lado do planeta. Um único país, o Irã, é absolutamente teocrático, ou seja, é dirigido pelo clero muçulmano a partir não de leis votadas em parlamento, e sim das regras do Corão. Boa parte dos 23 países árabes é governada por presidentes com preocupações religiosas apenas formais. Ainda que disponham de poder de decisão equivalente ao dos aiatolás do Irã, Hafez Assad, na Síria, Hosni Mubarak, no Egito, e Saddam Hussein, no Iraque, se fazem reeleger periodicamente em simulacros de eleições, mantendo uma democracia de fachada. O zelo religioso é várias vezes mais intenso nas monarquias do Golfo Pérsico. Guardiã dos lugares santos, a família real saudita inventou a polícia da moralidade, que os iranianos copiariam mais tarde. Mulher que sai de casa sem véu apanha na rua de chicote. Uma embaixatriz brasileira levou um pontapé no traseiro num shopping de Riad, capital da Arábia Saudita, porque deixou o véu sobre cabeça deslizar para cima dos ombros. Adúlteras são executadas em vários países muçulmanos rígidos, como o Afeganistão. Mesmo o pai que mata uma filha, por surpreendê-la em relação sexual fora do casamento, não costuma ser condenado a prisão.

A diversidade das formas de governo é sempre citada, entre os árabes, como prova de que o islamismo não é necessariamente sinônimo de ditadura. Dizem eles que, se há pouca democracia no Oriente Médio, isso decorre mais da história de cada país do que da religião. Há certa verdade nisso. Mesmo naqueles países onde os cléricos não tomaram o poder, no entanto, há quase sempre partidos islâmicos, mais ou menos extremados, na oposição política. Não costumam ter sucesso nas urnas. Nas desastrosas eleições de 1992, na Argélia, cujo cancelamento levou à guerra civil com 100.000 mortos, a Frente Islâmica recebeu apenas 3,25 milhões dos 13 milhões de votos. Onde ganhou, como ocorreu na Turquia, declinou nas eleições seguintes. A baixa popularidade dos islâmicos fundamentalistas nesses lugares decorre, em parte, da sombria invocação dos chamados Versos da Espada. Trata-se de uma interpretação seletiva do Corão, com ênfase no apelo à Guerra Santa. "O clero e os fundamentalistas ensinam uma história errada do islã, olhando apenas para o autoritarismo e o militarismo do passado", disse a VEJA o romancista paquistanês Tarik Ali, que vive em Londres. "Por que nunca falam no verso corânico que diz que a fé não tem valor se for imposta à força?" O fato é que a postura belicosa que se tornou a palavra de ordem no islã significa encrenca em toda parte. Em fevereiro, a introdução da sharia, a lei islâmica, em dois Estados no norte da Nigéria deflagrou uma guerra tribal com a população cristã, minoritária. Há também conflitos confessionais na Indonésia e perseguição oficial aos cristãos no Paquistão.

A adoção da sharia faz parte do discurso oposicionista em todo o mundo islâmico. Mas quando isso ocorre os excessos assustam até quem está disposto a colaborar. Os iranianos sentiram na carne o que significa reduzir a religião à observância cega de certas normas que proíbem o álcool, exigem vestuário de freira para as mulheres e não admitem sexo nas condições aceitas em países ocidentais. Um grupo de estudantes fanáticos e com origem tribal, o Taliban, tomou a maior parte do Afeganistão e adotou a sharia ao pé da letra. Baniu o corte de barba e a música e proibiu as mulheres de trabalhar fora de casa. Há uma longa distância entre o exagero bárbaro do Taliban e o exagero refinado dos aiatolás. Os dois regimes são, por sinal, inimigos mortais e já estiveram perto da guerra aberta. "Como fundamentalista sunita, o Taliban é profundamente antixiita", explica o professor Houchang E. Chehabi, da Universidade de Boston. "Se o Irã abrandar o regime, os fundamentalistas sunitas podem entender isso mais como um fracasso da seita rival do que como um exemplo a ser seguido."

A revolução iraniana começou como uma explosão espontânea, reunindo todas as forças políticas e os grupos sociais descontentes com a monarquia. O regime tornou-se rapidamente um pesadelo. Os sacerdotes (mulás) saíram matando e exilando todos que pudessem ser oposição, de comunistas a muçulmanos moderados. Logo fizeram o aparato repressivo do xá parecer coisa de criança. Os mulás também não tinham nenhum truque para sanar as mazelas do subdesenvolvimento. Talvez não exista mesmo como aplicar na prática uma economia baseada na justiça islâmica. O clero foi além, contudo, aproveitando-se das propriedades confiscadas para enriquecer. O Irã, em que o petróleo responde por 85% das exportações, foi esmagado pela queda no preço do barril, pelas sanções internacionais (impostas porque o regime financiava o terrorismo no exterior) e pela interminável guerra contra o Iraque. Não houve investimentos em atividade produtiva e o desemprego tornou-se crônico.

Na última década, o governo iraniano produziu alguns benefícios: pavimentou estradas, melhorou a distribuição de eletricidade e de água. No final dos anos 70, só metade dos jovens iranianos eram alfabetizados. O porcentual cresceu 93% em duas décadas. O número de formandos universitários saltou de 430.000 para mais de 4 milhões. Com o xador negro, as iranianas tornaram-se o estereótipo da opressão xiita. Em contrapartida, são as mulheres com maior atividade política no Golfo Pérsico e, talvez, no mundo islâmico. Mais de 40% dos estudantes universitários são do sexo feminino. É verdade que a revolução também baixou a idade mínima para uma mulher se casar para 9 anos. A ironia é que a revolução produziu uma geração bem-educada, ansiosa por mergulhar na cultura globalizada. Iranianos, homens e mulheres, querem hoje usar roupas elegantes, expor suas antenas parabólicas e namorar em público – exatamente o que é proibido.

O fracasso da única teocracia deu impulso a novas formulações sobre o Estado islâmico moderno. Muitas das discussões mais profundas dentro do islã estão ocorrendo nos jornais, tribunais e salas de aula iranianas. Mesmo clérigos e intelectuais que foram próximos a Khomeini estão agora colocando em dúvida as bases do pensamento religioso sobre o qual construíram a República Islâmica. A luta dos iranianos para liberalizar o regime (ninguém sugere publicamente que a teocracia pode ser abolida) é um dos movimentos mais fascinantes da virada do milênio. Ao derrubar o xá, Khomeini atingiu pela primeira vez na História moderna o objetivo comum a todos os muçulmanos: tomar o poder político em nome de Alá. A atual geração está tentando devolver o poder político ao povo, sem precisar jogar Alá pela janela.

 

A vida atrás dos véus

O mais enérgico movimento social a emergir no Irã desde 1979 foi o das mulheres. Apesar de obrigadas a esconder os cabelos com lenços pretos, as iranianas conquistaram posições importantes no governo, na universidade e na imprensa. Não é uma situação comum no mundo islâmico, sobretudo nos países árabes. Ao contrário, as mulheres são privadas de direitos básicos na maioria deles e não há notícia de nenhuma organização pelos direitos femininos que tenha sobrevivido por muito tempo. Na Arábia Saudita, elas não podem dirigir automóvel ou sentar-se sozinhas num restaurante. Em vários países, entre eles o Irã, seu testemunho na Justiça vale metade do de um homem. O Egito, que no início do século XX aboliu o uso do véu e nos anos 50 adotou o voto feminino, não permite que a mãe passe a nacionalidade egípcia ao filho. Há hoje 80 000 apátridas no país, todos filhos fora do casamento ou de pai desconhecido. Na década passada, o Estado baniu a mutilação genital, mas o hábito – cujo objetivo é privar a mulher do prazer sexual – continua amplamente difundido. Recentemente, para não contrariar a oposição islâmica, o governo retirou um projeto de lei que permitiria às mulheres viajar para o exterior sem autorização escrita do marido.

A situação de inferioridade da mulher no Islã decorre, sobretudo, dos costumes patriarcais, mas a religião desempenha seu papel. Inspirada nos preceitos do Corão, a lei concede ao marido o direito de repudiar a esposa, sem que ela possa contestar ou pedir pensão. Na situação inversa, o divórcio exige da mulher longas batalhas judiciais. Em muitas nações, a mãe divorciada só pode criar as filhas até os 12 anos e os filhos até os 10. Daí em diante são entregues ao pai. Em vários países, a viúva não tem direito à herança do marido, repartida apenas entre a prole masculina. O próprio rei da Jordânia está empenhado numa campanha contra os chamados "crimes de honra". São pais ou irmãos que matam a filha ou irmã solteira suspeita de conduta sexual imprópria e raramente são punidos. A polícia jordaniana coloca as jovens ameaçadas atrás das grades para evitar que sejam assassinadas pela própria família. Em todos os países árabes em que há estatísticas disponíveis, a presença das mulheres no mercado de trabalho dobrou nos últimos vinte anos. Em vários existem mais mulheres que homens nas universidades. Ainda assim, elas continuam inferiores perante a lei e sem presença na política. A milícia fundamentalista Taliban, dona da maior parte do território do Afeganistão, foi mais longe. Proibiu as mulheres de trabalhar fora de casa, obrigou-as a cobrir todo o corpo – inclusive os olhos – com vestidões que escondem as formas femininas. Um tornozelo à mostra em local público pode ser punido com chibatada. Uma suspeita de adultério é morte certa, a pedrada.

 
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