Edição 1941 . de fevereiro de 2006

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Santos do pau oco

Não durou muito o bom-mocismo do pessoal
do Big Brother. Os espectadores agradecem


Ricardo Valladares

 
Divulgação/TV Globo
Os participantes rezando, quando as coisas ainda iam bem na casa: até o ex-seminarista saiu do sério


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O censo do
Big Brother

Desde sua estréia, há três semanas, a sexta edição do Big Brother Brasil registra cenas de carolice explícita. Logo no primeiro dia, os participantes fizeram um pacto de lealdade eterna. Para celebrar a união, estabeleceu-se o ritual de rezar de mãos dadas antes das refeições. Tudo muito bonito – mas não é exatamente o que funciona num reality show. O excesso de bom-mocismo ameaçou deixar o Big Brother engessado. Apesar da média no ibope de 44 pontos, sua repercussão está longe da alcançada pela edição do ano passado, vencida por Jean, um gay assumido. Mas, para alívio da produção do programa (e dos espectadores, diga-se), esse marasmo começou a ser quebrado na semana passada. O professor de matemática Rafael Valente emergiu como um personagem politicamente incorreto capaz de movimentar a "trama": ele já se mostrou contrário à reza antes das refeições e mandou para o paredão seu amigão na casa, o consultor técnico Daniel Costa, eliminado na última semana. "Rafael é perigoso", diz a estudante e promotora de eventos Juliana Canabarro, defenestrada na primeira semana (em tempo: ela já acertou que posará nua na revista Playboy). Uma disputa amorosa também apimentou o ambiente. O modelo Daniel Saullo, que engatou um namorico com a colega de profissão Mariana, pôs a casa abaixo ao sapecar uns beijos na dançarina Roberta Brasil. Foi a deixa para que se formassem panelinhas contra e a favor da morena traída. No episódio, a psicóloga paraense Thaís demonstrou por que é uma forte candidata à vaga de megera: ela fez tudo para jogar as namoradas do rapaz uma contra a outra.

A atração da Rede Globo sempre foi marcada pela divisão entre mocinhos e vilões, e o interesse do público é proporcional à quantidade de intrigas e puxadas de tapete (sem falar na tensão sexual, obviamente). Por isso, a escalação do elenco é a chave de seu sucesso. Basta um "censo" das seis edições (veja o quadro) para confirmar que o Brasil do Big Brother é um lugar peculiar. Das 82 pessoas que passaram pela atração, catorze são modelos. Depois vêm os professores, com dez representantes (mas mesmo aí os corpos sarados têm a preferência). Quase 50% das mulheres escolhidas eram siliconadas, e os rapazes marombados aparecem na mesma proporção. A Globo também elegeu São Paulo e Rio de Janeiro como os celeiros de participantes – 60% deles vieram desses estados, que respondem por uma porção bem menor da população do país (30%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com todos os cálculos envolvidos na seleção, nada substitui as trombadas que surgem aleatoriamente. Uma das razões da falta desse tempero nas primeiras semanas do atual Big Brother é que, depois de tantas edições, os participantes entraram em cena escaldados. "Todos tentam repetir o comportamento de quem se deu bem anteriormente. Mas eles não são santos", diz o diretor da atração, Boninho.

O maior santo do pau oco, aliás, foi tirado do sério na semana passada. O tradutor mineiro Gustavo, ex-seminarista que volta e meia lança mão de frases edificantes (e até da Bíblia) para aconselhar os colegas, enlouqueceu ao dançar um funk coladinho com Thaís. "Benza-a Deus, que corpo essa mulher tem. Está acontecendo uma coisa incrível comigo", disse ele – e, em seguida, cobriu pudicamente suas "partes" e se refugiou numa rede.

 
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