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Especial A
dupla conquista Com o sucesso dos carros
flex, o Brasil torna-se o primeiro pais a viabilizar a produção e o consumo
de uma fonte de energia alternativa. Ao mesmo tempo, torna-se auto-suficiente
em petróleo, ainda que as refinarias nacionais não dêem conta do recado.
Não são conquistas de governos, mas do ambiente competitivo e da criatividade
de gerações de cientistas
 Giuliano
Guandalini e Chrystiane Silva Montagem
com foto de Pedro Rubens
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O Brasil não é propriamente
um terreno fértil para inovações tecnológicas. O gigantismo
estatal e a burocracia que dele resulta premiam a ineficiência, sugam o
crédito disponível e destroem o incentivo que leva pessoas e empresas
a inovar. De vez em quando, a criatividade rompe essa barreira e faz história.
É o que ocorre agora em duas frentes do setor energético. Com o
sucesso do carro bicombustível, o Brasil tornou-se o primeiro país
a viabilizar a produção e o uso em larga escala de uma energia alternativa
aos derivados de petróleo produto que bate novo recorde de preços
e esteve no centro de duas de suas piores crises econômicas, em 1973 e 1979.
Em dezembro passado, 73% dos automóveis vendidos no país funcionavam
tanto a álcool quanto a gasolina.
Numa outra frente, o Brasil está prestes a atingir a auto-suficiência
na produção de petróleo, um sonho que parecia impossível
há meros dez anos. Nada disso veio de graça. Nem é mérito
de governos principalmente do atual, que tentou pôr fim à
gestão profissional na Petrobras e ideologizar a pesquisa em órgãos
públicos. As duas conquistas resultam da criatividade e do esforço
de vários cientistas brasileiros nas últimas três décadas.
O carro bicombustível é o último passo de uma aposta de trinta
anos na produção de energia renovável a partir da biomassa
de cana-de-açúcar. Já a auto-suficiência do petróleo
só foi possível por causa da liderança tecnológica
brasileira de exploração em águas profundas.
A independência energética chega em um momento extremamente oportuno.
As cotações internacionais do petróleo estão em patamares
elevadíssimos, em torno de 60 dólares o barril, e podem subir ainda
mais ante a instabilidade no Oriente Médio, onde se concentram as maiores
reservas mundiais. "A auto-suficiência blinda o país contra crises
como as de 1973 e 1979", diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura.
Em 1979, o Brasil produzia apenas 15% do petróleo que consumia. A disparada
no preço do petróleo, que quintuplicou em poucos meses, destruiu
as contas externas e levou o país à moratória. É esse
o principal ganho para a população brasileira. Não é
pouca coisa. Há dez anos, o Brasil precisava importar metade do petróleo
de que necessitava. Se essa situação persistisse até hoje,
representaria uma conta de 20 bilhões de dólares ao ano o
que eliminaria o expressivo saldo de 15 bilhões de dólares nas contas
externas. Em resumo, sem o salto produtivo da Petrobras, o país não
teria o tão festejado superávit externo.
O feito não seria realidade sem a tecnologia de ponta desenvolvida pela
companhia. Mais de 65% dos poços encontram-se a 400 metros abaixo do nível
do mar. O mais profundo, no Campo de Roncador, fica a 1 886 metros abaixo da superfície
onze vezes a altura do Edifício Itália, o mais alto edifício
de São Paulo. Vencida a barreira da água, é preciso atravessar
camadas e camadas de rochas para atingir as jazidas petrolíferas. As brocas
chegam a entrar 2.000 metros na terra até alcançar o veio de óleo.
Somente submarinos-robôs, desenvolvidos nos centros de pesquisa da Petrobras,
conseguem operar em tais condições. Sem eles, a auto-suficiência
seria impossível os mergulhadores não resistem a profundidades
superiores a 400 metros. "Quando foram descobertas as reservas em águas
profundas, na década de 80, não havia no mundo tecnologia disponível
para explorá-las", diz Carlos Tadeu Fraga, gerente executivo do Centro
de Pesquisas da Petrobras. Tecnicamente, a auto-suficiência brasileira será
atingida com a entrada em operação da plataforma flutuante P-50,
que se encontra no estaleiro Mauá, em Niterói (RJ), onde recebe
os últimos preparativos antes de seguir para alto-mar, nas próximas
semanas. Quando ela atingir sua capacidade máxima de produção,
provavelmente no segundo semestre, o Brasil passará a produzir, pela primeira
vez, mais petróleo do que consome. Uma ambição de quase setenta
anos, desde 1939, quando jorrou o mais antigo poço brasileiro com viabilidade
comercial, no Recôncavo Baiano. A produção brasileira mais
do que dobrou na última década. No mesmo período, a extração
dos maiores produtores permaneceu praticamente estável. O mais paradoxal
é que a Petrobras começou a bater recordes atrás de recordes
após a abertura do mercado de petróleo, em 1997. Desde sua criação,
em 1953, a estatal detinha o monopólio da exploração em território
nacional. "A indústria petrolífera representava 2,5% do PIB brasileiro.
Em 2005, a participação já era de 10%", diz Eloi Fernández
y Fernández, diretor da Organização Nacional da Indústria
do Petróleo. Com a abertura do setor, petrolíferas estrangeiras
também começaram a investir no país. A Shell já produz
50.000 barris de petróleo ao dia e a Chevron acaba de anunciar planos de
investir em prospecção.
Em tempos de auto-suficiência, o que vai acontecer com o preço da
gasolina? A resposta a essa pergunta geralmente desagrada aos consumidores. Ao
contrário do senso comum, o fato de o país tornar-se auto-suficiente
não significa que o preço do combustível deva desabar de
uma hora para outra. Isso porque, para manter-se competitiva e rentável,
a empresa acompanha as cotações internacionais. "Não se pode
subsidiar o consumo de um produto escasso e não renovável", afirma
Franciso Gros, ex-presidente da companhia. "Seria demagogia." Demagogia, aliás,
também ronda a campanha publicitária preparada pela atual diretoria
da Petrobras para comemorar o feito. Em primeiro lugar, é preciso lembrar
que a auto-suficiência está sendo obtida apesar deste governo, e
não por causa dele. Além disso, o país ainda dependerá
da importação do chamado petróleo leve. Isso porque as refinarias
brasileiras, muito antigas, foram projetadas para processar o óleo importado
sobretudo do Oriente Médio, mais leve. Na Bacia de Campos, que responde
por 85% da produção nacional, o mais comum é o petróleo
pesado. O país exportará parte de seu petróleo pesado e importará
o do tipo leve. O saldo acabará sendo positivo, mas ainda há muito
a avançar no setor de refino.
Também é preciso reconhecer que a volta do álcool como uma
importante fonte de combustível ajudou o país a reduzir sua histórica
dependência do petróleo importado. Muito mais que isso: o Brasil
desenvolveu a mais bem-sucedida alternativa ao combustível fóssil
da história. Só neste ano vai produzir 16 bilhões de litros
de álcool e manter a liderança como o maior produtor do mundo. Depois
de crises de abastecimento e alta no preço, o álcool havia caído
em desuso, mas a escalada nos preços internacionais do petróleo
voltou a tornar o produto atraente. O brasileiro, no entanto, não teria
voltado a utilizar carros a álcool se não fosse a tecnologia flex.
Com ela, o consumidor não fica refém nem da Petrobras nem dos usineiros
(veja reportagem nas páginas seguintes). O momento também
é propício para a exportação do produto. O planeta
todo se preocupa com a emissão de poluentes, e 141 países assinaram
o Protocolo de Kioto, que pretende diminuir a emissão de gases que causam
o efeito estufa e o aquecimento global. Como o álcool pode reduzir em até
80% a emissão de carbono em relação à gasolina, vários
países já aprovaram a mistura de álcool ao combustível
fóssil, o que deve aumentar as exportações brasileiras. Se
toda a gasolina consumida no mundo recebesse 5% de etanol, seria necessário
produzir 58 bilhões de litros de álcool a mais por ano.
A saga pelo desenvolvimento de energia alternativa começou nos anos 70.
Na primeira crise internacional do óleo, em 1973, o preço do barril
pulou de 2 para 12 dólares. Foi então que o presidente militar Ernesto
Geisel instituiu o Proálcool, em 1975. Em dez anos foram investidos 16
bilhões de dólares em pesquisas genéticas para melhoria da
cana-de-açúcar, subsídios ao preço do álcool
e compra de novas máquinas agrícolas com financiamento a juros baixos.
É preciso reconhecer que foi uma boa idéia. O esforço do
Proálcool deu resultado no início, mas seu caráter subsidiado
e mandatório era a semente de sua própria destruição.
Em 1985, com a queda no preço do petróleo no mercado internacional,
o governo não conseguiu manter os subsídios. Em 1989, houve desabastecimento,
e os brasileiros que tinham carros a álcool ficaram reticentes. Em 1990,
o setor foi desregulamentado, e o todo-poderoso Instituto do Açúcar
e do Álcool (IAA), que definia cotas de exportação e subsidiava
o setor, foi extinto. Recentemente, os usineiros voltaram ao noticiário.
Com o boom dos bicombustíveis, o preço do álcool disparou.
As elevadas cotações do açúcar nos mercados internacionais
também acabam se refletindo no Brasil. Em vez de produzir álcool
para suprir o mercado doméstico, as usinas podem optar pela produção
de açúcar destinada ao exterior. Mas hoje, com acesso à tecnologia
flex, o consumidor pode boicotar o álcool, se achar conveniente. Aliás,
o programa do álcool só renasceu das cinzas porque o Estado saiu
de cena, os agentes econômicos competiram e os consumidores puderam escolher.
Foi um duplo triunfo. Dois exemplos
de tecnologia nacional que se tornaram referência mundial. Mas a corrida
da inovação não cessa. Há muito ainda por fazer. A
produtividade do plantio de cana deverá manter o ritmo de crescimento.
Novas gerações de carros flex deverão ser lançadas.
A produção de petróleo terá de crescer pelo menos
10% ao ano para que a auto-suficiência seja duradoura. Para essa última
tarefa, os submarinos-robôs terão de ir ainda mais fundo. Assim como
a criatividade dos brasileiros.
O FIM DAS DITADURAS MOVIDAS A PETRÓLEO
Adalberto
Roque/AFP
 | CHÁVEZ
Já está secando o petróleo fácil que financia o massacre
da democracia |
A
era do petróleo fácil está acabando. E, com ela, a festa
dos ditadores movidos a petróleo. No século passado, líderes
sanguinários como o iraquiano Saddam Hussein extraíam petróleo
com investimentos mínimos em tecnologia, pois as reservas eram fartas.
Não é mais assim. A curva de produção atingiu seu
auge. A curto prazo, isso beneficia os países produtores e, com
eles, líderes autoritários e malucos como o venezuelano Hugo Chávez
e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Isso porque a falta de petróleo pressiona
para cima os preços internacionais. Vão sobrar mais petrodólares
para que comprem armas, perturbem países vizinhos e massacrem democracias.
Num prazo maior, no entanto, essa festa deve acabar. O Relatório de Estatísticas
sobre Energia Mundial da BP (British Petroleum) calcula que as reservas remanescentes
no Irã vão durar 83,6 anos; as da Venezuela, setenta anos; as da
Líbia, 66 anos; e as da Rússia, 21,3 anos. São prazos muito
longos? Sim, mas no decorrer desse período a extração do
petróleo remanescente vai exigir técnicas refinadas, incompatíveis
com o atraso tecnológico típico de regimes autoritários e
fanfarrões. Enquanto isso, diversas fontes alternativas de energia
como o álcool brasileiro deverão florescer em países
democráticos. Será o fim dos petroditadores.
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