Edição 1941 . de fevereiro de 2006

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Especial
A dupla conquista

Com o sucesso dos carros flex, o Brasil
torna-se o primeiro pais a viabilizar a
produção e o consumo de uma fonte
de energia alternativa. Ao mesmo tempo,
torna-se auto-suficiente em petróleo,
ainda que as refinarias nacionais não dêem
conta do recado. Não são conquistas de
governos, mas do ambiente competitivo e
da criatividade de gerações de cientistas


Giuliano Guandalini e Chrystiane Silva

 

Montagem com foto de Pedro Rubens


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Energia em números

NESTA EDIÇÃO
A riqueza é o saber

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Capas de VEJA sobre o assunto

O Brasil não é propriamente um terreno fértil para inovações tecnológicas. O gigantismo estatal e a burocracia que dele resulta premiam a ineficiência, sugam o crédito disponível e destroem o incentivo que leva pessoas e empresas a inovar. De vez em quando, a criatividade rompe essa barreira e faz história. É o que ocorre agora em duas frentes do setor energético. Com o sucesso do carro bicombustível, o Brasil tornou-se o primeiro país a viabilizar a produção e o uso em larga escala de uma energia alternativa aos derivados de petróleo – produto que bate novo recorde de preços e esteve no centro de duas de suas piores crises econômicas, em 1973 e 1979. Em dezembro passado, 73% dos automóveis vendidos no país funcionavam tanto a álcool quanto a gasolina.

Numa outra frente, o Brasil está prestes a atingir a auto-suficiência na produção de petróleo, um sonho que parecia impossível há meros dez anos. Nada disso veio de graça. Nem é mérito de governos – principalmente do atual, que tentou pôr fim à gestão profissional na Petrobras e ideologizar a pesquisa em órgãos públicos. As duas conquistas resultam da criatividade e do esforço de vários cientistas brasileiros nas últimas três décadas. O carro bicombustível é o último passo de uma aposta de trinta anos na produção de energia renovável a partir da biomassa de cana-de-açúcar. Já a auto-suficiência do petróleo só foi possível por causa da liderança tecnológica brasileira de exploração em águas profundas.

A independência energética chega em um momento extremamente oportuno. As cotações internacionais do petróleo estão em patamares elevadíssimos, em torno de 60 dólares o barril, e podem subir ainda mais ante a instabilidade no Oriente Médio, onde se concentram as maiores reservas mundiais. "A auto-suficiência blinda o país contra crises como as de 1973 e 1979", diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. Em 1979, o Brasil produzia apenas 15% do petróleo que consumia. A disparada no preço do petróleo, que quintuplicou em poucos meses, destruiu as contas externas e levou o país à moratória. É esse o principal ganho para a população brasileira. Não é pouca coisa. Há dez anos, o Brasil precisava importar metade do petróleo de que necessitava. Se essa situação persistisse até hoje, representaria uma conta de 20 bilhões de dólares ao ano – o que eliminaria o expressivo saldo de 15 bilhões de dólares nas contas externas. Em resumo, sem o salto produtivo da Petrobras, o país não teria o tão festejado superávit externo.

O feito não seria realidade sem a tecnologia de ponta desenvolvida pela companhia. Mais de 65% dos poços encontram-se a 400 metros abaixo do nível do mar. O mais profundo, no Campo de Roncador, fica a 1 886 metros abaixo da superfície – onze vezes a altura do Edifício Itália, o mais alto edifício de São Paulo. Vencida a barreira da água, é preciso atravessar camadas e camadas de rochas para atingir as jazidas petrolíferas. As brocas chegam a entrar 2.000 metros na terra até alcançar o veio de óleo. Somente submarinos-robôs, desenvolvidos nos centros de pesquisa da Petrobras, conseguem operar em tais condições. Sem eles, a auto-suficiência seria impossível – os mergulhadores não resistem a profundidades superiores a 400 metros. "Quando foram descobertas as reservas em águas profundas, na década de 80, não havia no mundo tecnologia disponível para explorá-las", diz Carlos Tadeu Fraga, gerente executivo do Centro de Pesquisas da Petrobras. Tecnicamente, a auto-suficiência brasileira será atingida com a entrada em operação da plataforma flutuante P-50, que se encontra no estaleiro Mauá, em Niterói (RJ), onde recebe os últimos preparativos antes de seguir para alto-mar, nas próximas semanas. Quando ela atingir sua capacidade máxima de produção, provavelmente no segundo semestre, o Brasil passará a produzir, pela primeira vez, mais petróleo do que consome. Uma ambição de quase setenta anos, desde 1939, quando jorrou o mais antigo poço brasileiro com viabilidade comercial, no Recôncavo Baiano. A produção brasileira mais do que dobrou na última década. No mesmo período, a extração dos maiores produtores permaneceu praticamente estável. O mais paradoxal é que a Petrobras começou a bater recordes atrás de recordes após a abertura do mercado de petróleo, em 1997. Desde sua criação, em 1953, a estatal detinha o monopólio da exploração em território nacional. "A indústria petrolífera representava 2,5% do PIB brasileiro. Em 2005, a participação já era de 10%", diz Eloi Fernández y Fernández, diretor da Organização Nacional da Indústria do Petróleo. Com a abertura do setor, petrolíferas estrangeiras também começaram a investir no país. A Shell já produz 50.000 barris de petróleo ao dia e a Chevron acaba de anunciar planos de investir em prospecção.

Em tempos de auto-suficiência, o que vai acontecer com o preço da gasolina? A resposta a essa pergunta geralmente desagrada aos consumidores. Ao contrário do senso comum, o fato de o país tornar-se auto-suficiente não significa que o preço do combustível deva desabar de uma hora para outra. Isso porque, para manter-se competitiva e rentável, a empresa acompanha as cotações internacionais. "Não se pode subsidiar o consumo de um produto escasso e não renovável", afirma Franciso Gros, ex-presidente da companhia. "Seria demagogia." Demagogia, aliás, também ronda a campanha publicitária preparada pela atual diretoria da Petrobras para comemorar o feito. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a auto-suficiência está sendo obtida apesar deste governo, e não por causa dele. Além disso, o país ainda dependerá da importação do chamado petróleo leve. Isso porque as refinarias brasileiras, muito antigas, foram projetadas para processar o óleo importado sobretudo do Oriente Médio, mais leve. Na Bacia de Campos, que responde por 85% da produção nacional, o mais comum é o petróleo pesado. O país exportará parte de seu petróleo pesado e importará o do tipo leve. O saldo acabará sendo positivo, mas ainda há muito a avançar no setor de refino.

Também é preciso reconhecer que a volta do álcool como uma importante fonte de combustível ajudou o país a reduzir sua histórica dependência do petróleo importado. Muito mais que isso: o Brasil desenvolveu a mais bem-sucedida alternativa ao combustível fóssil da história. Só neste ano vai produzir 16 bilhões de litros de álcool e manter a liderança como o maior produtor do mundo. Depois de crises de abastecimento e alta no preço, o álcool havia caído em desuso, mas a escalada nos preços internacionais do petróleo voltou a tornar o produto atraente. O brasileiro, no entanto, não teria voltado a utilizar carros a álcool se não fosse a tecnologia flex. Com ela, o consumidor não fica refém nem da Petrobras nem dos usineiros (veja reportagem nas páginas seguintes). O momento também é propício para a exportação do produto. O planeta todo se preocupa com a emissão de poluentes, e 141 países assinaram o Protocolo de Kioto, que pretende diminuir a emissão de gases que causam o efeito estufa e o aquecimento global. Como o álcool pode reduzir em até 80% a emissão de carbono em relação à gasolina, vários países já aprovaram a mistura de álcool ao combustível fóssil, o que deve aumentar as exportações brasileiras. Se toda a gasolina consumida no mundo recebesse 5% de etanol, seria necessário produzir 58 bilhões de litros de álcool a mais por ano.

A saga pelo desenvolvimento de energia alternativa começou nos anos 70. Na primeira crise internacional do óleo, em 1973, o preço do barril pulou de 2 para 12 dólares. Foi então que o presidente militar Ernesto Geisel instituiu o Proálcool, em 1975. Em dez anos foram investidos 16 bilhões de dólares em pesquisas genéticas para melhoria da cana-de-açúcar, subsídios ao preço do álcool e compra de novas máquinas agrícolas com financiamento a juros baixos. É preciso reconhecer que foi uma boa idéia. O esforço do Proálcool deu resultado no início, mas seu caráter subsidiado e mandatório era a semente de sua própria destruição. Em 1985, com a queda no preço do petróleo no mercado internacional, o governo não conseguiu manter os subsídios. Em 1989, houve desabastecimento, e os brasileiros que tinham carros a álcool ficaram reticentes. Em 1990, o setor foi desregulamentado, e o todo-poderoso Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que definia cotas de exportação e subsidiava o setor, foi extinto. Recentemente, os usineiros voltaram ao noticiário. Com o boom dos bicombustíveis, o preço do álcool disparou. As elevadas cotações do açúcar nos mercados internacionais também acabam se refletindo no Brasil. Em vez de produzir álcool para suprir o mercado doméstico, as usinas podem optar pela produção de açúcar destinada ao exterior. Mas hoje, com acesso à tecnologia flex, o consumidor pode boicotar o álcool, se achar conveniente. Aliás, o programa do álcool só renasceu das cinzas porque o Estado saiu de cena, os agentes econômicos competiram e os consumidores puderam escolher.

Foi um duplo triunfo. Dois exemplos de tecnologia nacional que se tornaram referência mundial. Mas a corrida da inovação não cessa. Há muito ainda por fazer. A produtividade do plantio de cana deverá manter o ritmo de crescimento. Novas gerações de carros flex deverão ser lançadas. A produção de petróleo terá de crescer pelo menos 10% ao ano para que a auto-suficiência seja duradoura. Para essa última tarefa, os submarinos-robôs terão de ir ainda mais fundo. Assim como a criatividade dos brasileiros.

 

O FIM DAS DITADURAS MOVIDAS A PETRÓLEO

Adalberto Roque/AFP
CHÁVEZ
Já está secando o petróleo fácil que financia o massacre da democracia


A era do petróleo fácil está acabando. E, com ela, a festa dos ditadores movidos a petróleo. No século passado, líderes sanguinários como o iraquiano Saddam Hussein extraíam petróleo com investimentos mínimos em tecnologia, pois as reservas eram fartas. Não é mais assim. A curva de produção atingiu seu auge. A curto prazo, isso beneficia os países produtores – e, com eles, líderes autoritários e malucos como o venezuelano Hugo Chávez e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Isso porque a falta de petróleo pressiona para cima os preços internacionais. Vão sobrar mais petrodólares para que comprem armas, perturbem países vizinhos e massacrem democracias. Num prazo maior, no entanto, essa festa deve acabar. O Relatório de Estatísticas sobre Energia Mundial da BP (British Petroleum) calcula que as reservas remanescentes no Irã vão durar 83,6 anos; as da Venezuela, setenta anos; as da Líbia, 66 anos; e as da Rússia, 21,3 anos. São prazos muito longos? Sim, mas no decorrer desse período a extração do petróleo remanescente vai exigir técnicas refinadas, incompatíveis com o atraso tecnológico típico de regimes autoritários e fanfarrões. Enquanto isso, diversas fontes alternativas de energia – como o álcool brasileiro – deverão florescer em países democráticos. Será o fim dos petroditadores.

 

 
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