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Internet
A muralha do Google
O serviço de busca mais
popular da internet instala-se na China e rende-se à
censura
Para uma ditadura, não
há maior perigo que a livre discussão de idéias
e o acesso irrestrito a informação. Já para
um site de buscas na internet, a sobrevivência depende da
confiança que o público deposita nele e isso
significa dar privacidade e liberdade a quem procura informações
na rede mundial de computadores. Foi equilibrando-se entre esses
dois princípios que o Google, o sistema de busca mais popular
do mundo, inaugurou sua versão chinesa (Google.cn),
na semana passada. A empresa foi a última gigante da internet
a resistir às condições draconianas do governo
chinês para operar em seu território, como o uso de
filtros que bloqueiam pesquisas de assuntos considerados subversivos
pelo regime comunista. A partir de agora, cada vez que um chinês
procurar no Google a expressão "Massacre da Praça
da Paz Celestial", estima-se que nove em cada dez páginas
serão bloqueadas, como já ocorre com os serviços
do Yahoo e da Microsoft no país. Mais de 900 palavras fazem
parte de uma lista secreta renovada regularmente que
o governo chinês entrega às empresas de internet para
que façam a censura prévia virtual. A China tem enorme
estrutura de monitoramento e censura da internet: são 30.000
funcionários vasculhando a rede, mais que o dobro do efetivo
da CIA, o serviço secreto americano.
Ao render-se às regras
da China para o setor, o Google deu força ao debate sobre
a censura na internet. Na Alemanha e na França, a empresa
já barra, em seus programas de busca, sites nazistas ou racistas.
Nos Estados Unidos, são eliminadas páginas que desrespeitam
direitos autorais. "São situações éticas
bastante distintas", disse a VEJA o canadense Ronald Deibert, especialista
em mídia digital da Universidade de Toronto. "Na Alemanha,
França e Estados Unidos, são censuras decididas por
democracias, enquanto na China as restrições são
impostas por burocratas que não precisam prestar contas à
sociedade." Poucos dias antes de colocar no ar sua página
chinesa, o Google recusou um pedido do governo americano para entregar
a relação completa de todas as pesquisas feitas em
seu site no intervalo de uma semana. O Departamento de Justiça
pretendia usar o material para analisar a eficácia de uma
lei de proteção infantil na rede. O Google alegou
que a informação feria a privacidade de seus clientes.
A empresa viu-se diante de um dilema ético: como era possível
ceder à censura de uma ditadura quando, uma semana antes,
se recusara a atender a um pedido de um governo democrático?
A justificativa encontrada pela direção do Google
é que pior do que oferecer um serviço censurado seria
ficar fora do mercado chinês que, em cinco anos, terá
mais pessoas conectadas à internet que os Estados Unidos.
Para competir de igual para igual com outros sites de busca na China,
a empresa precisa ter servidores funcionando no país. Para
ficar com a consciência mais tranqüila, o Google não
vai oferecer, por enquanto, serviços de mensagem e blogs
(diários eletrônicos) aos chineses. Assim evitará
dilemas morais já enfrentados por seus concorrentes: no ano
passado, informações passadas pelo Yahoo ao governo
chinês levaram à prisão de um dissidente político.
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