Edição 1941 . de fevereiro de 2006

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Internet
A muralha do Google

O serviço de busca mais popular da internet instala-se na China – e rende-se à censura

Para uma ditadura, não há maior perigo que a livre discussão de idéias e o acesso irrestrito a informação. Já para um site de buscas na internet, a sobrevivência depende da confiança que o público deposita nele – e isso significa dar privacidade e liberdade a quem procura informações na rede mundial de computadores. Foi equilibrando-se entre esses dois princípios que o Google, o sistema de busca mais popular do mundo, inaugurou sua versão chinesa (Google.cn), na semana passada. A empresa foi a última gigante da internet a resistir às condições draconianas do governo chinês para operar em seu território, como o uso de filtros que bloqueiam pesquisas de assuntos considerados subversivos pelo regime comunista. A partir de agora, cada vez que um chinês procurar no Google a expressão "Massacre da Praça da Paz Celestial", estima-se que nove em cada dez páginas serão bloqueadas, como já ocorre com os serviços do Yahoo e da Microsoft no país. Mais de 900 palavras fazem parte de uma lista secreta – renovada regularmente – que o governo chinês entrega às empresas de internet para que façam a censura prévia virtual. A China tem enorme estrutura de monitoramento e censura da internet: são 30.000 funcionários vasculhando a rede, mais que o dobro do efetivo da CIA, o serviço secreto americano.

Ao render-se às regras da China para o setor, o Google deu força ao debate sobre a censura na internet. Na Alemanha e na França, a empresa já barra, em seus programas de busca, sites nazistas ou racistas. Nos Estados Unidos, são eliminadas páginas que desrespeitam direitos autorais. "São situações éticas bastante distintas", disse a VEJA o canadense Ronald Deibert, especialista em mídia digital da Universidade de Toronto. "Na Alemanha, França e Estados Unidos, são censuras decididas por democracias, enquanto na China as restrições são impostas por burocratas que não precisam prestar contas à sociedade." Poucos dias antes de colocar no ar sua página chinesa, o Google recusou um pedido do governo americano para entregar a relação completa de todas as pesquisas feitas em seu site no intervalo de uma semana. O Departamento de Justiça pretendia usar o material para analisar a eficácia de uma lei de proteção infantil na rede. O Google alegou que a informação feria a privacidade de seus clientes. A empresa viu-se diante de um dilema ético: como era possível ceder à censura de uma ditadura quando, uma semana antes, se recusara a atender a um pedido de um governo democrático? A justificativa encontrada pela direção do Google é que pior do que oferecer um serviço censurado seria ficar fora do mercado chinês – que, em cinco anos, terá mais pessoas conectadas à internet que os Estados Unidos. Para competir de igual para igual com outros sites de busca na China, a empresa precisa ter servidores funcionando no país. Para ficar com a consciência mais tranqüila, o Google não vai oferecer, por enquanto, serviços de mensagem e blogs (diários eletrônicos) aos chineses. Assim evitará dilemas morais já enfrentados por seus concorrentes: no ano passado, informações passadas pelo Yahoo ao governo chinês levaram à prisão de um dissidente político.

 
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