Edição 1941 . de fevereiro de 2006

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Esporte
O homem que fez 81 pontos numa partida de basquete

Kobe Bryant supera até Michael Jordan
e entra para a história com uma marca extraordinária


André Fontenelle

Noah Graham/AFP

Bryant faz 2 dos 81 pontos: melhor marca em 44 anos


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No último domingo, 22, produziu-se na NBA, a liga americana de basquete, um momento raríssimo do esporte. Kobe Bryant, jogador de 27 anos do Los Angeles Lakers, marcou 81 pontos na partida em que seu time derrotou o Toronto Raptors por 122 a 104. É algo tão raro quanto um jogador de futebol assinalar oito gols no mesmo jogo (uma coisa que aconteceu com Pelé, por exemplo). No basquete, 40 pontos já representam uma marca excepcional. Michael Jordan, considerado o maior jogador de todos os tempos, chegou a 69 em um único jogo. Para atingir os 81 pontos, Bryant acertou 53 dos 79 arremessos que tentou em 42 minutos (no basquete, uma cesta pode valer 1, 2 ou 3 pontos, conforme a situação). Normalmente ele acerta 23 de 43 arremessos. O time adversário mudou várias vezes o sistema de marcação para tentar contê-lo, sem sucesso.

Em seis décadas de existência da NBA, só um jogador conseguiu mais pontos que Bryant. Wilt Chamberlain marcou 100 em uma única partida, em 1962. Mas as regras do basquete eram tão diferentes que a modalidade praticamente podia ser considerada um outro esporte, e isso torna a comparação difícil. Além disso, Chamberlain, um gigante de 2,16 metros, era pivô – ou seja, o jogador que fica mais próximo da cesta. Bryant, de "apenas" 1,98 metro, atua como armador e costuma encestar bolas fazendo arremessos a distância. No domingo, sete de suas cestas valeram 3 pontos, com tiros feitos além da marca dos 7 metros. Outra diferença em relação a Chamberlain é que este nunca era substituído, enquanto Bryant esteve fora da quadra durante 15% do tempo de jogo.

A marca de Kobe Bryant levou os mais entusiasmados a compará-lo a Michael Jordan, o maior mito do basquete, que deixou as quadras em 2003. Bryant leva vantagem em algumas estatísticas. Marca 35 pontos por jogo, em média, contra os 30 que Jordan fazia. Mas Jordan era mais completo: pegava mais rebotes e roubava mais bolas. Jogava para a equipe, enquanto Bryant é considerado fominha. "Basquete é um jogo de equipe", disse um ex-companheiro de Jordan, Scottie Pippen, ao saber dos 81 pontos. "Ele estava em um dia iluminado, mas não é o número de pontos que diz se um jogador foi bom ou ruim para o time", opina a ex-cestinha Hortência, que certa vez assinalou 124 pontos em uma partida de um campeonato do interior de São Paulo.

Fora das quadras, Jordan e Bryant também são diferentes. Jordan sempre foi um atleta-modelo – exceto pelo vício confessado de torrar somas consideráveis de dinheiro em apostas. Kobe – assim batizado porque o pai, um ex-jogador da NBA, achou bonito o nome de um tipo de bife japonês no cardápio de um restaurante – vinha se destacando nas páginas policiais mais do que nas esportivas. Em 2003, foi acusado de estuprar uma jovem de 19 anos em um hotel no estado americano do Colorado. O caso foi resolvido por um acordo em 2004, mas por causa disso o jogador perdeu lucrativos contratos de publicidade.

A façanha de Bryant dentro da quadra só pode ser devidamente apreciada em virtude da obsessão americana com as estatísticas esportivas. Desde que a NBA foi criada, anota-se cada cesta, rebote e arremesso de cada jogador em cada partida (e são mais de 1 000 jogos por ano). Com apenas alguns cliques na internet, é possível descobrir que Bryant, em 666 jogos como profissional, fez 15.436 pontos em 18.777 arremessos à cesta. Os proprietários da NBA, uma liga privada, sabem do valor comercial dessas estatísticas. Não é à toa que a empresa fatura 3 bilhões de dólares por ano. Beisebol e futebol americano, os outros dois esportes populares nos Estados Unidos, têm a mesma preocupação em compilar e divulgar números e recordes de seus atletas. Graças ao zelo estatístico e ao feito de Bryant, conseguiu-se uma divulgação bem-vinda para a NBA, que nos últimos anos não tem produzido ídolos com o mesmo carisma de nomes do passado, como Michael Jordan e Magic Johnson.

 

 
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