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Brasil O
mestre e o aprendiz O novo marqueteiro
do presidente Lula é um ex-sócio de Duda Mendonça em
campanhas feitas com dinheiro de caixa dois
 Otávio
Cabral Fotos
Ana Ottoni/Folha Imagem e Valter Campana/ABR
 | | Duda
Mendonça e João Santana: ligações com doleiros e contas
secretas no exterior |
Envolvido
em fraudes que vão de recebimento de dinheiro clandestino no exterior a
estelionato eleitoral por uso de contratos falsos e caixa dois, o marqueteiro
Duda Mendonça anunciou que não vai mais trabalhar em campanhas políticas.
Com a aposentadoria precoce de seu principal marqueteiro, o PT elegeu o sucessor
de Duda para a provável campanha à reeleição do presidente
Lula. O escolhido é o jornalista João Cerqueira de Santana Filho,
53 anos, proprietário da JF Comunicação. Desde o fim do ano
passado, depois que Duda confessou ter recebido dinheiro de caixa dois em uma
conta secreta nas Bahamas, Santana passou a ser o responsável pela estratégia
de comunicação pessoal do presidente da República. Ele dá
dicas sobre discursos, sugere pronunciamentos e até já criou um
mote para a campanha. O "Lulinha paz e amor" de Duda Mendonça em 2002 agora
vai tentar convencer os eleitores de que o melhor do governo é ele mesmo,
o presidente. João Santana, o novo alquimista, é um aprendiz de
Duda Mendonça, não só nas criações geniais.
Assim como o mestre, ele tem contas secretas no exterior. Também como o
mestre, ele foi sócio da A2CM Limitada, a empresa que Duda utilizava para
fazer suas campanhas com dinheiro clandestino.
Mestre e aprendiz trabalharam juntos por dez anos e foram sócios em várias
empresas de comunicação e publicidade. A sociedade na agência
A2CM durou até dezembro de 2003, quando a empresa foi extinta. Documentos
publicados por VEJA há duas semanas revelaram que a agência oferecia
pacotes eleitorais mais que atraentes a políticos que usam caixa dois nas
campanhas. Duda, além de forjar um contrato subfaturado para ser apresentado
à Justiça Eleitoral, ainda colocava sua agência à disposição
para arrecadar dinheiro de empresários que não queriam doar oficialmente.
Nesses casos, o publicitário simulava um serviço qualquer para a
empresa, emitia nota fiscal, descontava os impostos e usava os recursos para se
pagar. No Rio de Janeiro, o Ministério Público descobriu que a mesma
A2CM aplicou uma outra tecnologia de arrecadação. Em 1998, por ordem
do então candidato à reeleição, Marcello Alencar,
as agências de publicidade que venceram a licitação do governo
foram obrigadas a repassar metade de seus contratos à empresa de Duda e
Santana. O proprietário de uma das agências envolvidas revelou, então,
que a terceirização tinha como objetivo a reeleição
de Alencar.
Marcos
D' Paula/AE
 | | Lula
inaugura ponte com o presidente do Peru: a ordem do marqueteiro é aparecer
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João Santana,
que é conhecido pelo apelido de "Patinhas" por ser pão-duro, como
o personagem de Walt Disney, coordenou várias campanhas da A2CM, alimentadas
com dinheiro de caixa dois. Em 2001, ele chegou a integrar a equipe de Duda Mendonça
que elaborou a pré-campanha petista aquela cuja peça mais
famosa era a de um rato roendo a bandeira brasileira. Mestre e aprendiz, porém,
se desentenderam no ano seguinte, às vésperas do início da
campanha presidencial de Lula. O motivo alegado foi disputa de vaidade, mas a
separação se deu mesmo por dinheiro. Patinhas descobriu que tinha
sido passado para trás na hora de dividir o lucro da campanha de Eduardo
Duhalde, então candidato a presidente da Argentina, em 1999. O combinado
era que cada um ficaria com metade do lucro. Duda cumpriu rigorosamente o contrato,
mas só a parte oficial. Os recursos que entraram por fora, via caixa dois,
foram integralmente para as contas do publicitário no exterior. Patinhas
descobriu e decidiu romper a sociedade. Desde então, o jornalista segue
carreira-solo, na trilha do mestre, com igual sucesso. Se terá o mesmo
destino ainda é uma questão em aberto.
O aprendiz começou a assumir o lugar do mestre em outubro, pelas mãos
do ministro Antonio Palocci, seu cliente na bem-sucedida campanha à prefeitura
de Ribeirão Preto. Lula, logo na primeira conversa que teve com o marqueteiro,
em outubro do ano passado, gostou do que ouviu . Patinhas aconselhou o presidente
a defender os avanços da economia, principalmente as conquistas das classes
mais pobres da população. Lula deveria não só destacar
como também personificar essas conquistas. Em outras palavras, deveria
puxar para si a responsabilidade pelo que acontece de bom no governo. "O João
Santana defende que o Lula troque o slogan 'Lulinha paz e amor' por algo na linha
pai dos pobres. Ele tem de fazer o discurso que usou no primeiro mandato para
cuidar da economia e da população mais carente, assim tem chance
de ganhar a eleição", afirma um assessor direto do presidente. Outro
conselho de Santana incorporado por Lula foi o de ter uma ação de
governo mais ofensiva, para que as denúncias de corrupção
não continuem dominando o debate político. A dica produziu resultados.
Nas últimas semanas, Lula tem sido questionado sobre ações
de governo, como a operação tapa-buracos e suas viagens eleitoreiras,
deixando a corrupção em segundo plano. O presidente também
passou a viajar mais e pretende convocar cadeia de rádio e TV sempre que
o governo tiver alguma notícia considerada boa.
Patinhas aparentemente também herdou do mestre a alergia por pagar impostos
e a compulsão para mandar dinheiro para fora do Brasil usando vias clandestinas,
como doleiros e contas secretas em paraísos fiscais. Reportagem publicada
na quinta-feira passada pelo jornal O Estado de S. Paulo mostra que o Ministério
Público Federal já rastreou 528.000 dólares enviados pelo
jornalista através de uma empresa para as Ilhas Virgens Britânicas.
A movimentação ocorreu entre 1999 e 2000, período em que
Duda também recebeu mais de meio milhão de dólares em transferências
clandestinas. As operações, assim como as de Duda, foram feitas
por meio do BankBoston International. Assim como no caso de Duda, o dinheiro foi
remetido através do doleiro paulista Roger Clement Heber. Assim como no
caso de Duda, foi usada a mesma conta e o mesmo banco nos Estados Unidos. Assim
como Duda, João Santana não declarou o dinheiro. Assim como Duda,
ele também se reúne uma vez por semana para aconselhar o presidente
Lula. Como bom aprendiz, Santana está trilhando o caminho do mestre. Procurado
por VEJA, ele mandou dizer apenas que o dinheiro foi mandado ao exterior como
investimento. |