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Entrevista:
Norman Gall
Educação ou morte
O americano estudioso do Brasil
diz que o país é melhor do que
se pensa, mas que tem desafios
cruciais a superar

Roberto Pompeu de Toledo
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Otavio Dias de Oliveira

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"O Brasil de hoje é muito melhor
do que o de quando cheguei aqui, quase trinta anos atrás"
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O americano Norman Gall especializou-se, como
jornalista, desde 1961, em assuntos latino-americanos. Em 1977 radicou-se
no Brasil. E aqui criou o Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial, com sede em São Paulo, cujas atividades abrangem
de seminários reunindo personalidades brasileiras e estrangeiras
(exemplo: "A educação e a modernização
da Espanha", com a presença do ex-chefe de governo espanhol
Felipe González) a ações sociais (exemplo:
os Círculos de Leitura com jovens das escolas públicas
de São Paulo, assunto da seção Ensaio, na última
página desta revista). Gall acaba de publicar o livro Lula
e Mefistófeles (editora A Girafa), reunindo alguns dos
ensaios que escreve para os Braudel Papers, jornal do instituto
que dirige. Nova-iorquino do Brooklyn, onde nasceu em 1933, ele
não se limita aos diagnósticos, em seus trabalhos.
Costuma acompanhá-los de propostas e, se possível,
de ações. Assuntos como a violência e a escola
pública no Brasil lhe têm merecido dedicação
que vai além da teoria. Gall hoje se sente tão envolvido
com o país que decidiu se naturalizar brasileiro.
Veja Por que
o senhor decidiu ser brasileiro?
Gall O Brasil me acolheu com generosidade e me
deu muitas oportunidades. Hoje me sinto parte desta comunidade.
Aqui amadureci no meu trabalho e na minha visão da vida.
Veja Em outro
lugar seria diferente?
Gall Eu vivi em três países latino-americanos,
Porto Rico, Venezuela e Brasil, e, ao longo de uma carreira de 44
anos voltada para a América Latina, trabalhei em quase todos
os outros. O Brasil tem uma largueza que possibilita a muita gente
se realizar. Além disso, está engajado nas grandes
questões da atualidade: urbanização, globalização,
meio ambiente, violência, direitos humanos, educação
universal e, sobretudo, no aprendizado de como operar sociedades
complexas. O povo está aprendendo rapidamente. Em alguns
aspectos, o Brasil se parece com os Estados Unidos do século
XIX e da primeira metade do século XX. No Brasil posso dizer
o que penso e não serei acusado de ser um gringo intrometido,
como ocorreria em outros países.
Veja Nós,
brasileiros natos, não costumamos pensar tão bem do
Brasil. Será que ele é melhor do que achamos?
Gall O Brasil de hoje é muito melhor do
que o de quando cheguei aqui, quase trinta anos atrás. Tem
uma democracia que funciona, apesar das dificuldades, tem leis que
funcionam melhor do que no passado. É difícil encontrar,
na periferia de São Paulo, rua que não tenha pavimentação
ou iluminação. Há muito mais escolas, ainda
que de má qualidade. As taxas de homicídio estão
baixando. Em 1999, houve 11 455 homicídios registrados na
Grande São Paulo. No ano passado, essa cifra deve ter caído
à metade. Em boa parte isso se deve ao trabalho das polícias
e dos governos, mas não só. Deve-se mais ainda à
consolidação das comunidades, à maior confiança
entre as pessoas, ao crescimento do comércio. Este ponto
é muito importante: o comércio ocupa muito espaço,
e ao fazê-lo tira espaço das atividades ilegais.
Veja O senhor
e seu instituto têm realizado muitos trabalhos na periferia
e nas cidades-satélites de São Paulo. Um dos mais
importantes teve lugar em Diadema, município onde havia muita
violência e que conheceu melhora notável. O que despertou
seu interesse por Diadema?
Gall Meu envolvimento começou com o episódio
da favela Naval, aquele em que policiais foram filmados espancando
moradores e até matando um deles. Fiquei muito comovido com
aquilo. Fui a Diadema, conheci a favela Naval, entrevistei pessoas.
Depois, com o apoio do Banco Mundial, montamos um Fórum de
Segurança Pública na cidade. Eu tinha perguntado ao
prefeito quantas vezes por mês ele se encontrava com os chefes
locais da polícia, quer dizer, o delegado e o comandante
da Polícia Militar. Ele me respondeu que nunca se falavam.
No fórum, realizado na Câmara dos Vereadores, passamos
a reunir os chefes da polícia, que se mostraram muito cooperativos,
as autoridades civis e os cidadãos.
Veja Qual era
o objetivo?
Gall Era analisar a situação e propor
soluções. Fizemos um levantamento estatístico
do crime na cidade. Contratamos estudantes de direito para pesquisar
os inquéritos da Polícia Civil. As reuniões
eram realizadas uma vez por mês.
Veja O senhor
diria que o fórum foi decisivo para mudar a situação
no município?
Gall Não. Foi um conjunto de fatores. Diadema
tinha um dos mais altos índices de homicídio do mundo
140 por 100 000 habitantes. Tinha chegado a hora de fazer
algo. A prefeitura, a polícia, todos se engajaram na tarefa.
Ocorreu um processo que culminou com a famosa lei seca, obrigando
os bares a fechar às 23 horas. As taxas de homicídio
caíram substancialmente.
Veja De todo
modo, as periferias das cidades brasileiras continuam lugares de
violência e de desesperança.
Gall Eu olho as tendências, e acho que elas
são positivas. O Brasil não conhece conflitos étnicos
ou religiosos como os que sacudiram recentemente a França.
Nos bairros pobres do Brasil, as pessoas têm orgulho quando
conseguem construir uma casinha, ou quando conseguem aumentá-la.
No Brasil, populações de várias origens fundiram-se
num povo só, que fala a mesma língua e alça
a mesma bandeira.
Veja Até
agora, o senhor tem falado nas coisas boas do Brasil. E os defeitos?
Gall Muitos nascem de arranjos institucionais
defeituosos. Um deles é a rigidez da legislação
trabalhista. Ela impede a geração de empregos. Outro
é o excesso de gastos com a Previdência. O Brasil gasta
com ela duas vezes mais do que com educação. Isso
tem uma conseqüência perversa: o Brasil é um país
jovem que investe mais nos velhos, mais no passado do que no futuro.
O gasto com aposentadorias seria perfeitamente aceitável
se representasse uma proteção aos pobres e contribuísse
para a distribuição de renda. Mas não
61% destinam-se à quinta parte mais rica da população.
Para ter uma medida de comparação, nos Estados Unidos
não mais que 26% das aposentadorias vão para os mais
bem aquinhoados.
Veja Como corrigir
isso?
Gall A solução básica, adotada
em outros países, é aumentar a idade mínima
de aposentadoria. Esse processo já começou no Brasil,
mas esbarra em resistências fortes. Aproximadamente 40% dos
gastos com aposentadorias e pensões no Brasil contemplam
o setor público. Isso significa que esses 40% beneficiam
apenas 3 milhões dos 26 milhões de aposentados e pensionistas.
Há quarenta anos, a Coréia do Sul era um país
muito mais pobre que o Brasil. Hoje é muito mais rico. Os
coreanos gastam com aposentadorias apenas um quarto do que gastam
com educação.
Veja A escola
pública é um dos temas mais presentes no seu trabalho
e no do instituto que o senhor dirige. Por que ela se deteriorou
tanto?
Gall Uma das vertentes em que temos insistido,
em nossas pesquisas, é a de que as instituições
públicas se viram sufocadas por problemas de escala. Havia
escolas públicas-modelo no Rio, em São Paulo e em
outras cidades. Mas elas eram para poucos. Quando a população
começou a pressionar o sistema, ele respondeu com crescimento
considerável, mas com sacrifício na qualidade. A educação
é o desafio que ou o Brasil resolve ou terá seus problemas
eternizados. O fato de que os brasileiros mais pobres tenham uma
média de apenas 3,4 anos de escolaridade é chocante.
Mas, para mim, mais chocante ainda é que os 20% mais ricos
tenham apenas 10,3 anos de escolaridade. Uma elite com tão
pouca instrução não será capaz de operar
uma sociedade complexa.
Veja Há
alguma chance de os governos conseguirem enfrentar essa situação?
Gall É muito difícil fazer um político
se interessar pela educação. Você tem o problema
de a classe política ser impermeável entre uma eleição
e outra. Um executivo que já cumpriu sua missão no
setor privado ou um empresário bem-sucedido poderiam prestar
sua colaboração, assumindo o gerenciamento de escolas,
de grupos de escolas ou de outras áreas do setor público.
Seria um modo de pôr sua experiência e sua capacidade
de liderança a serviço da sociedade. Mas, ao contrário
do que ocorre nos Estados Unidos, na Alemanha ou na Inglaterra,
não há esse costume no Brasil.
Veja Por quê?
Gall Eu acho que a elite brasileira é cordial,
para retomar uma idéia de Sérgio Buarque de Holanda,
mas não é generosa. Veja o caso do prefeito Michael
Bloomberg, de Nova York. É um empresário bilionário
que resolveu passar para o setor público porque foi tomado
da obsessão de enfrentar os problemas da cidade. Não
me parece que ele tenha outras ambições políticas.
Para gerenciar uma profunda reforma no ensino público, ele
convocou um brilhante advogado de origem humilde, mas que conseguiu
se formar em Harvard, Joel Klein. Em outras cidades, militares aposentados
e empresários dirigem as escolas públicas. No Brasil
não há isso. A filantropia só está começando.
Os talentos do setor privado ainda não chamam a si a responsabilidade
por setores que os preocupam. Não chegam ao governador e
dizem: "Acho que teria algo com que contribuir nesta área.
Deixe-me assumi-la". Nos seminários em nosso instituto sobre
as grandes questões da atualidade, ouvimos muitos diagnósticos
e muitas lamúrias. Mas é raro ouvirmos propostas.
As elites falam muito dos problemas, mas não oferecem soluções.
Veja O senhor
tem visitado escolas públicas em suas pesquisas. O que tem
encontrado?
Gall A situação é muito insatisfatória.
As escolas vivem trocando de diretor, os professores trabalham tanto
que não decoram o nome dos alunos. Com muita freqüência
os professores faltam e os alunos ficam sem ter o que fazer. Na
sala de aula é comum o professor ficar de costas para a classe,
escrevendo no quadro-negro, enquanto os alunos copiam mecanicamente
o que ele escreve. E comportamentos como esse são tidos como
normais! Num outro plano, há a questão de o país
estar empregando errado os recursos que possui. O Brasil gasta com
um aluno do curso primário um quinto do que gasta a Grã-Bretanha.
Mas gasta com um aluno universitário duas vezes mais que
a Grã-Bretanha.
Veja A dificuldade
de enfrentar essas questões evidentemente tem a ver com o
sistema político e a corrupção. Dá para
esperar uma mudança, nesse aspecto, a curto prazo?
Gall Em meu último trabalho, Lula e
Mefistófeles, eu avancei algumas sugestões. Acho
que no Brasil o Congresso tem muito poder e pouca responsabilidade.
Sugeri que os ministros, após nomeados pelo presidente, tenham
de ser aprovados pelo Senado. Isso não só permitiria
um escrutínio maior de suas qualidades profissionais e de
sua postura ética como tornaria o Congresso co-responsável
pelas nomeações. Os escândalos de 2005 mostram
que o sistema de CPIs deve ser profundamente revisado, para produzir
resultados mais concretos, sem tanto falatório nem perda
de tempo. Também sugeri que todos os partidos e todos os
candidatos sejam obrigados a divulgar suas prestações
de conta pela internet. Dessa forma, um partido vigiaria o outro,
um candidato vigiaria o outro, e o eleitor que o desejasse vigiaria
todos.
Veja O senhor
esteve recentemente na Venezuela. Que encontrou por lá?
Gall Hugo Chávez agora comanda todos os
instrumentos de governo. Controla o aparato militar, tem o sistema
eleitoral nas mãos, possui os meios para constranger a liberdade
de expressão. Mas não creio que dure mais do que dois
ou três anos. Ele afundará na bagunça. Experiências
populistas como as de Chávez, de Kirchner (sem Lavagna) na
Argentina e de Evo Morales na Bolívia geralmente são
perda de tempo na evolução histórica de seus
países. Chávez usa o dinheiro do petróleo para
bravatas como a compra de 1 bilhão de dólares em bônus
argentinos, mas não investe na coleta de lixo em Caracas.
A cidade está afogada em sujeira, com perigo para a saúde
pública. Há hospitais públicos onde faltam
chapas nos aparelhos de raios X e produtos químicos para
exames de laboratório. A situação é
patética. Quando morei na Venezuela fiz muitas pesquisas
de campo na periferia de Caracas. Desta vez voltei a esses lugares,
e os encontrei estancados no tempo. É o contrário
do que percebo na periferia de São Paulo.
Veja Por que
a América Latina não é uma prioridade na política
externa dos Estados Unidos?
Gall Essa questão precisa ser posta em
perspectiva. Quando as coisas esquentam por aqui, a região
vira prioridade. Por outro lado, a América Latina não
é prioridade para a própria América Latina.
Um brasileiro não tem idéia do que se passa no Equador,
e um peruano não se interessa pelo México. Conheço
o caso de um alto personagem do governo brasileiro que, ao ser visitado
por um governante boliviano, lhe perguntou se a Bolívia fazia
fronteira com o Brasil.
Veja Por que
os Estados Unidos são tão atacados na América
Latina?
Gall Neste momento o presidente Bush é
alvo fácil por causa do Iraque. Mas é impressionante
como os Estados Unidos são incapazes de se defender contra
o jargão da esquerda, que usa termos como "neoliberalismo",
"Consenso de Washington" e "privatizações" como palavrões.
O mal batizado "Consenso de Washington" representou um esforço
para redescobrir as leis básicas de economia, especialmente
das finanças públicas, quando vários países
enfrentavam crises de hiperinflação e alto endividamento.
As privatizações aconteceram porque as empresas públicas,
na maioria dos casos, estavam perdendo muito dinheiro, sangrando
as finanças públicas e alimentando a inflação
crônica. Acho que os Estados Unidos, apesar de pecados como
o apoio a ditaduras militares, têm atuado no último
século como uma força revolucionária na América
Latina, ajudando a melhorar a qualidade de saúde pública,
a gestão de empresas, a produção agrícola
e o consumo popular. Nas últimas três décadas,
têm promovido e apoiado o fortalecimento da democracia. Por
isso, não entendo por que não reagem ao jargão
vulgar de seus acusadores.
Veja Será
que vai valer a pena mesmo naturalizar-se brasileiro, com todos
os problemas que o senhor apontou?
Gall Não são problemas do Brasil
em si. São problemas de desenvolvimento comuns a muitos países.
Mas não podemos esquecer os progressos já alcançados.
O Brasil segue sendo um país de aspirações.
Se tomar a decisão estratégica de por um longo prazo
concentrar seus esforços no sentido de melhorar a qualidade
do ensino público e da infra-estrutura física
estradas, portos, energia elétrica, saneamento , podemos
prever um futuro brilhante para o país.
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