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A Controvérsia das Estradas
Cicatrizes dos nossos erros
O asfaltamento das estradas da Amazônia
apressa a devastação
do verde e o ritmo de
ocupação da floresta. Mas qual é
a alternativa?
O asfalto é a garantia de qualidade de vida
para milhões
de moradores da região

Thomaz Favaro, de Humaitá
www.tyba.com.br  |
| Risco no verde
Trecho da Transamazônica:a estrada é um lamaçal durante
metade do ano |
Vistas do alto, as estradas da Amazônia assemelham-se ao
rastro da passagem de um furacão. Estima-se que 80% das áreas
de floresta devastadas estejam a menos de 5 quilômetros de uma delas.
Não se poderia esperar outra coisa dessas rodovias, pois elas foram criadas
nos anos 70 precisamente para abrir caminho para a colonização.
Quatro décadas depois, a Amazônia está malservida por estradas
esburacadas, atoleiros e toda espécie de obstáculo ao trânsito
de pessoas e cargas. Quase metade da malha rodoviária é considerada
ruim ou péssima pela Confederação Nacional do Transporte.
Outros 40% são apenas regulares. Tal situação coloca o
Brasil diante de um dilema. Não se pode tolerar que uma região
com o dobro do tamanho do México e habitada por 25 milhões de
brasileiros fique à mercê de um sistema viário de padrão
africano. Por outro lado, existe hoje a consciência de que a floresta
precisa ser preservada e que cada estrada é um vetor de desmatamento.
Elas não apenas atraem migrantes, mas também servem de ponto de
partida para milhares de caminhos vicinais abertos por madeireiros, garimpeiros
e agricultores. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)
calculou que as estradas não oficiais somam 170 000 quilômetros
de extensão. Isso significa que, de cada 10 quilômetros de estrada
na Amazônia, 7 foram rasgados ilegalmente no mato.
As grandes rodovias foram abertas pelo governo federal, que promoveu
a ida de colonos para a Amazônia na década de 70. Hoje, depois
de um prolongado período de abandono, as autoridades têm a obrigação
de pôr essas vias em ordem, garantindo o bem-estar de quem mora nesses
lugares. A dificuldade é como fazer isso e, ao mesmo tempo, impedir que
a devastação avance. O governo federal já decidiu asfaltar
as três principais estradas que rasgam a Floresta Amazônica
e, no que diz respeito à preservação, seja lá o
que Deus quiser. Não precisaria ser assim. Duas das rodovias a
Transamazônica e a Cuiabá-Santarém precisam do asfalto
com urgência. Elas atravessam áreas densamente povoadas, já
bastante desmatadas, e são necessárias para o desenvolvimento
econômico e para melhorar a qualidade de vida da população
que habita suas margens. O projeto da terceira, que liga Porto Velho a Manaus
e atravessa uma região de floresta intacta, se parece demais com os erros
do passado e faz total sentido que seja cancelado.
Como a maioria das rodovias é de terra, a temporada de
chuva torna o tráfego difícil, quase impraticável, durante
metade do ano. Os produtores de grãos do Centro-Oeste brasileiro bem
que gostariam de usar a BR-163, que liga Cuiabá, em Mato Grosso, a Santarém,
no Pará, como corredor de exportação. Mas o asfalto só
existe no trecho mato-grossense. Depois, são 937 quilômetros de
estrada de terra. Durante o período de chuvas, os atoleiros impedem a
passagem de veículos pesados. "Já demorei trinta dias para
percorrer um trecho de 750 quilômetros", diz o caminhoneiro João
Juarez Barão, um paranaense que transporta cerâmica para o Pará
e retorna com madeira para o Sul e o Sudeste. Por isso, os grãos do norte
de Mato Grosso são escoados pelos portos de Santos e Paranaguá,
a mais de 2 000 quilômetros de distância. Isso atrasa a chegada
da carga aos Estados Unidos e à Europa em pelo menos quatro dias. Estima-se
uma perda de 480 milhões de reais por safra devido ao acréscimo
no custo do frete. Mais de 800 000 pessoas vivem às margens da
BR-163. No norte de Mato Grosso, onde as chuvas são regulares e o terreno
é plano, perfeito para a lavoura mecanizada, a área de influência
da estrada engloba 50% da produção de soja do estado. Ali fica
Sorriso, a capital mundial da soja, com produção de 2,5 milhões
de toneladas por ano. No trecho paraense, onde o relevo é acidentado
e o asfalto ainda é só uma promessa, os moradores passam longos
períodos de isolamento. No inverno, época da chuva, os preços
disparam devido aos custos do frete. "Os alimentos ficam, em geral, 40%
mais caros", diz Henrique Borges, dono do mercado que abastece o município
de Trairão, com 15 000 habitantes, a 350 quilômetros de Santarém.
"A demora é tanta que não compensa trazer verdura para a
cidade."
Manoel Marques
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Caminho das águas
Balsa navega no encontro
dos rios Negro e Solimões:
90% das cargas transportadas
na Amazônia vão de barco |
A Transamazônica, que passa por trinta municípios
nos estados do Pará e Amazonas, está em situação
igualmente precária. Em seu entorno mora 1,2 milhão de pessoas,
a maioria delas no Pará. O trecho paraense concentra 60% da produção
de cacau e 20% de gado do estado. Não há argumento ambientalista
capaz de justificar a manutenção de tantos brasileiros no isolamento (veja matéria). O caso da BR-319 é totalmente
diferente. A rodovia de 877 quilômetros, que liga Porto Velho, em Rondônia,
a Manaus, foi aberta em 1973 e asfaltada. Mas, por falta de manutenção,
metade da sua extensão foi engolida pela floresta. Hoje, ela só
é trafegável nas extremidades, que foram pavimentadas nos últimos
anos. Um trecho de 400 quilômetros está praticamente abandonado
desde 1988, sem vestígios do asfalto original e com menos de 150 famílias
vivendo nas proximidades. A estrada só não sumiu de vez do mapa
porque a Embratel faz reparos constantes para poder realizar a manutenção
dos cabos que levam os serviços de telefonia e internet a Manaus.
A pavimentação da rodovia é uma proposta
antiga e tem forte apelo na capital do Amazonas e no estado de Roraima, pois
tiraria a região do isolamento rodoviário em relação
ao resto do país. A obra só não avança porque, em
junho, o Ibama negou licença ambiental. E com razão, uma vez que
a estrada ameaça regiões de floresta que estão intactas
e é melhor que continue assim. A BR-319 corta uma das áreas
com maior biodiversidade da Amazônia. "Só de aves são
740 espécies, quase metade do que existe no Brasil", diz o ornitólogo
Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
As 29 unidades de conservação ambiental propostas para evitar
que a rodovia se torne mais um propulsor do desmatamento só existem nos
papéis assinados em Brasília. O simples anúncio de que
a estrada seria recuperada foi suficiente para atrair dezenas de migrantes.
O capixaba Osmar Oliveira, de 36 anos, veio há dois anos com a família
com planos ambiciosos: está construindo um hotel com dez quartos no quilômetro
110 da rodovia. "Em dois anos, quando o asfalto chegar, serão centenas
de carros transitando por aqui todos os dias", prevê Osmar. Para
evitar que isso ocorra, alguns especialistas propõem que o traçado
da estrada seja aproveitado para a construção de uma ferrovia.
"O trem poderia suprir a demanda econômica e social sem promover
a ocupação desordenada da região", diz o biólogo
Philip Fearnside, do Inpa. Está aí uma boa sugestão para
evitar a repetição dos erros do passado.
Alberto César Araújo/Folha Imagem
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Ônibus flutuantes
Os rios são a única via de acesso para centenas de comunidades
ribeirinhas,
fazendo dos barcos o principal meio de transporte do Amazonas.
São 3 milhões
de passageiros por mês. Na foto, barcos atracados
em Manaus |
Só com bom tempo
Léo Caldas/Titular
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A cidade de Trairão (foto acima), no Pará, é
uma das dezenas de comunidades criadas ao longo da BR-163, que liga Cuiabá
a Santarém. Seus moradores vivem em função da estrada
e não é nada bom depender de uma rodovia sem asfalto. O maranhense Alcenor de Souza montou há oito anos uma borracharia na beira da rodovia.
Durante os seis meses de verão, a estação seca na Amazônia,
ele presta serviços aos caminhoneiros que passam pela cidade. São
em média trinta por dia. Mas na temporada de chuvas os clientes somem.
"Chego a ficar setenta dias sem um único serviço", diz
Alcenor. O problema é que a rodovia fica totalmente coberta de lama,
e os poucos veículos que se atrevem a trafegá-la demoram vinte
dias para percorrer um trecho de 800 quilômetros. Não é
apenas o trabalho que míngua em Trairão. No inverno, o custo do
frete aumenta e o preço dos alimentos sobe 40%.
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