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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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A guerra contra as alergias

Novos remédios e a identificação do
inimigo são armas na luta contra um mal
que atinge até um terço da população

José Edward

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Na cama com o inimigo
Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 27/9/2000: "Pé na cozinha"
Reportagem de 10/6/1998: "Asma: a luta pelo ar"
Reportagem de 25/3/1998: "Caçador de genes"

O inverno é a temporada mais crítica para as vítimas de alergia, mal que atinge, em vários graus, um terço da população do planeta. A baixa umidade do ar e a maior concentração de poluentes na atmosfera – mesmo em lugares remotos sujeitos apenas à fumaça de queimadas ou à poeira em suspensão – produzem irritações e inflamações de vários tipos, principalmente entre crianças e adolescentes. Os incômodos são muitos, mas há boas notícias sobre o assunto. Poucas áreas da medicina receberam nos últimos anos tanta atenção e investimentos em pesquisas. Dezenas de centros especializados buscam medicamentos e desenvolvem vacinas para controlar as crises alérgicas e para dar fim aos processos que as desencadeiam. "Em cinco anos muitos alérgicos poderão finalmente respirar aliviados", prevê o alergista José Seba, diretor científico da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia.

O rótulo alergia é utilizado para diversas doenças desencadeadas por reações exageradas de autodefesa do organismo. As principais são asma, rinite, sinusite, urticária, dermatites e reações a picadas de insetos ou a determinadas substâncias contidas em alimentos e medicamentos. Nos casos mais simples, o sintoma pode ser uma leve coceira. Nos mais graves, como no choque anafilático e na asma, chega a haver risco para a vida. Na essência, todos os tipos decorrem de um curto-circuito no sistema imunológico. Os anticorpos da imunoglobina E, chamados de IgE, programados para defender o corpo de organismos agressivos, reagem de maneira desmedida contra ameaças pequenas, como a presença de proteínas inofensivas para a maioria das pessoas. Células do sistema imunológico produzem anticorpos em excesso. Nesse combate, eles liberam histamina, substância que causa irritações na pele, nas mucosas e em vários órgãos internos.

No Brasil, a alergia respiratória mais freqüente é a rinite, que atinge 35% das pessoas – muitas em um grau tão baixo que elas próprias podem não se dar conta de que estão tendo uma reação alérgica. Bastante confundida com resfriado, a rinite tem características parecidas com as da asma – mas nem de longe tão graves. A asma é a mais complicada alergia, cujas crises ou desdobramentos matam centenas de pessoas por ano no país. Estudos mostram que 60% das crianças submetidas a tratamento ortodôntico são portadoras de rinite alérgica, doença que causa obstrução nasal e força a pessoa a respirar pela boca.

Os cientistas já sabem que, em boa parte dos casos, há um componente genético na propensão para as alergias. O filho de pais alérgicos tem entre 50% e 70% de probabilidade de apresentar a doença. Mas também há consenso entre os especialistas sobre o papel das mudanças no meio ambiente e nos hábitos humanos como determinantes do aumento de casos da doença. Hoje, os fatores ambientais já ultrapassam os genéticos no desencadeamento de crises alérgicas. A poluição do ar é o mais evidente, mas não o único. Há cada vez mais gente nas cidades, trocando germes com intensidade acelerada. Novos materiais nas roupas, nos móveis e nas construções contêm substâncias capazes de fazer emergir alergias que, em outra situação, muita gente passaria a vida sem saber que tem.

Uma pesquisa coordenada pelo alergologista mineiro Ataualpa Reis detectou em apenas uma cama de casal a presença de 2 milhões de ácaros e 60 milhões de bolotas fecais expelidas por eles. Esses seres microscópicos, parentes das aranhas, produzem fezes que irritam o sistema respiratório. Fumaça de cigarro, mofo, vapores de produtos químicos, pólen, látex, componentes do leite e sementes ajudam a compor uma lista de riscos sem fim. O organismo, por seu lado, quando estressado, apresenta depressão do sistema imunológico e se torna mais vulnerável.

O melhor no combate às alergias, já se sabe, é identificar as causas, para evitá-las. Isso se faz geralmente com controle do ambiente, dietas, testes cutâneos ou exames de dosagem de anticorpos. "Em muitos casos, só a mudança no ambiente já é suficiente para controlar o processo", afirma Ataualpa Reis. Em casos extremos, o alérgico é obrigado a se afastar para sempre de elementos aparentemente inofensivos para fugir das crises. A ginecologista catarinense Themis Koteck, de 47 anos, teve de mudar o rumo da carreira porque é alérgica a látex, a matéria-prima das luvas cirúrgicas. "Uma visita a um hospital já deixa meu corpo cheio de eczemas", conta Themis, hoje trabalhando com ultra-sonografia.

A guerra contra as alergias motivou muitas indústrias a reforçar os cuidados para restringir a utilização de materiais que podem ser nocivos para a saúde dos alérgicos. "Hoje há preocupação principalmente nas empresas que produzem artigos para crianças", diz a pediatra imunologista Cláudia Machado, da Universidade Estadual Paulista. Colchões, travesseiros e tapetes feitos com materiais que impedem a proliferação de ácaros conquistam cada vez mais espaço no mercado. A paulista Alergoshop, pioneira na venda de artigos do gênero no país, fundada em 1993, tem atualmente trinta lojas licenciadas, além de três próprias. Pelo menos 200 outros estabelecimentos estão no ramo e comercializam mais de 150 tipos de utensílios antialérgicos. A lista vai de alimentos a cosméticos, passando por repelentes de insetos, bijuterias sem níquel, purificadores e desumidificadores de ar.

O tratamento das alergias geralmente é feito com anti-histamínicos, drogas que inibem a ação da histamina, substância química causadora, entre outros, de espirros, coceiras e congestões nasais. Esses remédios não aliviam o mal quando ele evolui para inflamações na pele, nariz e brônquios. Nesses casos, entram em ação os corticóides, que têm ação antiinflamatória. Até pouco tempo atrás, esses dois tipos de droga produziam fortes efeitos colaterais. As novas gerações de antialérgicos são mais eficientes e menos agressivas. Nos últimos anos, foram lançadas variedades não sedativas de anti-histamínicos, que bloqueiam a histamina sem causar sensação de embriaguez. O método de aplicação também melhorou. Os corticóides eram aplicados apenas em comprimidos ou injeções e detonavam uma lista de efeitos colaterais. Os de última geração podem ser administrados na forma de creme, inalador de pó seco ou spray nasal. "Jogados diretamente no local inflamado, eles aceleram o tratamento", diz o pneumologista Fábio Morato Castro, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Uma nova classe de antialérgicos, surgida recentemente, melhorou o tratamento da asma, que afeta 16 milhões de brasileiros. Eles associam um antiinflamatório com um broncodilatador de ação prolongada, com efeito de até doze horas (os da antiga geração tinham de ser aplicados até seis vezes ao dia).

No campo das vacinas também há progressos. Com as ferramentas da engenharia genética, os antígenos usados na imunoterapia são feitos a partir do DNA dos próprios organismos que causam a alergia. Em metade dos casos já é possível controlar as crises com o uso de vacinas. Para pessoas altamente alérgicas a picadas de insetos, as que mais se arriscam aos choques anafiláticos, o grau de eficiência passa dos 90%. Há estudos avançados para o produção de vacinas com proteínas de outros vilões das alergias, como os ácaros e os fungos. Até o fim do ano, chega ao mercado brasileiro um creme que promete melhorar a qualidade de vida dos portadores de dermatite atópica, alergia que atinge principalmente crianças e causa pruridos nas dobras da pele. A multinacional Novartis diz que o medicamento inibe a inflamação cutânea sem tornar a pele extremamente fina – um dos efeitos colaterais de remédios do gênero. A empresa também investiu meio bilhão de dólares no desenvolvimento de uma nova droga que, segundo os especialistas, poderá revolucionar o tratamento de asmáticos crônicos. O otimismo se justifica, já que será a primeira droga a combater o mecanismo que desencadeia as reações alérgicas e não apenas seus sintomas. O medicamento deve chegar ao mercado no próximo ano.

 
 




Fotos Pedro Rubens/Freitas

   
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