
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A
guerra contra as alergias
Novos
remédios e
a identificação do
inimigo são armas na luta contra um mal
que atinge até um terço da população
José Edward

Veja também |
|
|
|
O
inverno é a temporada mais crítica para as vítimas
de alergia, mal que atinge, em vários graus, um terço da
população do planeta. A baixa umidade do ar e a maior concentração
de poluentes na atmosfera mesmo em lugares remotos sujeitos apenas
à fumaça de queimadas ou à poeira em suspensão
produzem irritações e inflamações de
vários tipos, principalmente entre crianças e adolescentes.
Os incômodos são muitos, mas há boas notícias
sobre o assunto. Poucas áreas da medicina receberam nos últimos
anos tanta atenção e investimentos em pesquisas. Dezenas
de centros especializados buscam medicamentos e desenvolvem vacinas para
controlar as crises alérgicas e para dar fim aos processos que
as desencadeiam. "Em cinco anos muitos alérgicos poderão
finalmente respirar aliviados", prevê o alergista José Seba,
diretor científico da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia.
O rótulo alergia é utilizado para diversas doenças
desencadeadas por reações exageradas de autodefesa do organismo.
As principais são asma, rinite, sinusite, urticária, dermatites
e reações a picadas de insetos ou a determinadas substâncias
contidas em alimentos e medicamentos. Nos casos mais simples, o sintoma
pode ser uma leve coceira. Nos mais graves, como no choque anafilático
e na asma, chega a haver risco para a vida. Na essência, todos os
tipos decorrem de um curto-circuito no sistema imunológico. Os
anticorpos da imunoglobina E, chamados de IgE, programados para defender
o corpo de organismos agressivos, reagem de maneira desmedida contra ameaças
pequenas, como a presença de proteínas inofensivas para
a maioria das pessoas. Células do sistema imunológico produzem
anticorpos em excesso. Nesse combate, eles liberam histamina, substância
que causa irritações na pele, nas mucosas e em vários
órgãos internos.
No Brasil, a alergia respiratória mais freqüente é
a rinite, que atinge 35% das pessoas muitas em um grau tão
baixo que elas próprias podem não se dar conta de que estão
tendo uma reação alérgica. Bastante confundida com
resfriado, a rinite tem características parecidas com as da asma
mas nem de longe tão graves. A asma é a mais complicada
alergia, cujas crises ou desdobramentos matam centenas de pessoas por
ano no país. Estudos mostram que 60% das crianças submetidas
a tratamento ortodôntico são portadoras de rinite alérgica,
doença que causa obstrução nasal e força a
pessoa a respirar pela boca.
Os cientistas já sabem que, em boa parte dos casos, há um
componente genético na propensão para as alergias. O filho
de pais alérgicos tem entre 50% e 70% de probabilidade de apresentar
a doença. Mas também há consenso entre os especialistas
sobre o papel das mudanças no meio ambiente e nos hábitos
humanos como determinantes do aumento de casos da doença. Hoje,
os fatores ambientais já ultrapassam os genéticos no desencadeamento
de crises alérgicas. A poluição do ar é o
mais evidente, mas não o único. Há cada vez mais
gente nas cidades, trocando germes com intensidade acelerada. Novos materiais
nas roupas, nos móveis e nas construções contêm
substâncias capazes de fazer emergir alergias que, em outra situação,
muita gente passaria a vida sem saber que tem.
Uma pesquisa coordenada pelo alergologista mineiro Ataualpa Reis detectou
em apenas uma cama de casal a presença de 2 milhões de ácaros
e 60 milhões de bolotas fecais expelidas por eles. Esses seres
microscópicos, parentes das aranhas, produzem fezes que irritam
o sistema respiratório. Fumaça de cigarro, mofo, vapores
de produtos químicos, pólen, látex, componentes do
leite e sementes ajudam a compor uma lista de riscos sem fim. O organismo,
por seu lado, quando estressado, apresenta depressão do sistema
imunológico e se torna mais vulnerável.
O melhor no combate às alergias, já se sabe, é identificar
as causas, para evitá-las. Isso se faz geralmente com controle
do ambiente, dietas, testes cutâneos ou exames de dosagem de anticorpos.
"Em muitos casos, só a mudança no ambiente já é
suficiente para controlar o processo", afirma Ataualpa Reis. Em casos
extremos, o alérgico é obrigado a se afastar para sempre
de elementos aparentemente inofensivos para fugir das crises. A ginecologista
catarinense Themis Koteck, de 47 anos, teve de mudar o rumo da carreira
porque é alérgica a látex, a matéria-prima
das luvas cirúrgicas. "Uma visita a um hospital já deixa
meu corpo cheio de eczemas", conta Themis, hoje trabalhando com ultra-sonografia.
A guerra contra as alergias motivou muitas indústrias a reforçar
os cuidados para restringir a utilização de materiais que
podem ser nocivos para a saúde dos alérgicos. "Hoje há
preocupação principalmente nas empresas que produzem artigos
para crianças", diz a pediatra imunologista Cláudia Machado,
da Universidade Estadual Paulista. Colchões, travesseiros e tapetes
feitos com materiais que impedem a proliferação de ácaros
conquistam cada vez mais espaço no mercado. A paulista Alergoshop,
pioneira na venda de artigos do gênero no país, fundada em
1993, tem atualmente trinta lojas licenciadas, além de três
próprias. Pelo menos 200 outros estabelecimentos estão no
ramo e comercializam mais de 150 tipos de utensílios antialérgicos.
A lista vai de alimentos a cosméticos, passando por repelentes
de insetos, bijuterias sem níquel, purificadores e desumidificadores
de ar.
O tratamento das alergias geralmente é feito com anti-histamínicos,
drogas que inibem a ação da histamina, substância
química causadora, entre outros, de espirros, coceiras e congestões
nasais. Esses remédios não aliviam o mal quando ele evolui
para inflamações na pele, nariz e brônquios. Nesses
casos, entram em ação os corticóides, que têm
ação antiinflamatória. Até pouco tempo atrás,
esses dois tipos de droga produziam fortes efeitos colaterais. As novas
gerações de antialérgicos são mais eficientes
e menos agressivas. Nos últimos anos, foram lançadas variedades
não sedativas de anti-histamínicos, que bloqueiam a histamina
sem causar sensação de embriaguez. O método de aplicação
também melhorou. Os corticóides eram aplicados apenas em
comprimidos ou injeções e detonavam uma lista de efeitos
colaterais. Os de última geração podem ser administrados
na forma de creme, inalador de pó seco ou spray nasal. "Jogados
diretamente no local inflamado, eles aceleram o tratamento", diz o pneumologista
Fábio Morato Castro, da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo. Uma nova classe de antialérgicos, surgida recentemente,
melhorou o tratamento da asma, que afeta 16 milhões de brasileiros.
Eles associam um antiinflamatório com um broncodilatador de ação
prolongada, com efeito de até doze horas (os da antiga geração
tinham de ser aplicados até seis vezes ao dia).
No campo das vacinas também há progressos. Com as ferramentas
da engenharia genética, os antígenos usados na imunoterapia
são feitos a partir do DNA dos próprios organismos que causam
a alergia. Em metade dos casos já é possível controlar
as crises com o uso de vacinas. Para pessoas altamente alérgicas
a picadas de insetos, as que mais se arriscam aos choques anafiláticos,
o grau de eficiência passa dos 90%. Há estudos avançados
para o produção de vacinas com proteínas de outros
vilões das alergias, como os ácaros e os fungos. Até
o fim do ano, chega ao mercado brasileiro um creme que promete melhorar
a qualidade de vida dos portadores de dermatite atópica, alergia
que atinge principalmente crianças e causa pruridos nas dobras
da pele. A multinacional Novartis diz que o medicamento inibe a inflamação
cutânea sem tornar a pele extremamente fina um dos efeitos
colaterais de remédios do gênero. A empresa também
investiu meio bilhão de dólares no desenvolvimento de uma
nova droga que, segundo os especialistas, poderá revolucionar o
tratamento de asmáticos crônicos. O otimismo se justifica,
já que será a primeira droga a combater o mecanismo que
desencadeia as reações alérgicas e não apenas
seus sintomas. O medicamento deve chegar ao mercado no próximo
ano.
|
|
 |