Geral Saúde

Esta semana

Sumário
Brasil
Internacional
Geral
O Pantanal pronto para receber 1 milhão de turistas neste ano
A Wharton School desbanca Harvard no MBA
Argentinos andam nus e aprontam confusão no Sul
Calouras do Recife raspam as sobrancelhas
Vazamento de óleo no paraíso que inspirou Darwin
O salto da indústria da elegância no Brasil
Temperatura da Terra atinge pico recorde
Os bichos também sonham
Cresce a prevenção e o índice de cura do câncer

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos


Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 
A luta contra o mal: células de defesa do organismo (amarelas) atacam célula cancerosa (vermelha)

A luta contra uma das doenças mais
temidas, os tumores malignos, está
avançando com vitórias isoladas

Anna Paula Buchalla, Cristina Poles e Daniel Hessel Teich

Veja também
As falsas e as boas promessas

As falsas esperanças contra o câncer seguem um mesmo ritual publicitário. Cientistas de alguma universidade de prestígio internacional ou pesquisadores de um grande laboratório farmacêutico anunciam uma descoberta do que pode vir a ser, em pouco tempo, a arma definitiva contra a doença. Às notícias se seguem reações eufóricas. Não é para menos. Afinal, raras doenças produzem tanto horror quanto o câncer – o espectro das dores insuportáveis, das mutilações e da morte. Tudo que um doente e seus familiares querem ouvir é que ainda existe esperança. Pois bem, a má notícia é que tão cedo não será possível produzir uma bala mágica que liquide todos os tipos de câncer. A boa notícia é que as chances de vencer completamente diversos tipos de tumores cancerígenos com as armas disponíveis nos hospitais brasileiros nunca foram tão altas como agora. Praticamente 60% deles podem ser erradicados. Alguns tipos mais agressivos de câncer, que antes matavam os pacientes em questão de meses, já podem ser domados e suas vítimas seguem pela vida carregando uma doença crônica mas sem perdas significativas na qualidade de vida e na capacidade de trabalhar. "Não se chegará logo a uma cura definitiva e única. Mas a série de avanços que a medicina tem oferecido vai permitir que a maioria dos pacientes possa viver com o câncer da mesma maneira que hoje os diabéticos e hipertensos convivem com sua doença", diz o oncologista Fernando Maluf, brasileiro que atualmente trabalha em Nova York na instituição que é considerada a linha avançada de batalha contra o câncer, o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center.

A grande revolução na luta contra o câncer é espetacular, sim, mas discreta. Sua história verdadeira raramente é contada. Ela ocorre com mudanças no estilo de vida, com o diagnóstico precoce, com tratamentos tradicionais cada dia mais eficazes e com cirurgias menos invasivas e mutiladoras. São conquistas que, pouco a pouco, transformam o câncer em patologia possível de ser prevenida e mantida sob controle. Um número crescente de casos já pode ser inteiramente curado. Há trinta anos, a leucemia infantil equivalia a uma condenação à morte. Hoje, nos melhores hospitais brasileiros, 80% dos casos são curados. Os linfomas, o câncer do sistema linfático que cresce em silêncio e cujos sintomas podem ser confundidos com dezenas de outras doenças benignas, hoje são detectados com exatidão, e a porcentagem de cura no Brasil chega a 80%. Em números absolutos, tem-se a real dimensão de quantas vidas estão sendo salvas. A cifra oficial de diagnósticos de câncer no Brasil é de cerca de 300.000 novas vítimas por ano. Os especialistas, no entanto, admitem que a subnotificação dos casos é flagrante na rede nacional de saúde e que o número real de pessoas que desenvolvem câncer é no mínimo três vezes maior. Os médicos do Hospital do Câncer A.C. Camargo, de São Paulo, centro de referência na América Latina para o tratamento da doença, sustentam que batem em 1 milhão os novos casos de câncer por ano. Um milhão é também um número mais afinado com as estimativas que a Organização Mundial de Saúde faz para países com população semelhante à do Brasil. Dificilmente se terá a quantidade precisa. Da mesma forma, não se sabe com exatidão quantos são hoje os brasileiros vivos que padecem da doença. Mas talvez o que mais interesse aos doentes seja que na contabilidade diária dos consultórios e hospitais o número de tratamentos bem-sucedidos contra o câncer tem se multiplicado.

Uma das frentes principais de batalha, que permitiu o salto nas taxas de sobrevida dos portadores de câncer no Brasil, foi a luta pela detecção precoce da doença. Graças às campanhas de conscientização e aos avanços nos métodos de diagnóstico, o índice de cura para casos em estágio inicial no Hospital do Câncer A.C. Camargo pode chegar a 80%. Esse índice cai violentamente – não chega a 20% – quando o tumor é descoberto em fase avançada. Um bom exemplo é o que aconteceu com as pacientes de câncer de mama ao longo dos últimos dez anos. O aprimoramento da mamografia, com máquinas de alta definição, permite a detecção de nódulos de meio milímetro, que passam despercebidos ao exame manual. Soma-se aos novos aparelhos a medicina nuclear – substâncias radioativas são injetadas na corrente sanguínea da paciente e "colorem" o tumor, aumentando a precocidade do diagnóstico. O maquinário não teria serventia alguma (por mais moderno que fosse) se as mulheres não se dispusessem a fazer os testes. Com os alertas da importância dos cuidados com as mamas, veiculados pela mídia, é cada vez maior o contingente de pacientes que se submetem aos exames anuais. Atualmente, de cada dez mulheres que recebem o diagnóstico de câncer de mama, sete estão na fase inicial da doença. Há duas décadas, a situação era cruelmente inversa: 70% dos diagnósticos chegavam tarde demais, quando as possibilidades de cura estavam naturalmente esgotadas ou quando a extirpação total da mama era a única arma contra a doença.

No século XIX, acreditava-se que o câncer surgia em decorrência de contusões em determinadas áreas do corpo. É recente a descoberta de que as neoplasias, o nome técnico do câncer, que significa "crescimento doentio", são resultado de uma pane no processo de multiplicação celular. As células do corpo humano multiplicam-se todo o tempo. Muitas vezes, algumas novas saem com defeito. No organismo sadio, essas células defeituosas acabam sendo destruídas pelo sistema imunológico. O câncer surge quando as células mutantes são invulneráveis aos ataques do sistema imunológico. Sem nada que as detenha, as células doentes multiplicam-se e formam um tumor. Mais recente ainda é a constatação de que a maioria dessas mutações acontece por interferência de fatores externos. Essa constatação é vital. Ela mostra que mesmo pessoas que nascem com propensão genética a desenvolver câncer em algum estágio da vida podem anulá-la adotando providências que impeçam o gene de detonar a doença.

 

Lugar para pessoas com câncer

Ricardo Benichio

Artur: câncer de fígado, operação e sessões de quimioterapia


"Quando fiquei doente e minha mãe me levou ao hospital pela primeira vez, vi escrito numa placa que era um lugar para pessoas com câncer. Então, perguntei a ela o que eu estava fazendo lá. Ainda não sabia bem o que eu tinha. Já faz quase um ano e meio que fui operado na barriga. Desde março passado, quando encontraram outro carocinho no fígado, estou fazendo quimioterapia. O que eu mais gosto lá no hospital é de brincar com os outros colegas no corredor e ir para a escolinha que tem no quinto andar (tive de sair da escola por um tempo). Converso bastante com minha médica e com minha mãe sobre a doença. No começo, quando estava lá no hospital e alguma enfermeira fazia alguma coisa que doía, só falava pra minha mãe. Hoje eu reclamo. Também tinha mais medo antes. Agora ficou quase normal. Sempre que tem um colega chorando, vou lá dar uma força pra ele. Quero terminar logo o tratamento pra poder começar a natação e aprender a andar de skate.
"
Artur Ferreira de Souza, 11 anos, de Santo André, em São Paulo

Cigarro, álcool, sol, sedentarismo, alimentação inadequada e falta de higiene são co-fatores de pelo menos 70% de todos os casos de câncer. O tabaco do cigarro, os raios ultravioleta do sol e a ausência de vitaminas e substâncias anti-oxidantes na comida são desvios que podem ser corrigidos. Por isso, os médicos dizem que sete de cada dez tumores malignos podem ser prevenidos quando as pessoas descartam os hábitos danosos descritos acima. No Brasil, há menos de dois anos, acreditava-se que a única forma de combater o câncer de próstata, o segundo mais freqüente entre os homens, era o diagnóstico precoce. Agora, já se fala em prevenção. A redução no consumo de carnes vermelhas, acreditam os médicos, ajuda a reduzir os riscos de manifestação da doença. Esse tipo de alimento, defendem, ativa indiretamente a produção de testosterona, o hormônio que acelera o aparecimento de câncer de próstata em pacientes com predisposição à doença. Em relação aos tumores de pulmão, sabe-se que em 90% dos casos a neoplasia está relacionada ao cigarro. Entre os que consomem dois maços por dia, dobram os riscos de câncer de bexiga. A exemplo do que acontece nos Estados Unidos, os grandes centros de tratamento de câncer no Brasil já dispõem de grupos de apoio ao tabagista. Com suporte psicológico e a associação de medicamentos, como antidepressivos e adesivos de nicotina, um em cada quatro fumantes abandona o vício. Recém-identificados pelo Projeto Genoma, até os cânceres hereditários – 10% de todas as neoplasias – são sensíveis a medidas de prevenção.

Com a disseminação de técnicas menos invasivas, o número de cirurgias de diagnóstico de câncer na tireóide caiu 70%. As operações para a remoção dos tumores também se tornaram menos agressivas. O cirurgião hoje tem técnicas de abordagem para retirar o tumor sem dilacerar as estruturas sadias em volta. Devido ao consumo excessivo de cigarro e álcool, o Brasil é o recordista mundial de câncer de laringe. Uma nova técnica começa a ser desenvolvida por médicos brasileiros. Indicado a 90% dos doentes, o procedimento padrão é a traqueostomia – uma incisão na garganta por onde vai passar o ar depois da retirada da laringe e das cordas vocais. A grande reviravolta no tratamento está acontecendo graças à aplicação conjunta de químio e radioterapia. Essa abordagem vem permitindo a preservação da laringe de um terço dos pacientes.

 

Plaquetas, leucócitos...

Joel Rocha

Eliana: leucemia e transplante


"Quando recebi a notícia de que estava com leucemia, em 1995, fiquei atordoada. Tinha acabado de me formar. Havia duas opções: o transplante ou o tratamento com remédios. Optei pela segunda. Passei por sessões de químio e radioterapia e tomava medicação pela via oral. Dois anos depois, quando pensava estar bem, a doença voltou. Fiz um exame em Miami capaz de apontar com precisão o tipo do câncer que havia ressurgido em minha garganta. Fiquei uma semana nos Estados Unidos aguardando os resultados do exame. Ouvi o diagnóstico pelo telefone. O médico nem sequer falou comigo pessoalmente. Fui tratada como um número. Resolvi voltar ao Brasil para fazer o transplante, minha única chance de cura. Em maio de 1998, recebi a medula de minha mãe. Durante 100 dias, não podia ter contato com quase ninguém. Tive muito enjôo, diarréias. Só pensava em plaquetas, leucócitos... Hoje levo uma vida normal. Não tive seqüelas. Faço exames uma vez por ano e estou liberada para fazer tudo o que quiser."
Eliana Garcia Franklin, 27 anos, arquiteta, de Curitiba

O executivo paulista Arnaldo Lacase Sobrinho, de 43 anos, é um dos beneficiados das cirurgias menos agressivas. Diagnosticado com um tumor na amígdala, ouviu que sua língua precisaria ser extirpada. Em agosto passado, Arnaldo foi submetido a uma operação em que os médicos conseguiram arrancar o tumor de 7 centímetros, preservando-lhe a língua. Ele sobreviveu com qualidade de vida – a grande meta da oncologia moderna.

No Serviço de Oncologia Pediátrica do Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip), o índice de pacientes curados equivale ao do anotado no St. Jude Children's Research Hospital, nos Estados Unidos, um dos principais centros de referência e pesquisa de câncer infantil do mundo. Liliane Gomes dos Santos, de 15 anos, conheceu o Imip em 1993. Vítima de leucemia, hoje ela está curada. Seu relato é comovente: "Aos 6 anos, larguei os estudos porque não tinha mais forças para ir a pé para a escola. Não conseguia mais ficar em pé, até que minha mãe resolveu me levar para o Recife para fazer exames. No dia seguinte, minha mãe e a psicóloga do hospital me disseram que eu estava com uma doença muito séria. Minha mãe me abraçou duas vezes e disse que eu ficaria boa. A psicóloga me explicou o que era leucemia. Lembro da minha mãe dizendo que não poderia ficar comigo porque tinha de cuidar dos meus irmãos. Ela foi embora no dia seguinte. Durante oito anos morei no hospital, minha mãe só veio me visitar uma vez. Fiquei parecendo a Olívia Palito, só que careca. Tinha muito medo quando o sol ia embora. Ficava tudo escuro e dava a impressão de que eu ia morrer".

 

Culpa dos trinta cigarros por dia


"Descobri a doença em junho de 1994, quando uma tosse constante começou a me incomodar. A radiografia do tórax mostrou uma mancha em meu pulmão. Na época, eu fumava trinta cigarros por dia. Os exames constataram que eu tinha um tumor do tamanho de uma laranja graúda. Passei por uma cirurgia para retirada de parte do pulmão. Depois da operação, as dores eram tão grandes que em várias ocasiões tive de ser sedado para aliviar o sofrimento. Tudo parecia ir bem, até que seis meses depois sofri uma queda repentina e fui levado ao hospital. Foi quando veio a segunda notícia aterrorizante. Havia aparecido um novo tumor, dessa vez no cérebro. Fui operado novamente e enfrentei sessões de radioterapia. Perdi o cabelo, mas não senti nenhum tipo de dor. Passaram-se mais de cinco anos e hoje, aliviado, posso dizer que estou curado."
Darci Rossetto, 57 anos, técnico contábil, de Porto Alegre
Liane Neves

Rossetto: câncer de pulmão, cirurgia, tumor no cérebro, nova operação e a cura

Outra notícia animadora no tratamento do câncer no Brasil é a multiplicação dos centros de excelência, antes concentrados em poucas capitais. Atualmente, muitos hospitais brasileiros já se equiparam com o que há de melhor no mundo. São 33 hospitais dedicados exclusivamente aos cuidados com a doença espalhados pelo país. Entre eles, dois são considerados institutos de referência para ensino, pesquisa, prevenção, diagnóstico e tratamento: Inca, no Rio de Janeiro, e o A.C. Camargo, em São Paulo. O hospital paulista tem protocolo para tratar 802 tipos de tumor. Referência na América Latina, o Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, nos últimos vinte anos realizou 1.200 transplantes em pacientes brasileiros e estrangeiros. Hoje responde por 40% dos transplantes desse tipo feitos no país. É o único na América Latina autorizado a realizar a cirurgia com doadores não aparentados. Chefiada pelo médico Ricardo Pasquini, pioneiro dos transplantes de medula no Brasil, a equipe do hospital está envolvida hoje na criação de um banco de sangue de cordão umbilical. O objetivo é tentar reduzir a fila de pacientes à espera de um doador de medula. A Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é outro centro de excelência, especialmente no tratamento dos tumores de pulmão. Os médicos gaúchos, ao combinar o uso de químio com radioterapia para reduzir o tamanho dos tumores de pulmão antes de extirpá-los, estão conseguindo salvar um número de doentes sete vezes maior que o que se salvava antes, com o tratamento convencional.

 

Saúde recuperada e ginástica

Joel Rocha

Bernardes: linfoma descoberto por causa de cansaço e crises de tosse constantes


"Sempre levei uma vida saudável, nunca fumei. Em 1995, comecei a sentir um cansaço fora do comum e a tossir. Descobri, então, que estava com um tumor localizado entre o pulmão e o coração. Para saber se era benigno ou maligno, teria de passar por uma cirurgia. O resultado da biópsia acusou linfoma de Hodgkin no mediastino. Dois dias depois, estava embarcando para os Estados Unidos. Meu cunhado, oncologista, estava em Harvard naquela época. Fiz os dois primeiros meses de tratamento lá, e o restante no Brasil. Ao todo, foram seis meses de quimioterapia e mais dois de radioterapia. Perdi pêlos e cabelos. Nos períodos mais críticos, tinha de posicionar a cama num ângulo de 30° por causa das dores e da falta de ar. Nos meses subseqüentes, o tratamento foi menos intenso. Nesse período, tive uma vida bastante normal. Não deixei de trabalhar, apenas dosava os horários. No final de 1996, já estava jogando futebol. Hoje faço musculação três vezes por semana e tenho uma ótima qualidade de vida. Em março, farei meu último controle. Estou curado."
José Bernardes, 31 anos, designer gráfico, do Rio de Janeiro

Graças ao progresso farmacológico, mesmo quando a doença está em estágio avançado e requer tratamentos mais pesados, o paciente consegue manter uma qualidade de vida razoável. Ainda que alguns doentes sejam vítimas de efeitos colaterais terríveis, nada se compara à imagem do paciente do passado – a prostração na cama, a incapacidade para as atividades do dia-a-dia devido ao mal-estar causado pelo tratamento. O governador de São Paulo, Mário Covas, é um exemplo de como se tornou possível a convivência com o câncer mesmo em sua fase avançada. Licenciado do cargo, na semana passada Covas dirigiu reuniões e viajou de helicóptero até o litoral paulista para visitar obras e conversar com moradores de uma favela da cidade de Santos.

O câncer é uma das doenças mais complexas com as quais a medicina já deparou. "Percebemos que os tumores são tão diversos entre si que, muitas vezes, as semelhanças entre dois tumores de pulmão se reduzem apenas ao fato de eles estarem no mesmo lugar", diz o bioquímico Luiz Fernando Lima Reis, diretor de pós-graduação do Hospital do Câncer A.C. Camargo e pesquisador do Instituto Ludwig. "Mesmo casos idênticos entre si evoluem de maneiras drasticamente diferentes", explica ele. É para dominar essas sutilezas da doença que milhares de cientistas do mundo inteiro se dedicam a entender e a anular cada um desses mecanismos numa infinita ramificação de tratamentos. Estão em estudo atualmente 354 novas drogas aplicadas experimentalmente em 23.000 pessoas em todo o mundo.

Moacyr Lopes Jr/Folha Imagem
Covas em solenidade na segunda-feira 15

Em São Paulo, cientistas do Instituto Ludwig estão mapeando os genes de tumores mais comuns entre os brasileiros. "O objetivo é conseguir maior precisão de diagnósticos e tratamentos", explica o bioquímico Lima Reis. Outro passo importante são os testes genéticos. No Brasil, já se fazem oito testes para identificar cânceres hereditários. Um dos mais comuns é o câncer de mama. O resultado do teste pode levar a decisões radicais, como a retirada preventiva das mamas. Alguns casos de retirada preventiva foram registrados nas grandes clínicas de oncologia do país. "Só prescrevemos a cirurgia em casos de pacientes de extremo risco", afirma o oncologista Artur Katz, do Centro Paulista de Oncologia e do Hospital Albert Einstein. Um desses casos foi o de uma paciente de 34 anos sem nenhum sinal da doença, mas que herdou uma mutação genética da mãe. Com ela veio um risco de 75% de desenvolver a doença. "Com a retirada das mamas, esse risco caiu em 90%", explica Katz. A paciente agora pensa em remover os ovários para descartar a possibilidade de a mutação provocar tumores também nessa região do corpo. O câncer ainda não pode ser derrotado num combate franco, mas pela primeira vez em muitos anos as notícias vindas do front dos hospitais brasileiros constatam que o número de batalhas vencidas é maior que o de perdidas.

 

Qualidade de vida, pelo menos

Os médicos trabalham para aliviar o sofrimento físico dos pacientes vítimas de câncer em estágio avançado

 
Ricardo Benichio
Pesquisadora do Instituto Ludwig: o Brasil e a genética do câncer

Na luta para proporcionar uma qualidade de vida razoável a quem convive com o câncer, uma das mais poderosas armas é o tratamento da dor. Em casos de tumores avançados, o sofrimento é tão intenso que, por si só, pode elevar a pressão arterial e levar o paciente ao infarto. Por isso, especialistas no controle da dor, área considerada mais um ramo da medicina, são hoje peças fundamentais num centro de tratamento oncológico. Há cerca de duas décadas, os pacientes de câncer eram muito mais castigados pela aflição. Acreditava-se que sentir dor era uma decorrência normal da doença e de seu tratamento. Constatou-se depois que ela desregula tanto o metabolismo que interfere de forma negativa nos tratamentos. Atualmente, existem mais remédios de efeito analgésico à disposição no país: de comprimidos de morfina e cápsulas de liberação gradual a adesivos transdérmicos. Os médicos admitem que não há mais limite para o número de combinações possíveis. Mas sempre com a preocupação: sem entorpecer o paciente. Tão importante quanto as drogas é a compreensão de que a dor só pode ser aniquilada com esforços conjuntos de vários profissionais. No Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo, o Ambulatório da Dor agrega psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e até nutricionistas. "O sofrimento do paciente por causa da dor diminui ou aumenta conforme seu estado de espírito; tentamos combater o problema tratando também da disposição psíquica da pessoa", diz José Oswaldo de Oliveira Júnior, diretor do ambulatório.

 

Com reportagem de Angela Pimenta, de Nova York, e sucursais

 
Saiba mais
Da internet
  Rádio Veja
Dos arquivos da VEJA
  O câncer verga Covas

 

 


 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco