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| A
luta contra o mal: células de defesa do organismo (amarelas)
atacam célula cancerosa (vermelha) |
A
luta contra uma das doenças mais
temidas,
os tumores malignos, está
avançando com vitórias isoladas
Anna
Paula Buchalla, Cristina Poles e Daniel Hessel Teich
Veja
também |
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As
falsas esperanças contra o câncer seguem um mesmo
ritual publicitário. Cientistas de alguma universidade
de prestígio internacional ou pesquisadores de um grande
laboratório farmacêutico anunciam uma descoberta
do que pode vir a ser, em pouco tempo, a arma definitiva contra
a doença. Às notícias se seguem reações
eufóricas. Não é para menos. Afinal,
raras doenças produzem tanto horror quanto o câncer
o espectro das dores insuportáveis, das mutilações
e da morte. Tudo que um doente e seus familiares querem ouvir
é que ainda existe esperança. Pois bem, a má
notícia é que tão cedo não será
possível produzir uma bala mágica que liquide
todos os tipos de câncer. A boa notícia é
que as chances de vencer completamente diversos tipos de tumores
cancerígenos com as armas disponíveis nos hospitais
brasileiros nunca foram tão altas como agora. Praticamente
60% deles podem ser erradicados. Alguns tipos mais agressivos
de câncer, que antes matavam os pacientes em questão
de meses, já podem ser domados e suas vítimas
seguem pela vida carregando uma doença crônica
mas sem perdas significativas na qualidade de vida e na capacidade
de trabalhar. "Não se chegará logo a uma cura
definitiva e única. Mas a série de avanços
que a medicina tem oferecido vai permitir que a maioria dos
pacientes possa viver com o câncer da mesma maneira
que hoje os diabéticos e hipertensos convivem com sua
doença", diz o oncologista Fernando Maluf, brasileiro
que atualmente trabalha em Nova York na instituição
que é considerada a linha avançada de batalha
contra o câncer, o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center.
A grande revolução na luta contra o câncer
é espetacular, sim, mas discreta. Sua história
verdadeira raramente é contada. Ela ocorre com mudanças
no estilo de vida, com o diagnóstico precoce, com tratamentos
tradicionais cada dia mais eficazes e com cirurgias menos
invasivas e mutiladoras. São conquistas que, pouco
a pouco, transformam o câncer em patologia possível
de ser prevenida e mantida sob controle. Um número
crescente de casos já pode ser inteiramente curado.
Há trinta anos, a leucemia infantil equivalia a uma
condenação à morte. Hoje, nos melhores
hospitais brasileiros, 80% dos casos são curados. Os
linfomas, o câncer do sistema linfático que cresce
em silêncio e cujos sintomas podem ser confundidos com
dezenas de outras doenças benignas, hoje são
detectados com exatidão, e a porcentagem de cura no
Brasil chega a 80%. Em números absolutos, tem-se a
real dimensão de quantas vidas estão sendo salvas.
A cifra oficial de diagnósticos de câncer no
Brasil é de cerca de 300.000
novas vítimas por ano. Os especialistas, no entanto,
admitem que a subnotificação dos casos é
flagrante na rede nacional de saúde e que o número
real de pessoas que desenvolvem câncer é no mínimo
três vezes maior. Os médicos do Hospital do Câncer
A.C. Camargo, de São Paulo, centro de referência
na América Latina para o tratamento da doença,
sustentam que batem em 1 milhão os novos casos de câncer
por ano. Um milhão é também um número
mais afinado com as estimativas que a Organização
Mundial de Saúde faz para países com população
semelhante à do Brasil. Dificilmente se terá
a quantidade precisa. Da mesma forma, não se sabe com
exatidão quantos são hoje os brasileiros vivos
que padecem da doença. Mas talvez o que mais interesse
aos doentes seja que na contabilidade diária dos consultórios
e hospitais o número de tratamentos bem-sucedidos contra
o câncer tem se multiplicado.
Uma
das frentes principais de batalha, que permitiu o salto nas
taxas de sobrevida dos portadores de câncer no Brasil,
foi a luta pela detecção precoce da doença.
Graças às campanhas de conscientização
e aos avanços nos métodos de diagnóstico,
o índice de cura para casos em estágio inicial
no Hospital do Câncer A.C. Camargo pode chegar a 80%.
Esse índice cai violentamente não chega
a 20% quando o tumor é descoberto em fase avançada.
Um bom exemplo é o que aconteceu com as pacientes de
câncer de mama ao longo dos últimos dez anos.
O aprimoramento da mamografia, com máquinas de alta
definição, permite a detecção
de nódulos de meio milímetro, que passam despercebidos
ao exame manual. Soma-se aos novos aparelhos a medicina nuclear
substâncias radioativas são injetadas
na corrente sanguínea da paciente e "colorem" o tumor,
aumentando a precocidade do diagnóstico. O maquinário
não teria serventia alguma (por mais moderno que fosse)
se as mulheres não se dispusessem a fazer os testes.
Com os alertas da importância dos cuidados com as mamas,
veiculados pela mídia, é cada vez maior o contingente
de pacientes que se submetem aos exames anuais. Atualmente,
de cada dez mulheres que recebem o diagnóstico de câncer
de mama, sete estão na fase inicial da doença.
Há duas décadas, a situação era
cruelmente inversa: 70% dos diagnósticos chegavam tarde
demais, quando as possibilidades de cura estavam naturalmente
esgotadas ou quando a extirpação total da mama
era a única arma contra a doença.
No século XIX, acreditava-se que o câncer surgia
em decorrência de contusões em determinadas áreas
do corpo. É recente a descoberta de que as neoplasias,
o nome técnico do câncer, que significa "crescimento
doentio", são resultado de uma pane no processo de
multiplicação celular. As células do
corpo humano multiplicam-se todo o tempo. Muitas vezes, algumas
novas saem com defeito. No organismo sadio, essas células
defeituosas acabam sendo destruídas pelo sistema imunológico.
O câncer surge quando as células mutantes são
invulneráveis aos ataques do sistema imunológico.
Sem nada que as detenha, as células doentes multiplicam-se
e formam um tumor. Mais recente ainda é a constatação
de que a maioria dessas mutações acontece por
interferência de fatores externos. Essa constatação
é vital. Ela mostra que mesmo pessoas que nascem com
propensão genética a desenvolver câncer
em algum estágio da vida podem anulá-la adotando
providências que impeçam o gene de detonar a
doença.
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Lugar
para pessoas com câncer
Ricardo Benichio

Artur:
câncer de fígado, operação
e sessões de quimioterapia |
"Quando fiquei doente e minha mãe me levou
ao hospital pela primeira vez, vi escrito numa placa
que era um lugar para pessoas com câncer. Então,
perguntei a ela o que eu estava fazendo lá. Ainda
não sabia bem o que eu tinha. Já faz quase
um ano e meio que fui operado na barriga. Desde março
passado, quando encontraram outro carocinho no fígado,
estou fazendo quimioterapia. O que eu mais gosto lá
no hospital é de brincar com os outros colegas
no corredor e ir para a escolinha que tem no quinto
andar (tive de sair da escola por um tempo). Converso
bastante com minha médica e com minha mãe
sobre a doença. No começo, quando estava
lá no hospital e alguma enfermeira fazia alguma
coisa que doía, só falava pra minha mãe.
Hoje eu reclamo. Também tinha mais medo antes.
Agora ficou quase normal. Sempre que tem um colega chorando,
vou lá dar uma força pra ele. Quero terminar
logo o tratamento pra poder começar a natação
e aprender a andar de skate."
Artur
Ferreira de Souza, 11 anos,
de Santo André, em São Paulo
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Cigarro,
álcool, sol, sedentarismo, alimentação
inadequada e falta de higiene são co-fatores de pelo
menos 70% de todos os casos de câncer. O tabaco do cigarro,
os raios ultravioleta do sol e a ausência de vitaminas
e substâncias anti-oxidantes na comida são desvios
que podem ser corrigidos. Por isso, os médicos dizem
que sete de cada dez tumores malignos podem ser prevenidos
quando as pessoas descartam os hábitos danosos descritos
acima. No Brasil, há menos de dois anos, acreditava-se
que a única forma de combater o câncer de próstata,
o segundo mais freqüente entre os homens, era o diagnóstico
precoce. Agora, já se fala em prevenção.
A redução no consumo de carnes vermelhas, acreditam
os médicos, ajuda a reduzir os riscos de manifestação
da doença. Esse tipo de alimento, defendem, ativa indiretamente
a produção de testosterona, o hormônio
que acelera o aparecimento de câncer de próstata
em pacientes com predisposição à doença.
Em relação aos tumores de pulmão, sabe-se
que em 90% dos casos a neoplasia está relacionada ao
cigarro. Entre os que consomem dois maços por dia,
dobram os riscos de câncer de bexiga. A exemplo do que
acontece nos Estados Unidos, os grandes centros de tratamento
de câncer no Brasil já dispõem de grupos
de apoio ao tabagista. Com suporte psicológico e a
associação de medicamentos, como antidepressivos
e adesivos de nicotina, um em cada quatro fumantes abandona
o vício. Recém-identificados pelo Projeto Genoma,
até os cânceres hereditários 10%
de todas as neoplasias são sensíveis
a medidas de prevenção.
Com a disseminação de técnicas menos
invasivas, o número de cirurgias de diagnóstico
de câncer na tireóide caiu 70%. As operações
para a remoção dos tumores também se
tornaram menos agressivas. O cirurgião hoje tem técnicas
de abordagem para retirar o tumor sem dilacerar as estruturas
sadias em volta. Devido ao consumo excessivo de cigarro e
álcool, o Brasil é o recordista mundial de câncer
de laringe. Uma nova técnica começa a ser desenvolvida
por médicos brasileiros. Indicado a 90% dos doentes,
o procedimento padrão é a traqueostomia
uma incisão na garganta por onde vai passar o ar depois
da retirada da laringe e das cordas vocais. A grande reviravolta
no tratamento está acontecendo graças à
aplicação conjunta de químio e radioterapia.
Essa abordagem vem permitindo a preservação
da laringe de um terço dos pacientes.
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Plaquetas,
leucócitos...
Joel Rocha

Eliana:
leucemia e transplante |
"Quando recebi a notícia de que estava com
leucemia, em 1995, fiquei atordoada. Tinha acabado de
me formar. Havia duas opções: o transplante
ou o tratamento com remédios. Optei pela segunda.
Passei por sessões de químio e radioterapia
e tomava medicação pela via oral. Dois
anos depois, quando pensava estar bem, a doença
voltou. Fiz um exame em Miami capaz de apontar com precisão
o tipo do câncer que havia ressurgido em minha
garganta. Fiquei uma semana nos Estados Unidos aguardando
os resultados do exame. Ouvi o diagnóstico pelo
telefone. O médico nem sequer falou comigo pessoalmente.
Fui tratada como um número. Resolvi voltar ao
Brasil para fazer o transplante, minha única
chance de cura. Em maio de 1998, recebi a medula de
minha mãe. Durante 100 dias, não podia
ter contato com quase ninguém. Tive muito enjôo,
diarréias. Só pensava em plaquetas, leucócitos...
Hoje levo uma vida normal. Não tive seqüelas.
Faço exames uma vez por ano e estou liberada
para fazer tudo o que quiser."
Eliana Garcia Franklin, 27 anos, arquiteta,
de Curitiba
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O
executivo paulista Arnaldo Lacase Sobrinho, de 43 anos, é
um dos beneficiados das cirurgias menos agressivas. Diagnosticado
com um tumor na amígdala, ouviu que sua língua
precisaria ser extirpada. Em agosto passado, Arnaldo foi submetido
a uma operação em que os médicos conseguiram
arrancar o tumor de 7 centímetros, preservando-lhe
a língua. Ele sobreviveu com qualidade de vida
a grande meta da oncologia moderna.
No Serviço de Oncologia Pediátrica do Instituto
Materno Infantil de Pernambuco (Imip), o índice de
pacientes curados equivale ao do anotado no St. Jude Children's
Research Hospital, nos Estados Unidos, um dos principais centros
de referência e pesquisa de câncer infantil do
mundo. Liliane Gomes dos Santos, de 15 anos, conheceu o Imip
em 1993. Vítima de leucemia, hoje ela está curada.
Seu relato é comovente: "Aos 6 anos, larguei os
estudos porque não tinha mais forças para ir
a pé para a escola. Não conseguia mais ficar
em pé, até que minha mãe resolveu me
levar para o Recife para fazer exames. No dia seguinte, minha
mãe e a psicóloga do hospital me disseram que
eu estava com uma doença muito séria. Minha
mãe me abraçou duas vezes e disse que eu ficaria
boa. A psicóloga me explicou o que era leucemia. Lembro
da minha mãe dizendo que não poderia ficar comigo
porque tinha de cuidar dos meus irmãos. Ela foi embora
no dia seguinte. Durante oito anos morei no hospital, minha
mãe só veio me visitar uma vez. Fiquei parecendo
a Olívia Palito, só que careca. Tinha muito
medo quando o sol ia embora. Ficava tudo escuro e dava a impressão
de que eu ia morrer".
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Culpa
dos trinta cigarros por dia
"Descobri a doença em junho de 1994,
quando uma tosse constante começou a me incomodar.
A radiografia do tórax mostrou uma mancha
em meu pulmão. Na época, eu fumava
trinta cigarros por dia. Os exames constataram que
eu tinha um tumor do tamanho de uma laranja graúda.
Passei por uma cirurgia para retirada de parte do
pulmão. Depois da operação,
as dores eram tão grandes que em várias
ocasiões tive de ser sedado para aliviar
o sofrimento. Tudo parecia ir bem, até que
seis meses depois sofri uma queda repentina e fui
levado ao hospital. Foi quando veio a segunda notícia
aterrorizante. Havia aparecido um novo tumor, dessa
vez no cérebro. Fui operado novamente e enfrentei
sessões de radioterapia. Perdi o cabelo,
mas não senti nenhum tipo de dor. Passaram-se
mais de cinco anos e hoje, aliviado, posso dizer
que estou curado."
Darci
Rossetto, 57 anos, técnico
contábil, de Porto Alegre |
Liane Neves

Rossetto:
câncer de pulmão, cirurgia, tumor no
cérebro, nova operação e a
cura |
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Outra
notícia animadora no tratamento do câncer no
Brasil é a multiplicação dos centros
de excelência, antes concentrados em poucas capitais.
Atualmente, muitos hospitais brasileiros já se equiparam
com o que há de melhor no mundo. São 33 hospitais
dedicados exclusivamente aos cuidados com a doença
espalhados pelo país. Entre eles, dois são considerados
institutos de referência para ensino, pesquisa, prevenção,
diagnóstico e tratamento: Inca, no Rio de Janeiro,
e o A.C. Camargo, em São Paulo. O hospital paulista
tem protocolo para tratar 802 tipos de tumor. Referência
na América Latina, o Serviço de Transplante
de Medula Óssea do Hospital de Clínicas da Universidade
Federal do Paraná, em Curitiba, nos últimos
vinte anos realizou 1.200 transplantes
em pacientes brasileiros e estrangeiros. Hoje responde por
40% dos transplantes desse tipo feitos no país. É
o único na América Latina autorizado a realizar
a cirurgia com doadores não aparentados. Chefiada pelo
médico Ricardo Pasquini, pioneiro dos transplantes
de medula no Brasil, a equipe do hospital está envolvida
hoje na criação de um banco de sangue de cordão
umbilical. O objetivo é tentar reduzir a fila de pacientes
à espera de um doador de medula. A Santa Casa de Misericórdia
de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é outro centro
de excelência, especialmente no tratamento dos tumores
de pulmão. Os médicos gaúchos, ao combinar
o uso de químio com radioterapia para reduzir o tamanho
dos tumores de pulmão antes de extirpá-los,
estão conseguindo salvar um número de doentes
sete vezes maior que o que se salvava antes, com o tratamento
convencional.
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Saúde
recuperada e ginástica
Joel Rocha

Bernardes:
linfoma descoberto por causa de cansaço e
crises de tosse constantes |
"Sempre levei uma vida saudável, nunca fumei.
Em 1995, comecei a sentir um cansaço fora do
comum e a tossir. Descobri, então, que estava
com um tumor localizado entre o pulmão e o coração.
Para saber se era benigno ou maligno, teria de passar
por uma cirurgia. O resultado da biópsia acusou
linfoma de Hodgkin no mediastino. Dois dias depois,
estava embarcando para os Estados Unidos. Meu cunhado,
oncologista, estava em Harvard naquela época.
Fiz os dois primeiros meses de tratamento lá,
e o restante no Brasil. Ao todo, foram seis meses de
quimioterapia e mais dois de radioterapia. Perdi pêlos
e cabelos. Nos períodos mais críticos,
tinha de posicionar a cama num ângulo de 30°
por causa das dores e da falta de ar. Nos meses subseqüentes,
o tratamento foi menos intenso. Nesse período,
tive uma vida bastante normal. Não deixei de
trabalhar, apenas dosava os horários. No final
de 1996, já estava jogando futebol. Hoje faço
musculação três vezes por semana
e tenho uma ótima qualidade de vida. Em março,
farei meu último controle. Estou curado."
José Bernardes, 31 anos, designer
gráfico, do Rio de Janeiro
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Graças
ao progresso farmacológico, mesmo quando a doença
está em estágio avançado e requer tratamentos
mais pesados, o paciente consegue manter uma qualidade de
vida razoável. Ainda que alguns doentes sejam vítimas
de efeitos colaterais terríveis, nada se compara à
imagem do paciente do passado a prostração
na cama, a incapacidade para as atividades do dia-a-dia devido
ao mal-estar causado pelo tratamento. O governador de São
Paulo, Mário Covas, é um exemplo de como se
tornou possível a convivência com o câncer
mesmo em sua fase avançada. Licenciado do cargo, na
semana passada Covas dirigiu reuniões e viajou de helicóptero
até o litoral paulista para visitar obras e conversar
com moradores de uma favela da cidade de Santos.
O câncer é uma das doenças mais complexas
com as quais a medicina já deparou. "Percebemos que
os tumores são tão diversos entre si que, muitas
vezes, as semelhanças entre dois tumores de pulmão
se reduzem apenas ao fato de eles estarem no mesmo lugar",
diz o bioquímico Luiz Fernando Lima Reis, diretor de
pós-graduação do Hospital do Câncer
A.C. Camargo e pesquisador do Instituto Ludwig. "Mesmo casos
idênticos entre si evoluem de maneiras drasticamente
diferentes", explica ele. É para dominar essas sutilezas
da doença que milhares de cientistas do mundo inteiro
se dedicam a entender e a anular cada um desses mecanismos
numa infinita ramificação de tratamentos. Estão
em estudo atualmente 354 novas drogas aplicadas experimentalmente
em 23.000 pessoas em todo o mundo.
Moacyr Lopes Jr/Folha Imagem
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Covas em solenidade na segunda-feira 15 |
Em
São Paulo, cientistas do Instituto Ludwig estão
mapeando os genes de tumores mais comuns entre os brasileiros.
"O objetivo é conseguir maior precisão de diagnósticos
e tratamentos", explica o bioquímico Lima Reis. Outro
passo importante são os testes genéticos. No
Brasil, já se fazem oito testes para identificar cânceres
hereditários. Um dos mais comuns é o câncer
de mama. O resultado do teste pode levar a decisões
radicais, como a retirada preventiva das mamas. Alguns casos
de retirada preventiva foram registrados nas grandes clínicas
de oncologia do país. "Só prescrevemos a cirurgia
em casos de pacientes de extremo risco", afirma o oncologista
Artur Katz, do Centro Paulista de Oncologia e do Hospital
Albert Einstein. Um desses casos foi o de uma paciente de
34 anos sem nenhum sinal da doença, mas que herdou
uma mutação genética da mãe. Com
ela veio um risco de 75% de desenvolver a doença. "Com
a retirada das mamas, esse risco caiu em 90%", explica Katz.
A paciente agora pensa em remover os ovários para descartar
a possibilidade de a mutação provocar tumores
também nessa região do corpo. O câncer
ainda não pode ser derrotado num combate franco, mas
pela primeira vez em muitos anos as notícias vindas
do front dos hospitais brasileiros constatam que o número
de batalhas vencidas é maior que o de perdidas.
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Qualidade
de vida, pelo menos
Os
médicos trabalham para aliviar o sofrimento físico
dos pacientes vítimas de câncer em estágio
avançado
Ricardo Benichio
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Pesquisadora
do Instituto Ludwig: o Brasil e a genética
do câncer |
Na
luta para proporcionar uma qualidade de vida razoável
a quem convive com o câncer, uma das mais poderosas
armas é o tratamento da dor. Em casos de tumores
avançados, o sofrimento é tão intenso
que, por si só, pode elevar a pressão
arterial e levar o paciente ao infarto. Por isso, especialistas
no controle da dor, área considerada mais um
ramo da medicina, são hoje peças fundamentais
num centro de tratamento oncológico. Há
cerca de duas décadas, os pacientes de câncer
eram muito mais castigados pela aflição.
Acreditava-se que sentir dor era uma decorrência
normal da doença e de seu tratamento. Constatou-se
depois que ela desregula tanto o metabolismo que interfere
de forma negativa nos tratamentos. Atualmente, existem
mais remédios de efeito analgésico à
disposição no país: de comprimidos
de morfina e cápsulas de liberação
gradual a adesivos transdérmicos. Os médicos
admitem que não há mais limite para o
número de combinações possíveis.
Mas sempre com a preocupação: sem entorpecer
o paciente. Tão importante quanto as drogas é
a compreensão de que a dor só pode ser
aniquilada com esforços conjuntos de vários
profissionais. No Hospital do Câncer A.C. Camargo,
em São Paulo, o Ambulatório da Dor agrega
psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais
e até nutricionistas. "O sofrimento do paciente
por causa da dor diminui ou aumenta conforme seu estado
de espírito; tentamos combater o problema tratando
também da disposição psíquica
da pessoa", diz José Oswaldo de Oliveira Júnior,
diretor do ambulatório.
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Com
reportagem de
Angela Pimenta, de Nova York, e sucursais
Saiba
mais |
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