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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Os velhos autores e os novos tempos

O que as reviravoltas políticas,
segundo Raul Pompéia e Machado
de Assis, ensinam sobre o presente

"Até que, afinal, estamos vendo a hidra de perto!"

Assim Raul Pompéia, o autor do clássico O Ateneu, começou sua crônica do dia 24 de novembro de 1889 – a primeira que escreveu depois do golpe que, no dia 15, resultara na proclamação da República. E continuou: "Quem imaginaria que fosse assim tão mansa, de tão bons costumes a negra bicha de que tanta gente levava a vida a ter medo e suspeita?".

Pompéia era fervoroso republicano. Durante anos, irritou-se com aqueles que advertiam que a queda do Império seria o caos, o fim do mundo, até mesmo o comunismo, quem sabe. (Sim, naqueles tempos já se agitava o fantasma do comunismo.) Irritou-se até o fundo dos nervos contra aqueles que, em suas inspiradas palavras, se deixavam aprisionar "ao fetichismo cabeçudo do status quo". Eis que chegara a República – e nada de sangue derramado, de levantes das massas descontroladas, de guilhotina. A vida prosseguia, no dia 16, como tinha sido até o dia 14. "Verificou-se que foram devidamente acatados os representantes da velha ordem", escreve Pompéia, "verificou-se que os novos guias dos destinos nacionais não eram mais do que os continuadores da paz anterior; que se apresentavam virilmente pela manutenção de tudo que fosse condição da tranqüilidade pública e da segurança dos direitos sociais, inovando apenas ou prometendo inovar modificações políticas, que eram antes gerais reclamações do povo."

O que Pompéia extravasava, do fundo de seu republicanismo, era uma espécie de vingança. Viram só? Vocês tinham tanto medo – e nada. Nada daquelas previsões sombrias, nem das supostas mudanças radicais. Compreende-se que uma facção política com fama de radical, quando sente que é chegada sua hora, se apresente da forma mais aceitável possível para o grosso do público. Mas a crônica de Raul Pompéia trai um paradoxo. Se era assim, então para que proclamar a República? Para quê, se tudo ia continuar como sempre, na mesma porcaria de sempre? Como Pompéia, que queria tanto a mudança, pôde vangloriar-se de, finalmente raiada a República, nada ter mudado?

Eis uma questão que ressurge, cento e tantos anos depois. Afirmou-se durante toda a campanha que o PT não assusta mais, foi assimilado, domesticou-se. Mas, se era para votar num partido domesticado, assimilado, por que o eleitorado não preferiu o velho PFL? O eleitorado teria mesmo votado no PT em nome deste outro fetiche, tão poderoso como o do status quo – a "mudança"? Ou votou no PT porque chegou à conclusão de que o PT mudou – e mudou tanto, tanto, que não quer mudança?

   

No romance Esaú e Jacó, Machado de Assis conta o drama de Custódio, dono de uma confeitaria chamada Confeitaria do Império. Custódio acabara de encomendar uma nova tabuleta para pendurar à porta de seu estabelecimento, já que a anterior estava velha e ilegível, quando – azar dos azares – veio o 15 de novembro. Ele já pagara pela encomenda, uma tabuleta novinha em folha, com os dizeres "Confeitaria do Império", mas como chamar alguma coisa "do Império" nos tempos republicanos que se anunciavam? Não viriam destruir-lhe a loja? Sua primeira providência foi mandar um bilhete urgente ao fabricante de tabuletas: "Pare no 'D'". Queria tempo para pensar numa outra palavra, que substituísse a agora malsinada palavra "império". Foi aconselhar-se com seu amigo, o douto e sábio conselheiro Aires.

Aires começou pelo óbvio. Por que não "Confeitaria da República"? Custódio disse que já pensara nisso. Mas e se daqui a dois ou três meses houver nova reviravolta? Se o medo era esse, Aires tinha outra solução: "Confeitaria do Governo". Imperial ou republicano, sempre haverá um governo. Sim, ponderou Custódio, mas haverá também uma oposição. "As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta." Na verdade, revelou Custódio, seu bilhete não chegara a tempo. O homem não pôde parar no "D", porque já escrevera "do Império". De modo que, além de tudo, ainda teria de pagar uma placa nova. Aires matutou nessa nova realidade e teve um lampejo. Podia-se escrever, embaixo de "Confeitaria do Império", em letras menores, as palavras: "das leis". Sim, era uma boa idéia, concordou Custódio, mas tinha um inconveniente: em letras menores, o "das leis" poderia passar despercebido. Os dois consideraram ainda opções mais singelas – "Confeitaria do Catete", uma vez que o estabelecimento ficava nessa rua, ou "Confeitaria do Custódio", mas nenhuma lhes satisfez. Custódio saiu da casa do amigo com a convicção de que as reviravoltas políticas trazem não só angústia, mas também despesas.

Cento e tantos anos passados, a mudança pode não ser lá dessas coisas, se se repetir o raciocínio de Raul Pompéia. Mas mudanças de tabuletas, essas já começaram a se processar na campanha. Outras virão. Muitas estão no aguardo, paradas no "D".

   
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