
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Os
velhos autores e os novos tempos
O
que as reviravoltas políticas,
segundo Raul Pompéia e Machado
de Assis, ensinam sobre o presente
"Até
que, afinal, estamos vendo a hidra de perto!"
Assim Raul
Pompéia, o autor do clássico O Ateneu, começou
sua crônica do dia 24 de novembro de 1889 a primeira que
escreveu depois do golpe que, no dia 15, resultara na proclamação
da República. E continuou: "Quem imaginaria que fosse assim tão
mansa, de tão bons costumes a negra bicha de que tanta gente levava
a vida a ter medo e suspeita?".
Pompéia
era fervoroso republicano. Durante anos, irritou-se com aqueles que advertiam
que a queda do Império seria o caos, o fim do mundo, até
mesmo o comunismo, quem sabe. (Sim, naqueles tempos já se agitava
o fantasma do comunismo.) Irritou-se até o fundo dos nervos contra
aqueles que, em suas inspiradas palavras, se deixavam aprisionar "ao fetichismo
cabeçudo do status quo". Eis que chegara a República
e nada de sangue derramado, de levantes das massas descontroladas, de
guilhotina. A vida prosseguia, no dia 16, como tinha sido até o
dia 14. "Verificou-se que foram devidamente acatados os representantes
da velha ordem", escreve Pompéia, "verificou-se que os novos guias
dos destinos nacionais não eram mais do que os continuadores da
paz anterior; que se apresentavam virilmente pela manutenção
de tudo que fosse condição da tranqüilidade pública
e da segurança dos direitos sociais, inovando apenas ou prometendo
inovar modificações políticas, que eram antes gerais
reclamações do povo."
O que Pompéia
extravasava, do fundo de seu republicanismo, era uma espécie de
vingança. Viram só? Vocês tinham tanto medo
e nada. Nada daquelas previsões sombrias, nem das supostas mudanças
radicais. Compreende-se que uma facção política com
fama de radical, quando sente que é chegada sua hora, se apresente
da forma mais aceitável possível para o grosso do público.
Mas a crônica de Raul Pompéia trai um paradoxo. Se era assim,
então para que proclamar a República? Para quê, se
tudo ia continuar como sempre, na mesma porcaria de sempre? Como Pompéia,
que queria tanto a mudança, pôde vangloriar-se de, finalmente
raiada a República, nada ter mudado?
Eis uma
questão que ressurge, cento e tantos anos depois. Afirmou-se durante
toda a campanha que o PT não assusta mais, foi assimilado, domesticou-se.
Mas, se era para votar num partido domesticado, assimilado, por que o
eleitorado não preferiu o velho PFL? O eleitorado teria mesmo votado
no PT em nome deste outro fetiche, tão poderoso como o do status
quo a "mudança"? Ou votou no PT porque chegou à conclusão
de que o PT mudou e mudou tanto, tanto, que não quer mudança?
No romance
Esaú e Jacó, Machado de Assis conta o drama de Custódio,
dono de uma confeitaria chamada Confeitaria do Império. Custódio
acabara de encomendar uma nova tabuleta para pendurar à porta de
seu estabelecimento, já que a anterior estava velha e ilegível,
quando azar dos azares veio o 15 de novembro. Ele já
pagara pela encomenda, uma tabuleta novinha em folha, com os dizeres "Confeitaria
do Império", mas como chamar alguma coisa "do Império" nos
tempos republicanos que se anunciavam? Não viriam destruir-lhe
a loja? Sua primeira providência foi mandar um bilhete urgente ao
fabricante de tabuletas: "Pare no 'D'". Queria tempo para pensar numa
outra palavra, que substituísse a agora malsinada palavra "império".
Foi aconselhar-se com seu amigo, o douto e sábio conselheiro Aires.
Aires começou
pelo óbvio. Por que não "Confeitaria da República"?
Custódio disse que já pensara nisso. Mas e se daqui a dois
ou três meses houver nova reviravolta? Se o medo era esse, Aires
tinha outra solução: "Confeitaria do Governo". Imperial
ou republicano, sempre haverá um governo. Sim, ponderou Custódio,
mas haverá também uma oposição. "As oposições,
quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio,
e quebrarem-me a tabuleta." Na verdade, revelou Custódio, seu bilhete
não chegara a tempo. O homem não pôde parar no "D",
porque já escrevera "do Império". De modo que, além
de tudo, ainda teria de pagar uma placa nova. Aires matutou nessa nova
realidade e teve um lampejo. Podia-se escrever, embaixo de "Confeitaria
do Império", em letras menores, as palavras: "das leis". Sim, era
uma boa idéia, concordou Custódio, mas tinha um inconveniente:
em letras menores, o "das leis" poderia passar despercebido. Os dois consideraram
ainda opções mais singelas "Confeitaria do Catete",
uma vez que o estabelecimento ficava nessa rua, ou "Confeitaria do Custódio",
mas nenhuma lhes satisfez. Custódio saiu da casa do amigo com a
convicção de que as reviravoltas políticas trazem
não só angústia, mas também despesas.
Cento e
tantos anos passados, a mudança pode não ser lá dessas
coisas, se se repetir o raciocínio de Raul Pompéia. Mas
mudanças de tabuletas, essas já começaram a se processar
na campanha. Outras virão. Muitas estão no aguardo, paradas
no "D".
|
|
 |
|
 |

|
 |