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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
Eleições 2002

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Os vermelhos chegaram
ao poder

Por ironia, o PT ganha o governo
numa hora em que a esquerda vive
em plena crise de identidade

Alexandre Oltramari e Maurício Lima

 
Ari Lago
Mar de bandeiras vermelhas em comício do PT realizado no Rio: que esquerda é essa?


Veja também
Nesta edição
Lula muda a história
Vinte anos na oposição
A tática do PT para os primeiros dias
O que eles esperam de Lula
O sonho de ser JK é só isso. Um sonho
Um mundo arriscado e hostil
Ele fez o que pôde.
Mas não deu
O onda petista perdeu ímpeto
A companheira é fogo
Na internet
Cobertura completa no site Eleições 2002

Com sua biografia única de ex-operário que chega à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva não é apenas um ineditismo em termos de trajetória pessoal. Sua eleição é também um marco político. Pela primeira vez na história, um partido de esquerda chega ao poder com a missão de comandar os destinos do Brasil. A experiência mais parecida que o país já viveu, ainda que com pontos de contato bastante vagos, ocorreu durante o governo de João Goulart. Jango era visto por alguns como um homem de esquerda, mas, em essência, era um populista de carteirinha e expoente de um partido tutor dos pobres, características que nem os inimigos mais ácidos atribuem a Lula e ao Partido dos Trabalhadores. O curioso é que Jango, até ser derrubado pelo golpe militar de 1964, governou num período em que a esquerda tinha consistência ideológica e ainda conhecia seu rumo – afinal, a União Soviética vivia a glória de superar os Estados Unidos na corrida espacial, Fidel Castro triunfara em Cuba e, no auge das tensões da Guerra Fria, com o planeta dividido em dois blocos antagônicos, a utopia revolucionária ainda embalava muitos corações.

Agora, quatro décadas depois, o mundo passou por profundas transformações, Lula está eleito presidente da República e – supremo paradoxo – a esquerda que seu partido representa encontra-se no momento de maior desorientação desde que Karl Marx profetizou que "um espectro ronda a Europa", em seu célebre Manifesto Comunista, editado em 1848. Sim, o Partido dos Trabalhadores, fundado há 22 anos, é uma legenda de esquerda, embora nunca tenha sido marxista. Mas o que significa ser de esquerda nos dias de hoje? Nos últimos anos, especialmente depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e da dissolução da União Soviética dois anos depois, os manuais de esquerda suprimiram velhos dogmas, como estatizar fábricas, nacionalizar bancos ou desapropriar fazendas. A evolução do mundo simplesmente desatualizou suas bandeiras clássicas. Com a hegemonia liberal, perdeu-se a idéia do planejamento centralizado, da intervenção estatal na economia "em nome do povo".

 
AFP
Repressão a protesto contra a globalização, em Bolonha, na Itália: em busca de um caminho

Lutando para reconstruir uma base teórica e política, a esquerda vive entre interrogações: deve lutar contra a "economia de mercado", como fez ao longo de sua história, ou deve defender a "economia com mercado"? Ser de esquerda, hoje, significa combater os efeitos excludentes da globalização ou pregar a volta à plenitude das soberanias nacionais? Na Europa, movidas pela necessidade de se adaptar às circunstâncias da sociedade atual, e também pelo pragmatismo eleitoral, as agremiações de esquerda e centro-esquerda produziram mudanças notáveis em sua doutrina. Em 1995, o Partido Trabalhista da Inglaterra, principal legenda de esquerda do país, estava sufocado pelo contínuo domínio conservador e resolveu suprimir do programa a célebre cláusula IV, que, no pós-guerra, sob o governo do trabalhista Clement Attlee, serviu de inspiração para a estatização da economia britânica. Criada um ano depois da Revolução Russa de 1917, a cláusula IV, que previa o controle dos meios de produção pela classe operária, era tão reverenciada pelos trabalhistas ingleses que seu texto era impresso no verso da carteirinha de todos os militantes do partido.

Na Itália, a guinada foi ainda mais espetacular. O Partido Comunista Italiano, que chegou a ser o maior do Ocidente e exibia o orgulho de ser mentor de uma versão suavizada do comunismo, batizada de eurocomunismo, simplesmente se dissolveu, em 1991, dando origem a um partido mais centrista. Com essas mudanças de visão e interpretação do mundo, muitos partidos europeus de esquerda conseguiram chegar ao poder. O trabalhismo inglês, dois anos depois de abolir a cláusula IV, elegeu Tony Blair, atual primeiro-ministro. Com a vitória, Blair encerrou dezoito anos de hegemonia conservadora, mas só chegou lá prometendo preservar a herança deixada por Margaret Thatcher, a dama de ferro do liberalismo. Na Itália, depois de cinco anos com roupa nova, os ex-comunistas selaram uma insólita aliança com os democrata-cristãos e passaram a integrar o governo e a defender as privatizações. Ajudaram o país a sanear a economia, administrar a inflação e assimilar a moeda única européia, fazendo os ajustes fiscais necessários. Em 1998, o ex-comunista Massimo D'Alema chegou, ele próprio, ao cargo de primeiro-ministro. Em sua passagem pelo poder, D'Alema não pôs em prática nada que pudesse ser identificado como "programa de esquerda". Comportou-se como um liberal cauteloso.

Na última década, na Europa, foram vários os exemplos de partidos de esquerda e centro-esquerda que rasgaram os velhos panfletos, mudaram de rumo, de doutrina ou de nome – e conseguiram, mais adaptados à realidade, chegar ao poder. Em 1999, dos quinze países que compõem a União Européia, doze eram governados por legendas de esquerda ou de centro-esquerda. Aos poucos, porém, a esquerda foi perdendo espaço. Hoje, dos quinze países, sete são comandados por políticos à esquerda. Itália e Portugal, e até a França do socialista Lionel Jospin, são exemplos de países onde a esquerda renovada não conseguiu repetir o sucesso de eleições anteriores. Há várias explicações para isso, além das circunstâncias específicas de cada país, mas existe um dado geral. Com a adoção da moeda única, e um único banco central ditando a política monetária, esvaziou-se a discussão em torno do perfil econômico do novo governo. Assim, o eleitorado europeu, assustado com o alto desemprego, que atribui à onda de mão-de-obra desqualificada e barata proveniente de países mais pobres, tem preferido premiar o discurso da direita, que não se constrange em defender a mais escancarada xenofobia.

Com a nova aparência e o discurso remodelado apresentados nesta eleição, o PT parece estar seguindo a mesma linha de seus congêneres europeus. Durante a campanha, Lula fez questão de deixar claro que estava, na prática, adotando uma agenda conservadora quanto aos fundamentos da economia e ao saneamento fiscal do Estado. Comprometeu-se a respeitar contratos, manter o acordo com o Fundo Monetário Internacional, preservar as privatizações e aplicar um "ajuste fiscal brabo", para usar a expressão dos petistas, como forma de conter a crise que se avizinha. Diante disso, é possível que o PT faça uma gestão prudente, como Tony Blair ou Massimo D'Alema. O caso brasileiro, porém, tem diferenças gritantes. Na Europa, houve uma ascensão da esquerda depois da II Guerra, quando se consolidou em alguns países o estado de bem-estar social – o chamado welfare state, uma belíssima rede de proteção social, que se transformou num negócio imenso, pesado e caro. Depois, vieram os liberais, com a tarefa de manter a estrutura de apoio social, mas desbastá-la de seu oneroso gigantismo, como foi o caso da Inglaterra. Só mais tarde a esquerda, já renovada, voltou ao poder. No Brasil, nunca se criou nada parecido com um estado de bem-estar social – e isso parece estar no fundo da utopia petista.

Existe outra diferença significativa. O discurso petista, embora recauchutado, não veio acompanhado de uma revisão doutrinária clara, como ocorreu no trabalhismo inglês e no comunismo italiano, e mesmo entre as legendas socialistas da França e da Espanha. Até hoje, o PT mantém em seu programa a crença no "socialismo". Está cada vez mais claro que a menção ao socialismo não passa de alegoria ideológica, um enfeite esquerdista, mas vira terreno fértil para quem duvida da sinceridade do novo discurso petista. Em todo o mundo, as legendas de esquerda foram se reformulando de acordo com suas próprias circunstâncias. O Partido Socialista da França, que chegou ao poder no início dos anos 80, com François Mitterrand, começou rezando pelo antigo manual esquerdista e aplicou uma desastrosa nacionalização do sistema bancário do país. Mais tarde, voltou atrás. Não se tratou, nesse caso, de uma revisão feita em teoria – mas na prática. "O PS francês percebeu que não poderia governar com a sua doutrina", analisa o filósofo Denis Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que estudou na França na década de 80. A mais possante agremiação de esquerda da Alemanha, o Partido Social Democrata, fundado pelo próprio Karl Marx no fim do século XIX, percorreu uma trajetória inteiramente diferente da do PS francês, renovando-se ao longo do tempo. Primeiro, deixou de ser um partido proletário, abrindo-se para militantes de outras classes. Depois, suprimiu a defesa da revolução de seu ideário. Anos mais tarde, amenizou o discurso. Quatro anos atrás, arrancou uma vitória nas urnas, elegendo Gerhard Schroeder, que, para definir seu governo, não fala em esquerda nem em direita – fala em "novo centro". Será a esquerda o novo centro? A terceira via?

E por que a mudança do PT não reproduz o processo de seus assemelhados europeus, com luta interna, perda de lideranças expressivas e revisão doutrinária profunda? A principal razão está na própria origem do partido. O PT não nasceu como caudatário ideológico de nenhum outro movimento de esquerda. Nesse aspecto, é parecido com o Solidariedade, a organização polonesa que, nascida no meio do movimento sindical, derrubou o regime comunista de Wojciech Jaruzelski, aquele general que parecia usar óculos de cego, e levou ao poder Lech Walesa, aquele operário que carregava bigodes de Asterix. "O PT não tem origem no comunismo nem na social-democracia. É uma coisa nova, que surgiu sob forte influência sindical e católica", diz o sociólogo Emir Sader, ex-professor da Universidade de São Paulo e grande defensor da estrela vermelha. Com essa certidão de nascimento, o partido se dá o direito de não acertar contas com o passado errático de outras esquerdas. Mas não é só isso. A ausência de uma reformulação doutrinária nos moldes europeus deve-se justamente à ausência de uma doutrina clara. Desde sua fundação, o PT sempre pregou o socialismo. Mas qual socialismo? O socialismo utópico? O socialismo democrático? O socialismo científico? O partido, que tanto se entrega às calorosas e longas assembléias, jamais discutiu isso – e não será agora que irá fazê-lo.

Além desses aspectos, o PT não se reformula, não produz rachas nem revisa seus fundamentos por conveniência partidária de radicais e moderados. As correntes mais radicais, que não correspondem a mais que um terço da militância do partido, temem o isolamento caso renunciem à proteção das asas do PT. Foi o que aconteceu com os ex-petistas que hoje integram o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e o Partido da Causa Operária (PCO), duas legendas da esquerda radical que, somadas, ficaram patinando em 1% da preferência do eleitorado no primeiro turno do pleito presidencial. "Os que saíram do partido até agora são a maioria da minoria trotskista, e o que evita a saída dos outros radicais é o medo do isolamento", aponta Vamireh Chacon, diretor do departamento de ciência política da Universidade de Brasília e autor do livro História dos Partidos Brasileiros. "Com toda a razão, eles acham melhor falar para uma platéia que ficar falando sozinhos", completa. Por sua vez, a ala moderada do PT, majoritária e cada vez mais poderosa, também se interessa em hospedar os radicais que restam, pois eles formam o batalhão mais aguerrido da militância, a massa disposta a carregar a bandeira vermelha debaixo de sol ou de chuva.

Com seu mosaico interno, o PT teve a oportunidade de enfrentar uma campanha que pouco explorou a ambigüidade entre seu discurso eleitoral e seu discurso fundador. A disputa presidencial converteu-se numa batalha por votos, e não por opiniões. Concentrou-se na busca de aliados, e não de consciências, mesmo porque houve uma rara convergência ideológica entre todos os candidatos, e nenhum deles, nem Lula, tinha algo novo a oferecer. Numa campanha presidencial com tais características, o PT trabalhou com competência inédita. A temporada eleitoral foi aberta com duas certezas. A primeira é que Lula seria o candidato do PT, por mais que o partido discutisse nomes alternativos, como o do senador paulista Eduardo Suplicy. A segunda é que Lula perderia a eleição, não importando quem fosse o adversário. E perderia – essa era outra certeza – porque Lula tinha um piso eleitoral alto, em torno de 25% do eleitorado, mas seu teto era baixo demais, pouco acima dos 30%, porcentual insuficiente para chegar ao Palácio do Planalto.

As pitonisas estavam erradas, como mostra a vitória de Lula no segundo turno, mas o PT nunca acertara tanto numa campanha como agora. O partido se beneficiou do desgaste do governo depois de dois mandatos consecutivos, da falta de um candidato governista capaz de unir a tróica de partidos que compunha a base do governo e, também, da vontade de mudança do eleitorado. Nada disso, no entanto, consagraria Lula nas urnas não fosse o próprio trabalho do partido. Fez o que nunca fizera. Contratou um marqueteiro malufista, trouxe para vice um empresário milionário e fez aliança com um partido liberal. Na eleição anterior, aprendendo com as derrotas presidenciais consecutivas de Lula, o PT até que tentou aplicar algumas dessas novidades. Mas acabou tropeçando na resistência interna, promovida especialmente pelas fileiras revolucionárias da legenda. Desta vez, a cúpula conseguiu controlar as correntes talibãs, que, em outros tempos, prefeririam desistir do poder a conquistá-lo ao lado de Duda Mendonça, o marqueteiro, José Alencar, o vice milionário, e conservadores, como o ex-presidente e atual senador José Sarney.

Em consonância com sua nova postura política, o PT também teve competência para atrair uma parcela significativa do empresariado – ainda que o grosso tenha aderido ao petista quando suas chances de ganhar ainda no primeiro turno pareciam reais. O apoio de empresários, portanto, talvez não tenha rendido dividendos eleitorais ao PT, materializados em votos nas urnas, mas ajudou a neutralizar a imagem guerrilheira do partido e a dar mais credibilidade ao discurso conciliador. Cardeais do PT passaram a participar de debates em entidades empresariais. Formaram-se grupos de trabalho, e muitas propostas concebidas nesses encontros acabaram incluídas no programa de governo de Lula, o que deliciou parte do empresariado que se ressente de nunca ter sido ouvida pelo tucanato. Resultado: nos últimos meses de campanha, as adesões de empresários ao petista se multiplicaram, culminando com concorridos saraus com a presença de alguns pesos-pesados. "Conversando bastante, pudemos perceber que os anseios dos empresários estavam muito próximos dos do PT", lembra José Carlos de Almeida, coordenador do núcleo de empresários que defendem o partido.

Existe algo menos esquerda que empresários e petistas comungando com a mesma hóstia? No século passado, a esquerda disparou sua bala de prata com a Revolução Russa, em 1917, teve um momento de triunfo com o papel decisivo que o Exército soviético desempenhou na derrota da Alemanha nazista e se espalhou nas décadas seguintes, com variações de tipo e intensidade, pelo mundo afora – de Cuba à China, do Vietnã a Angola, da Coréia à Nicarágua, da Hungria ao Camboja. Colhendo fracassos sucessivos, porém, o vento esquerdista começou lentamente a minguar. Hoje, a esquerda clássica, o comunismo dos velhos tempos, transformou-se numa peça de antiquário, retratos em preto-e-branco. Existe na China, embora com tantas atenuantes que fica difícil definir, afinal, o tipo de regime instalado em Pequim. Em sua forma mais ortodoxa, existe em Cuba, onde Fidel Castro vive encastelado no poder há quatro décadas, e na Coréia do Norte – onde, aliás, o regime comunista acaba de concordar com a criação da primeira zona capitalista em seu território, com o objetivo de atrair investimentos privados do Japão e da China.

Com a ascensão e a queda no século passado, especialmente diante do fracasso acachapante da experiência soviética, o movimento mundial de esquerda aprendeu duas lições fundamentais. A primeira é que um regime de esquerda, seja qual for sua tonalidade, não pode prescindir de instrumentos democráticos. A segunda é que, necessariamente, esse regime terá de lidar com mecanismos do mercado. O problema da esquerda é que o respeito à democracia e a liberdade ao mercado fazem parte do programa do Partido Republicano dos Estados Unidos – e nada é menos esquerda que isso. Então, o que se poderia considerar como característica essencial da esquerda? É certo que a perspectiva da igualdade ainda é o centro da identidade de esquerda, aliada ao exercício pleno da cidadania. Não se sabe exatamente o que vem a ser "exercício pleno da cidadania", mas os teóricos pretendem que seja algo diferente da visão coletivista da esquerda tradicional e da ótica individualista do liberalismo. É óbvio, no entanto, que esses princípios não formam um conjunto possante de idéias, capaz de sustentar um novo impulso ao projeto de esquerda.

É curioso que o Brasil inaugure sua primeira experiência à esquerda num momento de indefinição quanto ao significado dessa ideologia. Um momento tão melancólico para a esquerda mundial que o antigo dirigente do PC italiano Giuseppe Chiarante, ao avaliar a passagem dos ex-comunistas pelo poder, saiu-se com um diagnóstico curto e grosso. "Vida infeliz", decretou ele. O caso brasileiro é ainda mais curioso quando se constata que o país voltou ao regime democrático, incluindo aí a legalização dos partidos comunistas, há menos de vinte anos. Ou seja: em menos de duas décadas, o Brasil fez uma transição fulminante da ditadura à esquerda. Foi governado por um ex-aliado do regime militar, depois por um voluntarista expulso do palácio por corrupção e substituído por um nacionalista à moda dos anos 50, seguido de um sociólogo que imprimiu uma política liberal – e, agora, o ex-operário de esquerda. É uma mudança tão veloz, e legítima, que a revista The Economist, a bíblia mundial do liberalismo, publicou uma reportagem de capa com Luís Inácio Lula da Silva numa edição recente e saudou sua então possível eleição como positiva para a democracia brasileira. Que assim seja.

 
 
   
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