Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
Entrevista: José Sarney

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Eleições 2002
A semana
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 
Acesso rápido
Páginas Amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

Prudência, diálogo e tolerância

Mistura ponderada de firmeza e
disposição para o diálogo com os políticos
e a sociedade é a recomendação
do ex-presidente ao sucessor de FHC

Alexandre Secco

 
Ana Araújo
"Em uma administração pública eficiente, o presidente dá uma ordem e ela acontece. No Brasil, o presidente precisa cobrar, precisa ligar e pedir. Eu diria que em 80% dos casos as ordens presidenciais não são cumpridas"

O senador José Sarney conhece como ninguém os desafios da Presidência da República. Não apenas porque ele exerceu o cargo durante cinco anos, mas também porque conviveu diretamente com sete presidentes antes de chegar ao poder. A lista começa com Juscelino Kubitschek, a quem fez oposição e de quem se tornou amigo, passa por Jânio Quadros, de quem foi líder no Congresso Nacional, e chega aos militares. Do ciclo dos generais, teve um relacionamento mais próximo com Castello Branco, Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Ao deixar o Palácio do Planalto, Sarney elegeu-se senador da República e foi um observador atento da atuação de Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. Agora, o ex-presidente se prepara para acompanhar mais um governo. Nesta entrevista, Sarney fala sobre os desafios do cargo mais poderoso do país, que ele resume como sendo "a capacidade de harmonizar vontades em torno de um objetivo comum".

Veja – Qual é a maior dificuldade para governar o Brasil?
Sarney – A grande dificuldade é que, no Brasil, a Presidência sempre tenta expelir aquele que não tem estrutura para exercer o cargo. Em países com uma máquina administrativa mais sólida, a vida de um presidente fraco é mais fácil. Aqui temos vários exemplos de governantes expelidos: Getúlio saiu pelo suicídio, Jango foi deposto, Collor sofreu impeachment e Jânio renunciou. Agüentar as tensões do cargo exige saúde. Affonso Penna morreu durante o governo, e dois presidentes, Costa e Silva e Figueiredo, tiveram problemas de saúde violentos. Eu mesmo tive problemas. Veja que, mesmo com toda a força que tinham, dois presidentes militares estouraram. Governar é sempre muito perigoso.

Veja – E o que o presidente deve fazer para não estourar?
Sarney – O presidente precisa legitimar-se. A primeira legitimação é formal, é conquistada nas urnas. A segunda é dada diariamente pela opinião pública. Hoje o presidente governa com a mídia em tempo real. Ele tem de brigar por sua legitimidade das 6 horas da manhã até a hora em que dorme. Quando assumi o cargo, a primeira coisa que tentei fazer foi buscar essa legitimação. Eu notei que só a alcançaria se conseguisse superar o problema econômico. Daí todo o nosso esforço com o Plano Cruzado.

Veja – O senhor está dizendo que o presidente tem de governar de olho nas pesquisas de opinião. Mas a opinião pública nem sempre acerta. Isso não pode ser perigoso?
Sarney – As pesquisas de opinião pública são a coisa que mais persegue um presidente da República. Não quero dizer se elas são um perigo, um bem ou um mal. Estou constatando uma realidade. A legitimidade do presidente depende da aprovação da opinião pública. Sem isso ele não consegue governar.

Veja – Existem características pessoais indispensáveis para exercer o cargo de presidente da República?
Sarney – A Presidência impõe a capacidade de ouvir, impõe a prudência e a tolerância. O presidente tem de ter gosto pelo diálogo. Esse é o espírito brasileiro. Toda a nossa história é marcada pela busca de soluções para evitar a confrontação. Dom João veio para o Brasil para não enfrentar Napoleão. Quando Pedro I se confrontou com o sentimento nacional, abdicou e foi embora. A República também foi feita com esse sentimento. Quem fez a República? Deodoro, que era monarquista.

Veja – Além de sua própria experiência no cargo, o senhor conviveu diretamente com vários presidentes. O senhor diria que a faixa presidencial é capaz de mudar o temperamento do político?
Sarney – Muda, daí eu dizer que o presidente tem de ter boa estrutura. A Presidência tem muitos demônios. Há uma tendência de onipotência. A faixa produz a impressão de que, como presidente, se pode fazer tudo. Quem governa tende a acreditar que aquilo não vai se acabar nunca. Minha formação intelectual e religiosa me permitiu perceber que o poder é efêmero. Fui vacinado contra os demônios da onipotência, da prepotência, da vaidade e do orgulho.

Veja – No governo há espaço para o presidente fazer valer suas vontades?
Sarney – Há, mas o risco é impeditivo. O poder pessoal está cada vez menor. Hoje, cada vez mais, cabe ao presidente liderar uma equipe e procurar o consenso. No caso da Presidência, a capacidade de liderar tem a ver com a capacidade de harmonizar vontades em torno de um objetivo comum. O presidente deve ser um harmonizador de conflitos, esse é seu papel.

Veja – Quando candidatos, todos prometem fazer grandes transformações no país. Um presidente é capaz disso?
Sarney – Dependendo das circunstâncias, sim. Mas eu me lembro de uma frase que diz: "Ninguém governa o tempo que governa". Traduzindo: o mandato presidencial dura quatro anos, mas isso não significa que o presidente tenha à sua disposição 48 meses para governar. E por quê? É que, no Brasil, os problemas são tão grandes que a função do presidente tem sido administrar crises, e não desenvolver um projeto nacional. Até agora não tem sobrado muito tempo para grandes projetos, grandes transformações. A condição necessária para que o presidente possa começar a fazer mudanças mais profundas é resolver o problema econômico.

Veja – O novo presidente contará com uma boa máquina para governar?
Sarney – Não, o Estado brasileiro está ultrapassado. Países como a França e a Itália sobrevivem a crises com maior facilidade porque têm uma administração pública que faz o Estado funcionar independentemente das lutas políticas. No Brasil, as decisões do presidente não acontecem.

Veja – O senhor quer dizer que o presidente tem dificuldades para fazer cumprir suas decisões?
Sarney – O Brasil está numa fase em que a administração pública é artesanal e a arte de governar é primária. O instrumento administrativo mais moderno à disposição do presidente ainda é o telefone. Em uma administração pública eficiente, o presidente dá uma ordem e ela acontece, começa a produzir efeitos imediatamente. No Brasil, não é assim. O presidente precisa cobrar, precisa ligar e pedir: "Olhe, fa&ccedinuma fase em que a administração pública é artesanal e a arte de governar é primária. O instrumento administrativo mais moderno à disposição do presidente ainda é o telefone. Em uma administração pública eficiente, o presidente dá uma ordem e ela acontece, começa a produzir efeitos imediatamente. No Brasil, não é assim. O presidente precisa cobrar, precisa ligar e pedir: "Olhe, faça aquilo que eu mandei". Eu diria que em 80% dos casos as ordens presidenciais não são cumpridas, elas se perdem. Não é culpa do presidente, até porque ele não deveria ser um administrador, deveria ser um formulador de políticas. Mas aqui, por causa de nosso subdesenvolvimento político, ele é solicitado a opinar sobre tudo, até sobre o melhor lugar para prender o traficante Fernandinho Beira-Mar.

Veja – Mas parece normal que o presidente se manifeste nas crises. Em sua opinião, um presidente deveria falar menos?
Sarney – Foi o governo Clinton que produziu o estilo de que o presidente deve estar presente em todos os fatos, deve discutir tudo com a opinião pública. Esse estilo é compreensível, porque hoje a imagem parece mais importante que as palavras. Eu prefiro o estilo do ex-presidente François Mitterrand. Ninguém mais do que ele soube administrar o silêncio. Acredito que o presidente não deve falar no vazio, não pode vulgarizar a palavra presidencial. A Presidência tem de ter uma certa sacralidade. Estou observando uma vulgarização no uso da palavra presidencial.

Veja – Existem decisões presidenciais necessariamente solitárias ou todas devem ser compartilhadas?
Sarney – O poder do presidente depende de como ele imagina o poder. Quando o governante imagina o poder como um trabalho de harmonizar conflitos e de juntar vontades, então ele tem força. Se imagina o poder como uma coisa absoluta, da sua vontade, ele enfrenta problemas. Eu ouço muito dizerem que o poder é solitário. O poder não é solitário. Solitária é a decisão que o presidente tem de tomar em alguns momentos, porque a responsabilidade é uma coisa solitária. Quando se fala na solidão do poder, acho que se está falando da solidão da responsabilidade. A decisão do presidente que pode ter importância no destino de milhões de pessoas.

Veja – O presidente tem vida pessoal, pode tirar férias?
Sarney – Quando o presidente recebe a faixa, seu universo pessoal acaba. Ele vai viver em um outro universo. O presidente altera o ambiente em qualquer lugar aonde chegue. A visão das pessoas sobre ele passa a ser diferente, e ele também começa a ver as pessoas de forma diferente.

Veja – E sobre descanso?
Sarney – Ele deveria ter férias. Mas não é possível. Em um país como os Estados Unidos, tudo continua funcionando enquanto o presidente está jogando golfe. No Brasil, onde tudo é artesanal, onde tudo depende do presidente, ele precisa estar presente o tempo todo. Eu nunca tirei férias.

Veja – Parece que a Presidência é só um martírio. O exercício do poder deve ser fascinante, deve ser muito compensador...
Sarney – Eu confesso que nunca tive grande satisfação. Minha relação com o poder nunca foi de absoluta alegria. Quem quer ter alegria no poder tem de ter o gosto de mandar, e eu nunca tive. Prefiro fazer recomendações. Em meus memorandos, eu sempre dizia "recomendo", nunca falava "mando", "determino".

Veja – E as compensações do cargo?
Sarney – É compensador a pessoa sentir que está sendo útil a seu país e que ocupa o lugar mais alto na política. Um cargo que, ao longo dos séculos, poucos ocuparam. O presidente vai entrar para a história. Mas isso tem um preço. É preciso que ele tenha noção de que sua responsabilidade perante a história é intransferível. O fracasso pertencerá somente a ele, é indivisível. O sucesso pertencerá a todos. Ele está lá para carregar a cruz. Não pode ficar reclamando das dificuldades, dos ataques e das injustiças.

Veja – E Brasília não isola o presidente? Ele corre o risco de perder o pulso, cometer erros?
Sarney – O isolamento é um risco que a Presidência tem. E não existe manual de instrução para ocupar o cargo. O presidente deve ir sentindo as nuvens, e é aí que o gênio político tem seu lugar. É preciso saber definir quais são as prioridades. Por exemplo, minha prioridade era não ser deposto. Todas as minhas ações foram orientadas por esse feeling político. Eu tinha de me legitimar para garantir a transição democrática. Havia o risco de um retrocesso muito grande. É aí que o presidente é importante: definir o objetivo, verificar as circunstâncias e conjugar as energias nessa direção.

Veja – No governo, é fácil separar os problemas verdadeiros dos boatos?
Sarney – O que pesa é o temperamento do presidente. Se ele gosta de ouvir um fuxico, se gosta de bajuladores, vai ter toneladas. Se não gosta, não vai receber nada disso. Mas também é preciso estar cercado de uma boa equipe. A tendência de todos é levar más notícias para o presidente. Ninguém aparece para dizer que está tudo tranqüilo, essa informação não tem valor. No governo, a má notícia valoriza o sujeito que a tem, ele aparece como aquele amigo que dá o aviso.

Veja – O presidente é alvo constante de críticas, algumas de natureza pessoal. Não deve ser fácil lidar com elas. O senhor guarda mágoas?
Sarney – Não guardo nenhum tipo de mágoa. Quando eu era alvo de críticas injustas, meu segredo era me ver como uma terceira pessoa. Existem várias formas de lidar com isso e de se relacionar com a mídia. Alguns presidentes querem controlá-la, pelo afago ou pela violência. O Fernando Henrique adora telefonar para os diretores de redação.

Veja – Sob sua ótica, que lição seu governo deixou para a sociedade brasileira?
Sarney – Primeiro, a de uma exitosa transição democrática. Depois, o exemplo da tolerância, da paciência e da noção de tempo. Mostrei que isso é o que funciona em momentos de crise.

Veja – E, sob o ponto de vista da sociedade, como o senhor acha que seu governo é lembrado?
Sarney – As pessoas se lembram de um tempo em que elas não tinham surpresas. Alguns podiam achar que o Brasil não estava sendo cuidado da melhor forma, mas as pessoas tinham segurança de que o país estava sendo cuidado. Ando pelas ruas e vejo as pessoas dizerem: "O Sarney é um homem bom, que saudade dos tempos do Sarney".

Veja – Pensando em seus erros, que alerta o senhor faria ao futuro presidente da República?
Sarney – Existe a idéia de que palavra de presidente não volta atrás. Hoje eu acredito que é muito melhor rever uma decisão errada do que mantê-la. Um pedido de desculpa não abala a autoridade presidencial. Se for um pedido sincero, a sociedade recebe bem; se for demagógico, ela condena.

Veja – O Congresso está perdendo a importância?
Sarney – A opinião pública vem assumindo um lugar que era do Congresso. Devido ao sistema de voto proporcional, o Congresso se tornou corporativo, distante da realidade nacional. Não é que ele não represente, não tenha importância. Ao longo de nossa história, o Congresso deu várias demonstrações de sua importância. Acontece que o tipo de estrutura política que gera o Congresso não leva à representatividade. Não existem partidos no Brasil. O que é o PT? O PT é o Lula. Não digo que não exista o PT, mas o que seria do partido sem o Lula? Pela falta de partidos, estamos vivendo uma anarquia institucional. O Vicentinho, da CUT, tem mais representatividade do que dez deputados. O presidente da Fiesp também.

Veja – O que muda no Brasil a partir de janeiro de 2003?
Sarney – Espero do novo presidente que faça o pacto social que servirá de base para reformas mais profundas. Sobre as transformações que esse pacto pode produzir, é difícil prevê-las.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS