
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|

Acesso rápido |
|
|
|
Prudência,
diálogo e tolerância
Mistura ponderada de firmeza e
disposição para o diálogo com os políticos
e a sociedade é a recomendação
do ex-presidente ao sucessor de FHC
Alexandre
Secco
Ana Araújo
 |
| "Em
uma
administração
pública eficiente,
o presidente
dá uma ordem
e ela acontece.
No Brasil,
o presidente precisa
cobrar, precisa
ligar e pedir.
Eu diria que
em 80% dos casos as ordens
presidenciais
não são cumpridas" |
O senador
José Sarney conhece como ninguém os desafios da Presidência
da República. Não apenas porque ele exerceu o cargo durante
cinco anos, mas também porque conviveu diretamente com sete presidentes
antes de chegar ao poder. A lista começa com Juscelino Kubitschek,
a quem fez oposição e de quem se tornou amigo, passa por
Jânio Quadros, de quem foi líder no Congresso Nacional, e
chega aos militares. Do ciclo dos generais, teve um relacionamento mais
próximo com Castello Branco, Ernesto Geisel e João Figueiredo.
Ao deixar
o Palácio do Planalto, Sarney elegeu-se senador da República
e foi um observador atento da atuação de Fernando Collor,
Itamar Franco e Fernando Henrique. Agora, o ex-presidente se prepara para
acompanhar mais um governo. Nesta entrevista, Sarney fala sobre os desafios
do cargo mais poderoso do país, que ele resume como sendo "a capacidade
de harmonizar vontades em torno de um objetivo comum".
Veja
Qual é a maior dificuldade para governar o Brasil?
Sarney
A grande dificuldade é que, no Brasil, a Presidência sempre
tenta expelir aquele que não tem estrutura para exercer o cargo.
Em países com uma máquina administrativa mais sólida,
a vida de um presidente fraco é mais fácil. Aqui temos vários
exemplos de governantes expelidos: Getúlio saiu pelo suicídio,
Jango foi deposto, Collor sofreu impeachment e Jânio renunciou. Agüentar
as tensões do cargo exige saúde. Affonso Penna morreu durante
o governo, e dois presidentes, Costa e Silva e Figueiredo, tiveram problemas
de saúde violentos. Eu mesmo tive problemas. Veja que, mesmo com
toda a força que tinham, dois presidentes militares estouraram. Governar
é sempre muito perigoso.
Veja
E o que o presidente deve fazer para não estourar?
Sarney
O presidente precisa legitimar-se. A primeira legitimação
é formal, é conquistada nas urnas. A segunda é dada
diariamente pela opinião pública. Hoje o presidente governa
com a mídia em tempo real. Ele tem de brigar por sua legitimidade
das 6 horas da manhã até a hora em que dorme. Quando assumi
o cargo, a primeira coisa que tentei fazer foi buscar essa legitimação.
Eu notei que só a alcançaria se conseguisse superar o problema
econômico. Daí todo o nosso esforço com o Plano Cruzado.
Veja
O senhor está dizendo que o presidente tem de governar de olho
nas pesquisas de opinião. Mas a opinião pública nem
sempre acerta. Isso não pode ser perigoso?
Sarney As
pesquisas de opinião pública são a coisa que mais persegue
um presidente da República. Não quero dizer se elas são
um perigo, um bem ou um mal. Estou constatando uma realidade. A legitimidade
do presidente depende da aprovação da opinião pública.
Sem isso ele não consegue governar.
Veja
Existem características pessoais indispensáveis para
exercer o cargo de presidente da República?
Sarney
A Presidência impõe a capacidade de ouvir, impõe a
prudência e a tolerância. O presidente tem de ter gosto pelo
diálogo. Esse é o espírito brasileiro. Toda a nossa
história é marcada pela busca de soluções
para evitar a confrontação. Dom João veio para o
Brasil para não enfrentar Napoleão. Quando Pedro I se confrontou
com o sentimento nacional, abdicou e foi embora. A República também
foi feita com esse sentimento. Quem fez a República? Deodoro, que
era monarquista.
Veja
Além de sua própria experiência no cargo, o senhor
conviveu diretamente com vários presidentes. O senhor diria que
a faixa presidencial é capaz de mudar o temperamento do político?
Sarney Muda,
daí eu dizer que o presidente tem de ter boa estrutura. A Presidência
tem muitos demônios. Há uma tendência de onipotência.
A faixa produz a impressão de que, como presidente, se pode fazer
tudo. Quem governa tende a acreditar que aquilo não vai se acabar
nunca. Minha formação intelectual e religiosa me permitiu
perceber que o poder é efêmero. Fui vacinado contra os demônios
da onipotência, da prepotência, da vaidade e do orgulho.
Veja
No governo há espaço para o presidente fazer valer
suas vontades?
Sarney
Há, mas o risco é impeditivo. O poder pessoal está
cada vez menor. Hoje, cada vez mais, cabe ao presidente liderar uma equipe
e procurar o consenso. No caso da Presidência, a capacidade de liderar
tem a ver com a capacidade de harmonizar vontades em torno de um objetivo
comum. O presidente deve ser um harmonizador de conflitos, esse é
seu papel.
Veja
Quando candidatos, todos prometem fazer grandes transformações
no país. Um presidente é capaz disso?
Sarney
Dependendo das circunstâncias, sim. Mas eu me lembro de uma frase
que diz: "Ninguém governa o tempo que governa". Traduzindo: o mandato
presidencial dura quatro anos, mas isso não significa que o presidente
tenha à sua disposição 48 meses para governar. E por
quê? É que, no Brasil, os problemas são tão grandes
que a função do presidente tem sido administrar crises, e
não desenvolver um projeto nacional. Até agora não
tem sobrado muito tempo para grandes projetos, grandes transformações.
A condição necessária para que o presidente possa começar
a fazer mudanças mais profundas é resolver o problema econômico.
Veja
O novo presidente contará com uma boa máquina para governar?
Sarney Não,
o Estado brasileiro está ultrapassado. Países como a França
e a Itália sobrevivem a crises com maior facilidade porque têm
uma administração pública que faz o Estado funcionar
independentemente das lutas políticas. No Brasil, as decisões
do presidente não acontecem.
Veja
O senhor quer dizer que o presidente tem dificuldades para fazer cumprir
suas decisões?
Sarney
O Brasil está numa fase em que a administração pública
é artesanal e a arte de governar é primária. O instrumento
administrativo mais moderno à disposição do presidente
ainda é o telefone. Em uma administração pública
eficiente, o presidente dá uma ordem e ela acontece, começa
a produzir efeitos imediatamente. No Brasil, não é assim.
O presidente precisa cobrar, precisa ligar e pedir: "Olhe, fa&ccedinuma fase em que a administração pública
é artesanal e a arte de governar é primária. O instrumento
administrativo mais moderno à disposição do presidente
ainda é o telefone. Em uma administração pública
eficiente, o presidente dá uma ordem e ela acontece, começa
a produzir efeitos imediatamente. No Brasil, não é assim.
O presidente precisa cobrar, precisa ligar e pedir: "Olhe, faça
aquilo que eu mandei". Eu diria que em 80% dos casos as ordens presidenciais
não são cumpridas, elas se perdem. Não é culpa
do presidente, até porque ele não deveria ser um administrador,
deveria ser um formulador de políticas. Mas aqui, por causa de
nosso subdesenvolvimento político, ele é solicitado a opinar
sobre tudo, até sobre o melhor lugar para prender o traficante
Fernandinho Beira-Mar.
Veja
Mas parece normal que o presidente se manifeste nas crises. Em sua
opinião, um presidente deveria falar menos?
Sarney
Foi o governo Clinton que produziu o estilo de que o presidente deve estar
presente em todos os fatos, deve discutir tudo com a opinião pública.
Esse estilo é compreensível, porque hoje a imagem parece
mais importante que as palavras. Eu prefiro o estilo do ex-presidente
François Mitterrand. Ninguém mais do que ele soube administrar
o silêncio. Acredito que o presidente não deve falar no vazio,
não pode vulgarizar a palavra presidencial. A Presidência
tem de ter uma certa sacralidade. Estou observando uma vulgarização
no uso da palavra presidencial.
Veja
Existem decisões presidenciais necessariamente solitárias
ou todas devem ser compartilhadas?
Sarney
O poder do presidente depende de como ele imagina o poder. Quando o governante
imagina o poder como um trabalho de harmonizar conflitos e de juntar vontades,
então ele tem força. Se imagina o poder como uma coisa absoluta,
da sua vontade, ele enfrenta problemas. Eu ouço muito dizerem que
o poder é solitário. O poder não é solitário.
Solitária é a decisão que o presidente tem de tomar
em alguns momentos, porque a responsabilidade é uma coisa solitária.
Quando se fala na solidão do poder, acho que se está falando
da solidão da responsabilidade. A decisão do presidente
que pode ter importância no destino de milhões de pessoas.
Veja
O presidente tem vida pessoal, pode tirar férias?
Sarney
Quando o presidente recebe a faixa, seu universo pessoal acaba. Ele vai
viver em um outro universo. O presidente altera o ambiente em qualquer
lugar aonde chegue. A visão das pessoas sobre ele passa a ser diferente,
e ele também começa a ver as pessoas de forma diferente.
Veja
E sobre descanso?
Sarney
Ele deveria ter férias. Mas não é possível.
Em um país como os Estados Unidos, tudo continua funcionando enquanto
o presidente está jogando golfe. No Brasil, onde tudo é
artesanal, onde tudo depende do presidente, ele precisa estar presente
o tempo todo. Eu nunca tirei férias.
Veja
Parece que a Presidência é só um martírio.
O exercício do poder deve ser fascinante, deve ser muito compensador...
Sarney
Eu confesso que nunca tive grande satisfação. Minha relação
com o poder nunca foi de absoluta alegria. Quem quer ter alegria no poder
tem de ter o gosto de mandar, e eu nunca tive. Prefiro fazer recomendações.
Em meus memorandos, eu sempre dizia "recomendo", nunca falava "mando", "determino".
Veja
E as compensações do cargo?
Sarney
É compensador a pessoa sentir que está sendo útil
a seu país e que ocupa o lugar mais alto na política. Um
cargo que, ao longo dos séculos, poucos ocuparam. O presidente
vai entrar para a história. Mas isso tem um preço. É
preciso que ele tenha noção de que sua responsabilidade
perante a história é intransferível. O fracasso pertencerá
somente a ele, é indivisível. O sucesso pertencerá
a todos. Ele está lá para carregar a cruz. Não pode
ficar reclamando das dificuldades, dos ataques e das injustiças.
Veja
E Brasília não isola o presidente? Ele corre o risco
de perder o pulso, cometer erros?
Sarney
O isolamento é um risco que a Presidência tem. E não
existe manual de instrução para ocupar o cargo. O presidente
deve ir sentindo as nuvens, e é aí que o gênio político
tem seu lugar. É preciso saber definir quais são as prioridades.
Por exemplo, minha prioridade era não ser deposto. Todas as minhas
ações foram orientadas por esse feeling político.
Eu tinha de me legitimar para garantir a transição democrática.
Havia o risco de um retrocesso muito grande. É aí que o
presidente é importante: definir o objetivo, verificar as circunstâncias
e conjugar as energias nessa direção.
Veja
No governo, é fácil separar os problemas verdadeiros
dos boatos?
Sarney
O que pesa é o temperamento do presidente. Se ele gosta de ouvir
um fuxico, se gosta de bajuladores, vai ter toneladas. Se não gosta,
não vai receber nada disso. Mas também é preciso
estar cercado de uma boa equipe. A tendência de todos é levar
más notícias para o presidente. Ninguém aparece para
dizer que está tudo tranqüilo, essa informação
não tem valor. No governo, a má notícia valoriza
o sujeito que a tem, ele aparece como aquele amigo que dá o aviso.
Veja
O presidente é alvo constante de críticas, algumas de
natureza pessoal. Não deve ser fácil lidar com elas. O senhor
guarda mágoas?
Sarney Não
guardo nenhum tipo de mágoa. Quando eu era alvo de críticas
injustas, meu segredo era me ver como uma terceira pessoa. Existem várias
formas de lidar com isso e de se relacionar com a mídia. Alguns
presidentes querem controlá-la, pelo afago ou pela violência.
O Fernando Henrique adora telefonar para os diretores de redação.
Veja
Sob sua ótica, que lição seu governo deixou
para a sociedade brasileira?
Sarney
Primeiro, a de uma exitosa transição democrática.
Depois, o exemplo da tolerância, da paciência e da noção
de tempo. Mostrei que isso é o que funciona em momentos de crise.
Veja
E, sob o ponto de vista da sociedade, como o senhor acha que seu governo
é lembrado?
Sarney
As pessoas se lembram de um tempo em que elas não tinham surpresas.
Alguns podiam achar que o Brasil não estava sendo cuidado da melhor
forma, mas as pessoas tinham segurança de que o país estava
sendo cuidado. Ando pelas ruas e vejo as pessoas dizerem: "O Sarney é
um homem bom, que saudade dos tempos do Sarney".
Veja
Pensando em seus erros, que alerta o senhor faria ao futuro presidente
da República?
Sarney
Existe a idéia de que palavra de presidente não volta atrás.
Hoje eu acredito que é muito melhor rever uma decisão errada
do que mantê-la. Um pedido de desculpa não abala a autoridade
presidencial. Se for um pedido sincero, a sociedade recebe bem; se for
demagógico, ela condena.
Veja
O Congresso está perdendo a importância?
Sarney
A opinião pública vem assumindo um lugar que era do Congresso.
Devido ao sistema de voto proporcional, o Congresso se tornou corporativo,
distante da realidade nacional. Não é que ele não
represente, não tenha importância. Ao longo de nossa história,
o Congresso deu várias demonstrações de sua importância.
Acontece que o tipo de estrutura política que gera o Congresso
não leva à representatividade. Não existem partidos
no Brasil. O que é o PT? O PT é o Lula. Não digo
que não exista o PT, mas o que seria do partido sem o Lula? Pela
falta de partidos, estamos vivendo uma anarquia institucional. O Vicentinho,
da CUT, tem mais representatividade do que dez deputados. O presidente
da Fiesp também.
Veja
O que muda no Brasil a partir de janeiro de 2003?
Sarney Espero
do novo presidente que faça o pacto social que servirá de
base para reformas mais profundas. Sobre as transformações
que esse pacto pode produzir, é difícil prevê-las.
|
|
 |