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Edição 1 775 - 30 de outubro de 2002
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Sérgio Abranches

Senhor presidente

"É imprescindível manter sempre
um superávit de confiança, este
mais básico e essencial que qualquer
indispensável superávit primário"

 
Ale Setti

Quando se termina uma campanha, fica-se com o sentimento de ter sido muito incompreendido por aqueles que o criticaram e menosprezaram sua capacidade para governar o país. Não se apoquente. É da natureza humana desconfiar, sobretudo daqueles que exercem essa nobre atividade cívica, a política, tão freqüentemente exercida sem nobreza alguma. Gente sábia, dedicada à causa do povo, tem sido incompreendida pelos séculos afora, sem ter sua virtude reconhecida por todos, mesmo com grande distância histórica. É o caso de Niccolò Machiavelli, considerado pela grande maioria – sobretudo dos que nunca o leram com a necessária atenção – um conselheiro do mal, que teria dedicado a vida a ensinar tiranos a governar com crueldade e malícia.

Maquiavel era tudo menos maquiavélico, como dele se pensa. Era um analista de espantoso realismo e rigorosa objetividade, um arguto observador da natureza humana e da história política. Talvez o tenham lido tão mal por causa de sua extraordinária visão da natureza humana – atualíssima, mais de 480 anos depois de escrita –, exposta com a crueza de uma aula de anatomia. Ele foi o primeiro consultor político profissional, capaz de ensinar a arte de governar segundo a natureza de cada governante, tirano ou democrático, malicioso ou virtuoso, dissimulado ou cívico. Como os especialistas em marketing de hoje, que ensinam o caminho da vitória eleitoral à esquerda ou à direita, em campanhas verdadeiras ou artificiais, falando toda a verdade ou quase nada dizendo.

Era um sábio e não escondia sua preferência pelos príncipes que chamava cívicos, que chegavam ao governo pelo favor do povo e pelas próprias virtudes. E só a eles dedica boas palavras em seu tratado de governo, O Príncipe, embora a todos dispensasse conselhos e alertasse sobre os riscos de suas escolhas.

Entre todos, um conselho sempre me pareceu muito apropriado. Os homens, dizia ele, mudam freqüentemente, por vontade própria, de governante, em busca do melhor. Mas é impossível ao novo eleito não descontentar aqueles que o escolheram. Resta-lhe ser fiel a suas convicções e agir sempre com integridade, e não à base de artifícios e dissimulações.

Porque candidatos, para ganhar o favor do povo, julgam necessário prometer mundos e fundos, criar máxima expectativa, embora grandes vitórias eleitorais, das quais saíram grandes governos, tenham sido obtidas pedindo ao povo sangue, suor e lágrimas. Tendo prometido demais o candidato, deve o eleito desenredar a campanha, apresentando o enredo real de governo, livre das promessas em demasia, com a sobriedade requerida por um magistrado, responsável pela coisa pública inteira e não só pelas partes específicas dos que o favoreceram com seu voto.

Não descontentar é impossível. Mas descontentar mantendo a confiança e o apreço da maioria é diferente de frustrar por omissão da verdade, perdendo a confiança e a estima: a legitimidade. Porque, ensinava o sábio conselheiro, um governante não deve temer nunca as conjurações, se tiver a estima popular. Mas, se for pelo povo rejeitado, deve temer a qualquer um e a todas as circunstâncias adversas.

Como os meios serão sempre insuficientes para atender a tudo o que se demanda dele, o governante sempre fica a dever em realizações. Nada deve temer se mantiver o respeito e a confiança de seus concidadãos revelando-lhes francamente suas limitações. O déficit de satisfação é inescapável, sobretudo em se tratando de uma nação grande, que combina acelerada mudança com muitos elementos de durável rigidez, riqueza e pobreza, avanços e carências. Por isso, é imprescindível manter sempre um superávit de confiança, este mais básico e essencial que qualquer indispensável superávit primário.

Esse raciocínio, de rara precisão, está hoje amplamente documentado na literatura política contemporânea, que analisa as crises de governabilidade. Crises que nascem da incapacidade dos governos para administrar com parcimônia e sabedoria uma agenda sobrecarregada de demandas que não podem ser atendidas todas ao mesmo tempo, nem muitas, em prazo curto. Daí nascem as hiperinflações, as super-recessões, as crises de governança, legitimidade e governabilidade.

Só resta desejar, como Maquiavel, ao novo Príncipe – e príncipe será até quando queira o povo – que seu ilustre partido assuma essa missão, com a mesma franqueza, a mesma lealdade, a mesma esperança com que se vai à guerra justa e que sob sua bandeira a nossa pátria seja enobrecida e que sob seus auspícios se verifique a vitória da virtude sobre o ódio.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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