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Democracia emergente

Tragédia com o Kursk coloca em xeque
os velhos métodos da política na Rússia

Ricardo Amorim

Mãe é fogo. Mãe que perdeu o filho por ação ou omissão de governantes, então, vira uma praga, como sabem poderosos de diferentes calibres e bandeiras – e como estão descobrindo, com ar evidentemente apalermado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seus acólitos. Diante da fúria das mães dos jovens marinheiros do submarino nuclear Kursk, que naufragou no Mar de Barents com sua carga humana de 118 tripulantes, uma série de idéias preconcebidas sobre a Rússia foi a pique. A cultura totalitária implantada em setenta anos de comunismo era enraizada demais, dizia-se. Os russos clamam por um homem forte, um ditador, um czar, a quem seguirão sempre nos momentos de crise, repetia-se. Eleito por apresentar um perfil similar, Putin provavelmente também acreditava nesses clichês. Em duas semanas, tudo mudou. A tragédia com o Kursk deixou claro que em uma década de transição entre o totalitarismo soviético e a estropiada democracia russa a opinião pública aprendeu mais depressa que a burocracia estatal. Debaixo dos gritos e das cobranças das mães, as autoridades perceberam que as coisas já não são como antes. Mentir, enganar ou meramente abafar a própria incompetência, como fizeram os responsáveis pela desastrosa tentativa de resgate do submarino, não é mais um comportamento aceito com passividade por uma população resignada.

"Antigamente o povo russo era punido por trair o Estado. Mas por que nada acontece quando o Estado trai o povo?" A pergunta de Valentina Avliene, mãe do cozinheiro do Kursk, um rapazola de 20 anos, soou como uma bofetada. Enquanto pôde, o governo tentou conduzir a crise segundo os antigos métodos soviéticos. Só que, com uma imprensa que está assimilando os fundamentos da liberdade de expressão, cenas com os vícios do passado acabaram vindo a público. A mais estarrecedora é a da mãe de um dos marinheiros que se levanta para contestar enfaticamente o vice-primeiro-ministro, Ilia Klebanov, numa reunião realizada quando ainda havia esperança de se encontrarem sobreviventes. "Até quando isso vai durar? Eles estão presos em uma latinha. Você tem filhos?", desespera-se. Nesse momento, em um lance que lembrou a truculência da antiga KGB, o serviço secreto soviético no qual Putin fez carreira como quadro médio, uma enfermeira abraça a mulher e, pelas costas, aplica uma injeção de sedativo. Poucos segundos depois ela cai, amparada por oficiais da Marinha.

 
Fotos Reuters
FF
Velhos hábitos: imagens da TV russa mostram a mãe de uma das vítimas do Kursk interpelando as autoridades; em seguida, enfermeira aplica uma injeção de sedativo na mulher, que desmaia

Incompetência – Em outros tempos, o comportamento do governo na condução da crise seria debitado à habitual arrogância da burocracia estatal. Diante da pressão pública, ele se revelou como é na realidade: pura incompetência. Tudo o que os altos escalões da Marinha e do Executivo fizeram e disseram em relação ao desastre estava errado. Eles levaram mais de 24 horas para admitir a ocorrência do acidente e mais alguns dias para chegar a um acordo sobre a data da ocorrência. A cada dia apresentavam uma previsão diferente sobre as reservas de oxigênio dentro do submarino e até hoje não têm um quadro claro acerca das causas da tragédia – além de persistir na hipótese de colisão, levantaram até a suspeita de terrorismo, por causa da presença a bordo de dois técnicos do Daguestão, um dos enclaves muçulmanos simpáticos aos rebeldes da Chechênia. Por causa disso, sobram motivos para duvidar de outras afirmações, inicialmente tidas como verdadeiras, como a de que sobreviventes deram prova de vida dentro do submarino naufragado golpeando sinais de código morse em suas paredes. Se falaram mal, agiram ainda pior. A recusa em aceitar ajuda estrangeira, que persistiu até o momento em que talvez fosse tarde demais, caso tenha havido sobreviventes de início, foi o erro mais grave. Os mergulhadores noruegueses, dotados de equipamentos modernos, conseguiram chegar ao submarino e abrir uma das escotilhas em 36 horas, constatando que em seu interior havia muita água e nenhum sobrevivente. Os noruegueses foram embora contando histórias pavorosas, de como oficiais russos tentaram atrapalhar a operação passando informações falsas sobre as condições do mar e do acesso ao submarino.

A sucessão de erros causou indignação na opinião pública. A imprensa russa, em parte loteada entre grandes interesses econômicos e sem grandes pretensões libertárias, percebeu a mudança no vento e passou a questionar cada decisão das autoridades. Com transmissões ao vivo direto da cena da tragédia, a RTR, o canal de televisão estatal da Rússia, teve seus dias de CNN. O jornalista Arkadi Momontov, que transmitia a bordo de um navio de guerra fundeado na área do acidente, acabou se transformando em uma estrela nacional. Transformou-se também no símbolo da nova Rússia. Já houve – e continuam a haver – tragédias militares. Só na Chechênia morrem muito mais recrutas do que as vítimas do Kursk. Mas o poder simbólico de um submarino com tripulantes ainda vivos, morrendo aos poucos no fundo do mar por incompetência dos colegas que poderiam salvá-los, foi forte demais. Mobilizada pela tragédia, a opinião pública cobrou seus dirigentes como nunca se viu antes. Criticado por ter permanecido de férias no Mar Negro, no começo da crise, com ar relaxado e camisa pólo, Putin não se saiu melhor quando decidiu ir a Murmansk para prestar solidariedade às famílias dos marinheiros – passou por demagógico e populista. O estado de deterioração das Forças Armadas, pano de fundo da tragédia do Kursk, provocou ironias amargas num editorial publicado pela Rossiyskaya Gazeta: "Pelo menos podemos perceber que ainda temos uma Marinha magnífica! Em que outro país alguém sairia ao mar com a certeza de que não haveria resgate em caso de acidente?" A reviravolta foi tanta que um oficial de alta patente admitiu, candidamente: um dos equipamentos que poderiam ter salvo a vida de pelo menos alguns tripulantes estava alugado a companhias petrolíferas, de forma a fazer caixa para dar de comer aos marujos.

Talvez seja cedo para concluir que o terrível destino dos 118 homens a bordo do Kursk não foi inteiramente em vão, ao desencadear mudanças duradouras. Que algo mudou, porém, não há dúvida, ainda que apenas no campo intangível das percepções. Mesmo que tenham demorado em aceitar ajuda estrangeira, os dirigentes russos acabaram capitulando, sob pressão da opinião pública interna. Em outros tempos, nenhum estrangeiro chegaria nem perto do local do acidente. O episódio arranhou a imagem de Putin, mas não foi suficiente para isolá-lo. Segundo um instituto de pesquisas local, sua popularidade caiu de 73% para 65%. "O acidente com o Kursk não influenciará o futuro político do país. Putin continua forte e com apoio no Parlamento", acredita José Mário Ferreira Filho, responsável por política interna da embaixada brasileira em Moscou. Depois da inércia inicial, Putin correu para recuperar o tempo perdido e a imagem chamuscada. Num gesto de efeito, assumiu publicamente a culpa pelo desastre. Recusou as demissões apresentadas pelo ministro da Defesa e pelo comandante da Marinha, mas prometeu investigar o caso e punir os culpados. Até no vício, ele acabou optando por métodos mais arejados. Para aliviar o impacto da sucessão de más notícias, anunciou o pagamento de uma indenização – cujo valor inicial, equivalente a 7 000 dólares, foi rapidamente quadruplicado – às famílias das vítimas do Kursk e concedeu um aumento de 20% aos militares. A imagem de um presidente assumindo erros publicamente pode não aliviar em nada o sofrimento dos familiares dos marinheiros, mas representa um fato inédito na política russa. Práticas democráticas mais saudáveis podem vir à tona depois do afundamento do Kursk.

 

O destino do Kursk


O submarino no fundo do mar: baixo risco

A informação é triste para os parentes dos marinheiros, mas, do ponto de vista ambiental, o melhor a fazer com o Kursk é deixá-lo onde está: no fundo do oceano. A conclusão segue as recomendações da Agência Internacional de Energia Atômica e baseia-se em estudo realizado com outros dejetos nucleares que repousam no fundo de mares árticos. A razão é simples. Desde que não haja vazamento de radioatividade vindo dos reatores do Kursk, e os primeiros testes apontam para isso, o ideal é não mexer na carcaça naufragada. Uma operação de resgate, além de muito cara, é arriscada: o submarino pode rachar no processo, o que provocaria vazamento perigoso para as pessoas envolvidas e para o meio ambiente.

A profundidade em que se encontra a embarcação, 108 metros, também é considerada relativamente segura. Há lixo nuclear suportável em águas bem mais rasas, a até 20 metros da superfície. Nesses locais, não foram detectados traços perigosos de radiação. Os reatores são blindados e resistem à ação do tempo por um longo período. A única precaução necessária é o constante monitoramento dos níveis de radioatividade. Caso decida retirar o submarino do Mar de Barents, a Rússia irá gastar 100 milhões de dólares. Além de cara, estima-se que a operação possa demorar até um ano para ser concluída, com chance incerta de sucesso. A remoção dos corpos também é tarefa arriscada e sua viabilidade depende do estado da estrutura do submarino. Assim, é possível que os 118 tripulantes do Kursk tenham seguido o destino dos marinheiros desde tempos imemoriais e encontrado no mar sua sepultura definitiva.

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