BALEIA!BALEIA!

As jubartes chegam ao litoral sul da Bahia, onde são protagonistas de um dos mais belos espetáculos
da natureza

Flávia Varella, de Abrolhos

Fotos: Enrico Marcovaldi
O borrifo é quase sempre o primeiro sinal da presença de baleias, cuja parte interna da cauda funciona como impressão digital
 

"Baleia!", grita Jomario, grumete do barco Benedito, apontando para borrifos de 3 metros de altura quase na linha do horizonte. Minutos depois, a baleia jubarte está ao lado da escuna. A baleia vem devagar, afunda a cabeça, ergue o corpanzil em forma de arco e desaparece um instante. Sua cauda, então, ressurge gloriosa sobre a água como se fosse uma enorme borboleta molhada. A coreografia dura segundos, mas tão grande é a baleia que parece um balé em câmara lenta. "Saltos e batida de dorsal", avalia a bióloga Marcia Engel, que há cinco anos passa quase vinte dias por mês em alto-mar, entre julho e novembro, observando baleias jubarte no litoral sul da Bahia. O estagiário anota na ficha os comentários da bióloga, transformando em dados científicos um dos mais belos espetáculos proporcionados pelo mar.

As enormes nadadeiras peitorais são típicas das jubartes
Foto: Ana Freitas  

As baleias que acabam de chegar ao Brasil saíram da Antártida há pouco mais de um mês. No banco de Abrolhos, uma faixa com cerca de 500 quilômetros de água rasa (30 metros de profundidade) e cálida (média de 25 graus) entre o Espírito Santo e a Bahia, as baleias encontram as condições ideais para acasalar, parir e amamentar. As primeiras a chegar são as mães, que ainda amamentam os filhotes nascidos há um ano. Elas têm pressa porque é difícil conciliar amamentação e viagem, já que um filhote tem necessidade de mamar até 100 litros de leite por dia para atingir a média ideal de aumento de peso: 35 quilos por semana. Depois, vêm os machos, as fêmeas sem filhote e, por último, as grávidas. Ao todo, são cerca de 1.000 baleias que chegam a Abrolhos todos os anos. Já foram dezenas de milhares na época do descobrimento, quando estacionavam em vários pontos da costa brasileira. Em 1576, o cronista português Pero de Magalhães Gândavo registrou ter visto centenas delas na Baía de Guanabara.

Música clássica -- Em Abrolhos, as jubartes fazem a maior esbórnia. Elas se reúnem em grupos de três a oito animais, sempre com uma única fêmea no comando. É ela, por exemplo, que determina a velocidade e a direção a seguir. Os machos vão atrás, na expectativa de ver se a fêmea cai na rede, com o perdão do trocadilho, e aceite copular. Eles têm os seus truques para cortejá-las: fazem piruetas, saltam, batem a cauda com força na água e tentam afastar os concorrentes com golpes de cabeça. Como há mais machos que fêmeas, elas copulam com vários deles para ter certeza de que engravidarão.

Dentre as 79 espécies de cetáceo, as jubartes são as únicas que cantam -- tanto que são conhecidas também por "baleias cantoras". O cientista americano Roger Payne, que gravou e analisou sons de centenas de animais desse tipo, afirma que eles seguem padrões de construção que lembram os da música erudita. "Um canto pode durar de cinco minutos a meia hora, e é tão diverso que ficamos ouvindo entretidos o tempo todo", atesta Marcia Engel, que tem várias fitas gravadas. Cada população de jubartes canta uma mesma música durante a temporada de reprodução. Ao longo dos meses, porém, ela vai sofrendo pequenas mudanças, até que depois de cinco anos é completamente diferente da música original. Quando as baleias estão pelas redondezas de Abrolhos, é comum que os mergulhadores se assustem com as longas melodias que ecoam pela região. Como o mar é um excelente propagador de sons, eles têm a impressão de que uma jubarte pode estar a poucos metros de distância.

Tão grande quanto as baleias é sua discrição. Nunca um ser humano presenciou uma cópula de jubartes, mas sabe-se que o seu intercurso é muito rápido, dura apenas alguns segundos. O pênis, com mais de 2 metros de comprimento, só é exposto na hora do ato sexual, e ninguém também jamais viu um parto. Mas os momentos seguintes, de intimidade entre a mãe e seu único rebento, são comoventes. Logo após o nascimento, a baleia apóia o filhote na cabeça e o leva até a superfície para respirar. Como suas glândulas mamárias são internas -- uma adaptação à vida marinha --, ela espirra o leite na água. Com 40% de gordura, o leite da jubarte forma uma mancha que não se dissolve na água, o que facilita a nutrição do filhote. Durante o período de amamentação, que dura de seis meses a um ano, a mãe ensina os segredos da sobrevivência marinha ao pequeno e é arremedada por ele em todos os movimentos. A baleiona salta, o filhote a imita. Ela bate a cauda, ele também o faz.

Durante todo o tempo em que permanecem em águas tropicais, as jubartes não comem nada. Elas subsistem da reserva adquirida durante os sete meses passados na Antártida. Lá, comem pequenos peixes e um crustáceo chamado krill. A jubarte é engenhosa na hora de se alimentar. Como sua comida costuma ficar na superfície, ela mergulha e nada em volta do krill e dos peixes, soltando bolhas d'água. Ao subir, as bolhas concentram o alimento num círculo. Em seguida, a baleia abocanha tudo, elimina a água pelo canto da boca e usa a língua como uma canaleta para jogar o que interessa goela adentro. A comida ingerida durante o verão antártico se traduz numa camada de gordura de cerca de 30 centímetros de espessura, que as jubartes apresentam em Abrolhos ao longo do corpanzil.

Duas baleias acompanhadas de peixinhos: reserva de 30 centímetros de gordura
  Foto: Enrico Marcovaldi

Barraca sem patrocínio -- Todos esses detalhes sobre a vida das jubartes são resultado de anos de observação de pesquisadores apaixonados pelo objeto de estudo. No Brasil, eles integram o Projeto Baleia Jubarte, iniciado em 1988, um ano depois de a caça ser proibida por lei. Entre outras atribuições, a equipe monitora as embarcações que vão ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos, para garantir que as baleias não sejam molestadas, e realiza um trabalho intensivo de educação ambiental -- o que, trocando em miúdos, significa ensinar pescadores e turistas da região a apreciar e entender o balé das baleias, sem incomodá-las. Trabalhos como esse vêm alcançando bons resultados. Estima-se que existam hoje cerca de 25.000 jubartes nadando pelo mundo. Antes de começar a caça em escala industrial neste século, havia 150.000. Até a década de 70, entre 600 e 1.000 baleias eram arpoadas por ano no país, das quais se extraía basicamente óleo.

A baleia franca, outra das sete espécies que freqüentam a costa brasileira, era dada como extinta até 1982, quando um abnegado conseguiu observá-la e estudá-la no litoral de Santa Catarina. Todos os anos, no segundo semestre, José Truda Palazzo Junior monta uma barraquinha na Praia do Rosa e cataloga cada baleia franca que vê. Em quinze anos, o projeto já fichou cinqüenta baleias, o que fez a franca sair da lista de animais em extinção e passar para a das espécies ameaçadas, ao lado da jubarte. O Projeto Baleia Franca não tem patrocínio ou verba alguma, mas continua funcionando.

Em Abrolhos, as jubartes são contadas e estudadas sistematicamente a cada inverno. De 1º de julho até o meio de novembro, saem cerca de cinco cruzeiros de pesquisadores por mês com esse objetivo. Cada baleia avistada é computada. Basta o primeiro grito -- "Baleia!" -- para começar o preenchimento das fichas. Anotam-se quantos animais faziam parte do grupo, a proporção de machos e fêmeas, onde foram avistados e que tipo de comportamento foi observado. De posse dos dados, é possível saber se há concentração maior em determinados locais, se mães com filhos ficam mais perto das ilhas ou não, se saltos são mesmo característicos de grupos de acasalamento etc.

Uma infinidade de fotos é tirada quando uma jubarte mostra a parte de baixo da nadadeira caudal. A mancha branca da cauda é como se fosse sua impressão digital: não há uma igual a outra. Em terra, as fotos de identificação são colocadas num computador e comparadas com as de arquivo. Assim, os pesquisadores têm condições de saber se as baleias estão voltando, comparar esses catálogos com os de grupos que habitam outros mares e dimensionar a população local.

De sol a sol -- Nas baleadas, nome dado aos cruzeiros de pesquisadores, trabalha-se de sol a sol, mas todos a bordo adoram o batente pesado. Ninguém reclama do desconforto de dormir em camas que são verdadeiras prateleiras empilhadas numa pequena cabine e de passar quatro dias sem pôr o pé em terra firme. "Os cetáceos são animais fascinantes", diz a bióloga Marcia, que ilustra seu amor com um anel em formato de baleia, brinco de golfinho e relógio de tartaruga. Houve uma vez "abençoada", ela conta. A equipe parou o barco e desligou o motor para observar uma baleia bem próxima. Era uma jubarte jovem e curiosa. Ficou rodando, nadando sob o barco e saltando durante cerca de duas horas. "Teve um momento em que ela levantou o corpo do lado do barco e ficou olhando. Estava tão perto que passei a mão em seu corpo", lembra a bióloga, com emoção.

Quem vê não esquece. Tanto que é cada vez maior o número de turistas que visitam o Parque Nacional de Abrolhos para apreciar o balé das baleias. Depois de presenciar as evoluções desses enormes animais que lembram seres mitológicos, tanto leigos como especialistas saem intrigados: seriam as baleias inteligentes? O cientista Roger Payne diz que manter o cérebro é algo muito custoso para o organismo. Nas primeiras semanas de vida de um ser humano, exemplifica ele, cerca de um terço do metabolismo do corpo é usado para arcar com o funcionamento do cérebro. Payne acredita que, se o enorme cérebro da baleia não estivesse sendo utilizado para funções outras que as exigidas pela sobrevivência, ele já teria diminuído ao longo da evolução da espécie. "Deve haver algo que as baleias e os golfinhos fazem com o cérebro que é fundamental para sua vida e completamente diferente da função para a qual usamos o nosso." Sem compreender, resta-nos admirar.

 


 

Dúvida no ar

Uma fragata com o papo inflado: incêndio atrasou reprodução
Foto: Adriana Mattoso / divulgação  

A Ilha Redonda, uma das cinco que compõem o Arquipélago de Abrolhos, foi tomada pelas chamas de um grande incêndio na primeira semana deste ano. Algum turista desavisado acendeu um rojão para comemorar a passagem de ano e provocou uma tragédia. A Redonda era o lugar onde as fragatas faziam seus ninhos, chocavam os ovos e depois alimentavam os filhotes. No incêndio, 150 filhotes e cerca de vinte ovos morreram esturricados. Passados seis meses, o topo da ilha continua negro, sem vegetação. As bonitas aves de bico curvado, que dão shows ao roubar os peixes da boca de outros pássaros, já não sobrevoam a Redonda. Elas não deixaram o arquipélago, mas estão desorientadas e ainda não encontraram outro lugar para a reprodução.

Entre o final de junho e o início de julho é o período em que as fragatas começam a construir seus ninhos e colocar os ovos. Mas ainda não há um único ninho pronto ou sendo montado em nenhuma das cinco ilhas. "Em anos anteriores já havia vários nesta época", diz Lucian Interaminense, ornitólogo responsável por um projeto de monitoramento e conservação de aves marinhas em Abrolhos. Os machos, no entanto, já estão voando com o papo vermelho inflado, obedecendo ao ritual para atrair as fêmeas. "O papo inflado é comportamento de reprodução. Talvez o processo esteja apenas atrasado e elas façam ninho em outro local. Estamos aguardando para saber o que vai acontecer", diz Interaminense.

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