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Berlusconi,
um brasileiro
"Berlusconi
tem a
cara dos
nossos
políticos. E
os italianos
que
o elegeram têm
a nossa
cara. Me
dá enjôo"
Silvio Berlusconi ganhou as eleições italianas. Prometeu
que uma das primeiras medidas de seu governo será abolir os impostos
de doação e sucessão. Considerando que ele é
o homem mais rico da Itália, os maiores beneficiários dessa
medida serão seus próprios herdeiros. Outro que saiu lucrando
com a eleição de Berlusconi foi o cineasta Nanni Moretti.
Acho que seu filme xaroposo jamais teria levado a Palma de Ouro em Cannes
se ele não fosse um bom moço de esquerda e se o mundo inteiro
não estivesse preocupado e escandalizado com a vitória dos
xenófobos e pós-fascistas da quadrilha berlusconiana.
Apesar de morar na Itália, eu pretendia evitar o assunto das eleições
da semana retrasada. Pretendia evitá-lo porque me dá enjôo.
Mas o sucesso de Moretti em Cannes, associado a alguns comentários
equivocados que li na imprensa, fez-me mudar de idéia. A eleição
de Berlusconi causou muita perplexidade. Para quem não vive aqui,
é duro compreender como alguém tão inadequado quanto
ele possa ter sido mandado para o governo. A impressão é
que isso só aconteceu porque ele soube ludibriar os italianos,
fazendo promessas irrealizáveis por meio de suas redes de TV. Sabe
aquele velho filme em que Totó consegue vender a Fontana di Trevi
para um turista otário? Muita gente acredita que Berlusconi seja
uma espécie de Totó da política e que os italianos
otários tenham comprado a Fontana di Trevi.
A realidade é bastante diferente. Os italianos conhecem muito bem
Berlusconi. Ninguém votou nele porque foi enganado ou por ignorância.
Todo mundo sabe, por exemplo, que a Justiça o condenou por corromper
os fiscais da Receita. O que seus eleitores imaginam, portanto, é
que sob seu comando a fiscalização de impostos ficará
um pouquinho mais relaxada. Todo mundo sabe também que seus loteamentos
depredaram a costa da Sardenha. A esperança é que, agora,
ele conceda uma nova anistia àqueles que construíram de
forma clandestina em parques naturais e arqueológicos ou, simplesmente,
aos que derrubaram uma parede sem pedir licença. Todo mundo sabe,
por fim, que ele está sendo investigado por conivência com
a Máfia. De fato, a Sicília votou maciçamente em
seu partido.
É
o que eu queria dizer: nenhum eleitor é ignorante. Pode ser burro,
mas não ignorante. Ele sempre sabe em quem está votando.
O discurso vale para Berlusconi, para Sharon, para Hitler. Ou para Collor,
ACM, Maluf, Quércia, Itamar, Lula, Fernando Henrique. Quem vota
num político sabe perfeitamente o que ele é, por mais que
a propaganda se esforce para escondê-lo. Não comparei Berlusconi
aos políticos brasileiros por acaso. Berlusconi tem a cara dos
nossos políticos. E os italianos que o elegeram têm a nossa
cara. Quando abandonei o Brasil e vim para a Itália, senti um enorme
alívio em me livrar dessa gente. Não que, na época,
a política italiana fosse melhor do que a brasileira. Não
era. Mas ao menos parecia diferente. Não me importava que eles
roubassem alucinadamente. O problema era só deles. Não me
dizia respeito. Com Berlusconi, esse saudável distanciamento foi
para o brejo. Ele é familiar demais. Conheço seus métodos,
seus truques, seus sorrisos. Sei o tempo todo o que ele está pensando
e o que está fazendo. É isso que me dá enjôo.
Fiz de tudo para montar uma vida longe do Brasil e, de supetão,
encontro-me novamente em pleno território pátrio.
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