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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Berlusconi, um brasileiro

"Berlusconi tem a cara dos
nossos políticos. E os italianos
que o elegeram têm a nossa
cara.
Me dá enjôo"

Silvio Berlusconi ganhou as eleições italianas. Prometeu que uma das primeiras medidas de seu governo será abolir os impostos de doação e sucessão. Considerando que ele é o homem mais rico da Itália, os maiores beneficiários dessa medida serão seus próprios herdeiros. Outro que saiu lucrando com a eleição de Berlusconi foi o cineasta Nanni Moretti. Acho que seu filme xaroposo jamais teria levado a Palma de Ouro em Cannes se ele não fosse um bom moço de esquerda e se o mundo inteiro não estivesse preocupado e escandalizado com a vitória dos xenófobos e pós-fascistas da quadrilha berlusconiana.

Apesar de morar na Itália, eu pretendia evitar o assunto das eleições da semana retrasada. Pretendia evitá-lo porque me dá enjôo. Mas o sucesso de Moretti em Cannes, associado a alguns comentários equivocados que li na imprensa, fez-me mudar de idéia. A eleição de Berlusconi causou muita perplexidade. Para quem não vive aqui, é duro compreender como alguém tão inadequado quanto ele possa ter sido mandado para o governo. A impressão é que isso só aconteceu porque ele soube ludibriar os italianos, fazendo promessas irrealizáveis por meio de suas redes de TV. Sabe aquele velho filme em que Totó consegue vender a Fontana di Trevi para um turista otário? Muita gente acredita que Berlusconi seja uma espécie de Totó da política e que os italianos otários tenham comprado a Fontana di Trevi.

A realidade é bastante diferente. Os italianos conhecem muito bem Berlusconi. Ninguém votou nele porque foi enganado ou por ignorância. Todo mundo sabe, por exemplo, que a Justiça o condenou por corromper os fiscais da Receita. O que seus eleitores imaginam, portanto, é que sob seu comando a fiscalização de impostos ficará um pouquinho mais relaxada. Todo mundo sabe também que seus loteamentos depredaram a costa da Sardenha. A esperança é que, agora, ele conceda uma nova anistia àqueles que construíram de forma clandestina em parques naturais e arqueológicos ou, simplesmente, aos que derrubaram uma parede sem pedir licença. Todo mundo sabe, por fim, que ele está sendo investigado por conivência com a Máfia. De fato, a Sicília votou maciçamente em seu partido.

É o que eu queria dizer: nenhum eleitor é ignorante. Pode ser burro, mas não ignorante. Ele sempre sabe em quem está votando. O discurso vale para Berlusconi, para Sharon, para Hitler. Ou para Collor, ACM, Maluf, Quércia, Itamar, Lula, Fernando Henrique. Quem vota num político sabe perfeitamente o que ele é, por mais que a propaganda se esforce para escondê-lo. Não comparei Berlusconi aos políticos brasileiros por acaso. Berlusconi tem a cara dos nossos políticos. E os italianos que o elegeram têm a nossa cara. Quando abandonei o Brasil e vim para a Itália, senti um enorme alívio em me livrar dessa gente. Não que, na época, a política italiana fosse melhor do que a brasileira. Não era. Mas ao menos parecia diferente. Não me importava que eles roubassem alucinadamente. O problema era só deles. Não me dizia respeito. Com Berlusconi, esse saudável distanciamento foi para o brejo. Ele é familiar demais. Conheço seus métodos, seus truques, seus sorrisos. Sei o tempo todo o que ele está pensando e o que está fazendo. É isso que me dá enjôo. Fiz de tudo para montar uma vida longe do Brasil e, de supetão, encontro-me novamente em pleno território pátrio.

 

 
 
   
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