Edição 1 642 - 29/3/2000

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Ibope do mal

Gugu defende gente suspeita só
para ganhar audiência

Marcelo Carneiro

Protagonista de uma ferrenha guerra com Fausto Silva pela liderança nas tardes de domingo, Gugu Liberato arranjou uma nova e inusitada arma para enfrentar a Globo. Ele leva a seu programa, como convidados, personalidades que apareceram em situação desfavorável em telejornais da emissora concorrente. Na semana retrasada, o entrevistado foi Celso Pitta, que dois dias antes vira no Globo Repórter a própria ex-mulher, Nicéa, denunciar um esquema de corrupção em sua administração. Na semana passada foi a vez do cantor Alexandre Pires, indiciado pelo atropelamento e morte do vendedor José Alves Sobrinho. Pires estava chateado com a Globo porque a emissora havia exibido, no Fantástico, testemunhas que desmentiam pontos importantes para a sua defesa no caso. Gugu explorou à exaustão o ressentimento de ambos. Na entrevista com Pitta, foi direto: "O senhor pretende processar a Globo?" Com essa estratégia, o loiro do canal de Silvio Santos cutuca a concorrente e, de quebra, ganha pontos na audiência. Enquanto Alexandre Pires esteve no vídeo, o placar do Ibope apresentou uma média de 32 pontos do SBT contra 27 da Globo. No caso de Pitta, houve um empate técnico.

Ao promover essas entrevistas, Gugu não está fazendo jornalismo. Suas intervenções não são jornalísticas porque ele bajula o entrevistado, praticamente só traz pessoas que falam a favor dele e usa artifícios para provocar comoção no espectador. Alexandre Pires, que é amigo do apresentador, fez até teatrinho. Apesar de ter acertado que iria à emissora para a entrevista, fingiu até o último minuto que só falaria pelo telefone. Valeu a pena. Ganhou 51 minutos de programa, incluindo imagens de obras sociais do grupo Só pra Contrariar e profusos elogios de cantores como Gilberto Gil e Caetano Veloso. "Ele é um rapaz de boa educação, boa índole e em quem eu confio", derramou-se Caetano por telefone. "Ele é um menino bom, de quem não se pode dizer nada que não seja positivo, um excelente cantor de um grupo de alto nível." Impressionante. Gil, também por telefone, pegou pesado: "Ele foi vítima de um acidente de trânsito tanto quanto aquele que acabou morrendo". No caso de Celso Pitta, o apresentador derramou-se em adjetivos como "simpático" e "gentil". Expedientes como esse são típicos de programas de auditório como o de Gugu. O que soa estranho é batizar o quadro, uma evidente mitificação, de "furo de reportagem".