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A mulher mais poderosa
da MPB

Marisa Monte une talento a tino comercial para fazer história na música brasileira

Sérgio Martins

J. Rosenberg
Marisa: dona da própria obra


A música brasileira tem um panteão de grandes cantoras. Mas poucas conseguiram falar grosso nas salas de direção das gravadoras. Uma das raras exceções é a carioca Marisa Monte, de 34 anos. Daqui a duas semanas ela deve lançar o DVD do show Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. Na história da MPB, nunca houve mulher tão poderosa. Além de talento artístico, Marisa demonstra ter um extraordinário tino empresarial. O maior exemplo disso está na maneira como conduziu, no ano passado, as negociações para renovar seu contrato com a gravadora EMI. Ao utilizar como trunfo propostas vultosas de outras companhias, ela obteve uma concessão inaudita. Tornou-se dona de sua própria obra – ou seja, dos cinco discos que fez desde a estréia, em 1989. Normalmente, os discos que um artista realiza por uma gravadora são de propriedade dessa última, que pode mantê-los nas lojas, retirá-los de catálogo, aproveitar faixas em coletâneas e o que mais for. Se o artista mudar de selo, não leva embaixo do braço as matrizes de suas gravações passadas. Pouquíssimos astros podem se gabar de ter rompido essa praxe. Os Rolling Stones, por exemplo, são donos de seus álbuns – mas apenas de 1971 em diante, o que deixa de fora sucessos como Satisfaction. No Brasil, Roberto Carlos é o grande exemplo. É proprietário de todas as canções que já criou. Com apenas doze anos de carreira, Marisa Monte faz parte desse seleto grupo.

Quando a direção da EMI na Inglaterra soube que a negociação com Marisa estava em andamento, tentou interferir. "Eles não acreditavam que uma cantora brasileira valesse todas essas regalias", diz um ex-funcionário da gravadora. Mas a vontade da moça acabou prevalecendo porque, além de dura na queda, ela é um nome rentabilíssimo. Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, seu último lançamento, ultrapassou 1 milhão de cópias. Foi um dos discos mais vendidos do ano passado e o único de MPB tradicional a figurar na lista das minas de ouro em meio a CDs de pop juvenil, música sertaneja e forró. Uma de suas canções, Amor I Love You, fez com que Marisa, uma cantora rotulada como de elite, caísse no gosto das classes menos abastadas. Segundo a Crowley Broadcast Analysis do Brasil, empresa que mede a audiência das rádios do país, a canção esteve entre as três mais tocadas nas capitais de maio a novembro do ano passado. Marcou presença tanto nas emissoras de AM quanto de FM. Ao cair no gosto do povão, Marisa viu as vendagens de seu CD anterior, Cor de Rosa e Carvão, se ampliarem também. Lançado há sete anos, ele agora ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias.

Boa parte do sucesso de Marisa Monte deve ser creditada ao seu trabalho nos bastidores. Ela supervisiona de perto as gravações de seus álbuns. Depois de um lançamento, cai na estrada com vontade. A turnê de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor durou cerca de um ano. Foram mais de 150 shows no Brasil, Estados Unidos e Europa. Ao mesmo tempo, Marisa é fiel seguidora de um dos principais mandamentos do show biz: faça com que o público queira mais. Seus intervalos entre discos e turnês chegam a durar três anos. No meio tempo, ela faz uma ou outra investida de marketing. Por exemplo, o seu DVD. Orçado em 1,5 milhão de reais, ele traz não apenas o show, como um making of das gravações e três clipes: Amor I Love You, O que Me Importa e Gentileza. Desde o ano passado, Marisa Monte é dona de um selo, o Phonomotor, pelo qual pretende lançar projetos especiais. Como o disco-solo de Argemiro, integrante da Velha Guarda da Portela. "Ela não é uma cantora, é uma estrategista militar", dispara um desafeto.

Filha da classe média alta, Marisa Monte faz o tipo reclusa. Mora em uma casa confortável na Urca, bairro tradicional que hospeda também Roberto Carlos. Ali, a cantora mantém um estúdio caseiro. Seus únicos luxos sabidos são um apartamento no East Village, em Nova York, e algumas obras de arte adquiridas nos últimos anos. Ela gosta especialmente das pinturas de Antonio Dias e Di Cavalcanti. Embora fuja da superexposição, Marisa tem uma vida amorosa movimentada. Atualmente, namora o músico Pedro Bernardes, de 19 anos. Mas já fez par com o jornalista e produtor Nelson Motta, com os cantores Nasi e Nando Reis e com o guitarrista Davi Moraes. Ah, sim. Consta que na adolescência foi tiete do ator Alexandre Frota – o encrenqueiro do programa Casa dos Artistas. Nem Marisa Monte é perfeita.

 

O exemplo oposto

Divulgação

Daniela Mercury: a ex-rainha do axé não sabe para onde vai


Se Marisa Monte é o melhor exemplo de como conduzir uma carreira, Daniela Mercury é o oposto disso. Suas vendagens estão em queda e ela passa por uma crise de identidade. A baiana alcançou seu auge com o disco O Canto da Cidade, de 1992, que bateu em 1,2 milhão de cópias. Seu último trabalho, Sou de Qualquer Lugar, vendeu até agora 150 000 exemplares. Sim, ele foi lançado há apenas dois meses, mas já dá sinal de que não tem fôlego para ir muito além. Esse problema é decorrência direta do fato de Daniela não saber para onde atirar. Desde que resolveu abandonar o trono da axé music, em meados dos anos 90, ela patina ora no terreno da MPB tradicional, ora no da música eletrônica. Não consegue angariar novos fãs e, pior ainda, perde antigos admiradores, que associavam sua música com a farra baiana. Sou de Qualquer Lugar é um cozido esquisito. Dá a impressão de ter sido feito de qualquer jeito. Tenta soar moderninho, sem êxito. Importante notar que, no ápice do sucesso, Daniela Mercury conquistou privilégios que não são para todo mundo. Como o direito de mandar e desmandar na produção de seus discos. Não soube, contudo, usar bem sua liberdade.

 

Veja também
Mais informações sobre o DVD e a carreira de Maria Monte na Estação VEJA


   
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