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Agora
sou o bandido
"Com
o lançamento do meu filme, caçadores de recompensa saíram
para
me matar. A
vingança já era
previsível"
Fiz
um filme. Recebeu malhos na imprensa. Recebeu elogios, também.
Mas é muito mais fácil afastar espectadores com malhos do
que aproximá-los com elogios. É como se os espectadores
só estivessem à espera de um bom pretexto para não
ir ao cinema. A bilheteria do nosso filme caiu pela metade no dia em que
os malhos foram publicados.
Não tenho o menor direito de me queixar de malhos. Sou um especialista
do malho. Divirto-me muito mais malhando do que elogiando. Minha política
é malhar apenas autores consagrados, que possam se defender. Nesse
aspecto, quem me malhou se comportou bem, já que tenho uma poderosa
tribuna da qual revidar. Além disso, eu sempre tive a certeza de
que seria alvo de malhos. Falei mal de tanta gente no passado que a vingança
era previsível e perfeitamente natural. Virei uma espécie
de bandido de faroeste, com a cabeça a prêmio. Caçadores
de recompensa saíram para me matar. Antes do lançamento
do filme, tive a ilusão inclusive de que isso poderia ser revertido
a meu favor. Como o filme tentava oferecer caminhos alternativos ao cinema
nacional, eventuais malhos abririam espaço para uma acalorada discussão.
Nenhum problema com os malhos, portanto. O problema foi com os autores
dos malhos. Não sei se por descaso dos editores ou pela crise que
afeta a imprensa, que deixou as redações repletas de estagiários,
fomos atacados por um pessoal anônimo, em começo de carreira
ou com a carreira em fase descendente, depois de aventuras frustradas
na internet. Contra gente pouco qualificada não há o que
fazer. Posso até ridicularizá-los, mas não posso
partir para a briga. Um amigo tenista disse que um jogador de primeira
categoria piora seu jogo quando bate bola com um de terceira categoria.
A única maneira de se preservar, nesse caso, é ficar em
silêncio. O que é uma pena, porque não vejo a menor
graça em realizar um trabalho e não poder quebrar o pau.
Impossibilitado de extravasar minha raiva contra os autores dos malhos,
passei a implicar com todo mundo. Impliquei, em primeiro lugar, com Celso
Furtado. Depois com Ciro Gomes. Por último, com Caetano Veloso.
Impliquei mais com Caetano Veloso do que com os outros dois porque, de
certo modo, ele é o contrário de mim. Ele é amado
e, sobretudo, é generoso na hora de amar, como a imensa maioria
dos brasileiros. Recentemente, deu uma entrevista em que conseguiu manifestar
amor pelos mais diferentes políticos: FHC ("um tesouro do país"),
Lula ("sempre gostei dele"), ACM ("um talento político"), José
Sarney ("simpático"), Roseana Sarney ("bacana"), Tasso Jereissati
("grande candidato"). Caetano Veloso justificou sua volubilidade com o
fato de que tem um pensamento político "pouco preparado", pois
passa a maior parte do tempo ensaiando, dando shows, fazendo check-in
em hotéis e aeroportos. A ignorância fornece-lhe o álibi
para pular dos braços de um político para os braços
de outro, sem correr o risco de parecer oportunista. A contrapartida,
claro, é que ele se torna o alvo perfeito para deboches. E eu aproveito.
Caetano Veloso serve para essas horas: para quando a gente precisa desesperadamente
debochar de alguém maior do que nós.
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