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Edição 1 728 - 28 de novembro de 2001
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Agora sou o bandido

"Com o lançamento do meu filme, caçadores de recompensa saíram para
me matar.
A vingança já era previsível"

Fiz um filme. Recebeu malhos na imprensa. Recebeu elogios, também. Mas é muito mais fácil afastar espectadores com malhos do que aproximá-los com elogios. É como se os espectadores só estivessem à espera de um bom pretexto para não ir ao cinema. A bilheteria do nosso filme caiu pela metade no dia em que os malhos foram publicados.

Não tenho o menor direito de me queixar de malhos. Sou um especialista do malho. Divirto-me muito mais malhando do que elogiando. Minha política é malhar apenas autores consagrados, que possam se defender. Nesse aspecto, quem me malhou se comportou bem, já que tenho uma poderosa tribuna da qual revidar. Além disso, eu sempre tive a certeza de que seria alvo de malhos. Falei mal de tanta gente no passado que a vingança era previsível e perfeitamente natural. Virei uma espécie de bandido de faroeste, com a cabeça a prêmio. Caçadores de recompensa saíram para me matar. Antes do lançamento do filme, tive a ilusão inclusive de que isso poderia ser revertido a meu favor. Como o filme tentava oferecer caminhos alternativos ao cinema nacional, eventuais malhos abririam espaço para uma acalorada discussão.

Nenhum problema com os malhos, portanto. O problema foi com os autores dos malhos. Não sei se por descaso dos editores ou pela crise que afeta a imprensa, que deixou as redações repletas de estagiários, fomos atacados por um pessoal anônimo, em começo de carreira ou com a carreira em fase descendente, depois de aventuras frustradas na internet. Contra gente pouco qualificada não há o que fazer. Posso até ridicularizá-los, mas não posso partir para a briga. Um amigo tenista disse que um jogador de primeira categoria piora seu jogo quando bate bola com um de terceira categoria. A única maneira de se preservar, nesse caso, é ficar em silêncio. O que é uma pena, porque não vejo a menor graça em realizar um trabalho e não poder quebrar o pau.

Impossibilitado de extravasar minha raiva contra os autores dos malhos, passei a implicar com todo mundo. Impliquei, em primeiro lugar, com Celso Furtado. Depois com Ciro Gomes. Por último, com Caetano Veloso. Impliquei mais com Caetano Veloso do que com os outros dois porque, de certo modo, ele é o contrário de mim. Ele é amado e, sobretudo, é generoso na hora de amar, como a imensa maioria dos brasileiros. Recentemente, deu uma entrevista em que conseguiu manifestar amor pelos mais diferentes políticos: FHC ("um tesouro do país"), Lula ("sempre gostei dele"), ACM ("um talento político"), José Sarney ("simpático"), Roseana Sarney ("bacana"), Tasso Jereissati ("grande candidato"). Caetano Veloso justificou sua volubilidade com o fato de que tem um pensamento político "pouco preparado", pois passa a maior parte do tempo ensaiando, dando shows, fazendo check-in em hotéis e aeroportos. A ignorância fornece-lhe o álibi para pular dos braços de um político para os braços de outro, sem correr o risco de parecer oportunista. A contrapartida, claro, é que ele se torna o alvo perfeito para deboches. E eu aproveito. Caetano Veloso serve para essas horas: para quando a gente precisa desesperadamente debochar de alguém maior do que nós.

 
 
   
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