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espaço é nosso lar
O astronauta russo
pioneiro das estações
orbitais diz que a
humanidade vai um
dia abandonar a Terra
José
Galisi Filho, de Moscou

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Aos
43 anos, o russo Sergei Krikalev é o astronauta mais experiente
em atividade no mundo. Em treze anos de carreira, viajou cinco vezes para
o espaço. Engenheiro de vôo de duas missões à
estação Mir, destruída no começo do ano, Krikalev
agora se dedica à construção da Estação
Espacial Internacional, que está sendo montada a 420 quilômetros
da Terra. Participou da primeira missão de montagem da estação,
quando o módulo americano Unity foi acoplado ao russo Zarya, em
1998. Também fez parte da primeira equipe de astronautas a morar
na estação, de novembro de 2000 a março deste ano.
Em sua mais longa missão, viveu dez meses no espaço, na
Mir, entre 1991 e 1992, cinco além do previsto. Nesse período,
a União Soviética implodiu. Krikalev decolou soviético
e aterrissou russo. "Ficamos preocupados com nossos parentes e amigos
que estavam em Moscou, que chegou a ser sitiada por tanques, mas tínhamos
de cumprir todas as tarefas de bordo, e não faria a menor diferença
se esse trabalho fosse pela Rússia como Estado independente ou
pela velha União Soviética", diz ele. Casado, pai de uma
filha, Krikalev falou a VEJA no complexo de treinamento de astronautas
conhecido como Cidade das Estrelas, nos arredores de Moscou.
Veja As imagens da destruição do World Trade
Center foram registradas por satélites. Elas seriam vistas a olho
nu por astronautas em órbita da Terra?
Krikalev
A 420 quilômetros de altitude, a órbita das estações
espaciais, podemos ver catástrofes, sejam naturais, sejam humanas.
Elas deixam traços indeléveis na paisagem. Erupções
vulcânicas, desmatamentos ou mesmo mobilizações militares
de larga escala, como a que os Estados Unidos estão organizando
neste momento, são bem visíveis. É possível
observar também, daquele ponto de vista, os melhores produtos da
inteligência e do trabalho humanos, como grandes represas e usinas.
Veja Agora que os russos perderam a Mir, seus cosmonautas
serão apenas coadjuvantes na ISS, a nova Estação
Espacial Internacional?
Krikalev
Os americanos são nossos parceiros em pé de igualdade, e
essa parceria é a premissa de qualquer desdobramento do que venha
a ser o futuro da ISS. Nossa longa experiência no espaço
converge e amadurece agora na ISS. Como uma parte de meu treinamento é
realizada em Houston já decolei duas vezes com o ônibus
espacial, em 1994 e 1998 , sei que a imprensa americana ainda alimenta
essa idéia nostálgica de que a ISS será uma estação
com participação majoritária dos Estados Unidos.
Mas a ISS já nasceu como um consórcio internacional, e sua
realidade não cabe naqueles estereótipos do programa espacial
nacional americano, como ele foi durante a Guerra Fria.
Veja Por que a tentativa de utilizar comercialmente a Mir
fracassou?
Krikalev
Quando
a Mir foi lançada, em 1986, essa questão não se colocava
de maneira alguma. Ela era produto de um programa espacial estatal. Não
acho que se possa aplicar às estações orbitais e
à pesquisa espacial a mesma lógica de rentabilidade de curto
prazo do mercado essa lógica não funciona por lá,
pois depende e sempre dependerá de investimentos estatais maciços.
Veja Qual foi a maior conquista da Mir?
Krikalev
Só
o fato de a Mir ter permanecido quinze anos em órbita já
é, em si, uma proeza, pois ela havia sido concebida inicialmente
para três anos. Aprendemos na Mir a trabalhar de maneira autônoma
por períodos longos. Houve no passado também vôos
longos, de seis meses ou mais, mas somente na Mir foi possível
realizar experimentos contínuos durante um ano ou mais. Ela foi
o primeiro habitat humano estável fora deste planeta. Com ela aprendemos
a montar, a reparar e a administrar estruturas complexas em órbita.
Isso era uma grande arte. A Mir exigia perícia para mantê-la
operacional. Desenvolvemos no decorrer destes anos programas complexos
para o monitoramento dessa estrutura.
Veja O que o senhor acha da idéia de levar "turistas"
para estações orbitais, como o milionário americano
Dennis Tito, que voou em maio?
Krikalev
Tito foi uma exceção. Queria voar de todo jeito para o espaço
e estava disposto a pagar qualquer preço por isso. Ele tinha a
possibilidade de viajar com o ônibus espacial para a ISS ou para
a Mir. Quando a Mir foi desativada, ele então acabou indo para
a ISS. Não gostaria de fazer juízos de valor. Por enquanto
não há lugar para "turistas" no eolor="#000000">Krikalev
Tito foi uma exceção. Queria voar de todo jeito para o espaço
e estava disposto a pagar qualquer preço por isso. Ele tinha a
possibilidade de viajar com o ônibus espacial para a ISS ou para
a Mir. Quando a Mir foi desativada, ele então acabou indo para
a ISS. Não gostaria de fazer juízos de valor. Por enquanto
não há lugar para "turistas" no espaço. Nenhuma decolagem
é rotina, como nos recorda a Challenger, que explodiu ao decolar,
em 1986.
Veja O que o senhor sentiu quando a Mir finalmente se desintegrou
sobre o Pacífico?
Krikalev
Não pude estar presente na central de controle, pois me encontrava
em quarentena depois de retornar de um longo vôo na ISS. A Mir foi
minha casa e meu ambiente de trabalho por quinze meses. Eu a conhecia
em cada detalhe. Ela era parte de minha vida e também o coroamento
de minha experiência profissional. Aposentá-la equivaleu
a encerrar um capítulo de minha vida. Mas, afinal, ela chegou ao
fim de sua vida útil. O próprio processo de desativação
pode ser considerado também uma proeza técnica.
Veja As mulheres adaptam-se tão bem às condições
impostas pelas viagens espaciais quanto os homens?
Krikalev
A
perda óssea é mais crítica para as mulheres. Elas
têm a ossatura menos densa que a dos homens. O espaço é
um meio muito hostil para o corpo humano, independentemente do sexo, sobretudo
por causa da ausência de gravidade. Nessa situação,
o organismo entende que não precisa tanto do esqueleto e passa
a desestimular a acumulação de cálcio nos ossos.
Já existem abordagens médicas para essa condição.
Contornado esse problema, as mulheres são capazes de desempenhar
com a mesma destreza a maioria das tarefas exigidas pelo programa. Nessa
fase inicial de montagem da ISS, mulheres não serão muito
empregadas porque o trabalho externo exige muita força muscular.
Veja O senhor decolou em sua segunda missão à
Mir como astronauta soviético, em maio de 1991, e retornou à
Terra como russo, um estrangeiro, em março de 1992. Como acompanhou
em órbita a desintegração da União Soviética?
Krikalev
Não, eu não concordo que tenha retornado como "estrangeiro".
Meu uniforme ainda tinha a bandeira da União Soviética,
que não existia mais, mas eu decolara de Baikonur, no Cazaquistão,
e retornara ao mesmo Cazaquistão. A diferença é que
naquela missão a União Soviética desapareceu como
realidade política, dissolvendo-se em repúblicas soberanas.
Foi uma mudança de estrutura política, mas esses acontecimentos
não interferiram imediatamente na rotina da estação.
Lembro-me de que em 19 de agosto de 1991 o pessoal de terra nos passou
as instruções do dia de maneira mais lacônica que
de costume. Órbitas depois, eles sintonizaram a rádio de
Moscou na estação e soubemos então, com atraso de
três horas, que tanques haviam tomado partes da capital. Ficamos
preocupados com nossos parentes e amigos que estavam lá, mas tínhamos
de cumprir todas as tarefas de bordo, e não faria a menor diferença
se esse trabalho fosse para a Rússia como Estado independente ou
para a União Soviética. Em cada tarefa que desempenhamos
em órbita, por menor que seja, há centenas de cientistas
em terra que a respaldam. Toda a nossa concentração deve
estar voltada para os detalhes. Nosso cotidiano no espaço é
sobrecarregado de tarefas de monitoramento, experimentos, e não
há quase intervalos para assuntos pessoais, quanto mais para uma
reflexão política. Só depois pude avaliar melhor
o que acontecera. Na época, minha família e meus amigos
do controle me pouparam dos detalhes, não queriam interferir em
meu trabalho.
Veja Os americanos perderam até hoje dez astronautas
em seu programa espacial e todos são cultuados como heróis.
As tragédias do programa russo custaram a vida de centenas de cientistas
e técnicos cujos nomes foram mantidos sob sigilo e nunca tiveram
seu lugar na história. O senhor não lamenta isso?
Krikalev
Não posso concordar com você que essas vítimas não
sejam conhecidas ou não tenham um lugar em nossa história.
Houve muitas catástrofes e, mesmo no auge da Guerra Fria, em 1960,
grandes acidentes, como o que aconteceu na rampa de lançamento
em Baikonur, foram divulgados. Eu já visitei o monumento a essas
vítimas e depositei lá uma coroa de flores. Não eram
astronautas, mas, sim, técnicos e cientistas que estavam na rampa
quando a contagem regressiva foi disparada. Gagarin, por exemplo, também
morreu num treino, e não como astronauta, e foi enterrado como
herói soviético dentro dos muros do Kremlin. São
fatos notórios. É claro que, no nosso mundo de artistas
e celebridades, as pessoas não se interessam mais pelas tragédias
dos pioneiros do programa espacial. Pertencem a um tempo que hoje parece
muito remoto.
Veja Por que o governo soviético ainda tem tanta dificuldade
em falar a verdade, como se viu no episódio do afundamento do submarino
nuclear Kursk?
Krikalev
Assim
como aconteceu às vésperas dos ataques americanos contra
o Afeganistão, o afundamento do Kursk envolvia segredos
militares vitais da Rússia. Nenhum jornalista, por mais bem informado
que estivesse, podia afirmar ao certo quando e como os americanos iriam
atacar. No caso do Kursk, nos primeiros dias, reinou um verdadeiro
caos, e os responsáveis pela tragédia estavam fora do alvo
da imprensa. Apenas funcionários de segundo escalão apareceram,
pessoas que não sabiam de nada e que pioraram muito as coisas.
É uma prática habitual que, infelizmente, cerca os serviços
de segurança. Mas nos últimos anos isso vem mudando na Rússia
pela pressão da sociedade, que exige cada vez mais transparência
e abertura. Sabemos que houve enorme incompetência no caso do Kursk,
que resultou num desperdício monumental de vidas e recursos. A
sociedade soviética aprendeu com essa tragédia que precisa
haver transparência e o governo deve ser sempre questionado com
dureza. Nunca saberemos ao certo o que ocorreu, mas a opinião pública
está cada vez mais ativa na Rússia.
Veja Quando será viável uma expedição
tripulada a Marte?
Krikalev
Acho
que ainda não estamos preparados para esse desafio, tanto do ponto
de vista tecnológico quanto do social. É um empreendimento
tão grandioso que implica um estágio civilizatório
e de cooperação que não atingimos ainda. Mais cedo
ou mais tarde, nossa espécie terá de começar a pensar
em abandonar este planeta, e, ao que tudo indica, não temos opções
dentro de nosso sistema solar. É uma situação semelhante
à da Europa no século XV. A humanidade estava na margem
dos grandes oceanos e nem sequer sabia se poderia atravessá-los.
À época, parecia impossível descobrir e dominar outros
continentes. O mesmo se coloca agora na infância de nossa história
espacial. Viajaremos para outros planetas e para outras estrelas mais
cedo ou mais tarde. É um processo natural. No começo, parecia
que nossas possibilidades eram quase ilimitadas, mas logo se revelou quanto
esse caminho seria longo, caro e cheio de sacrifícios. Mas estou
convencido de que está inscrita na natureza do homem essa vocação.
Estamos aqui sentados nesta margem do oceano e sonhamos com a outra. Queremos
saber de qualquer maneira o que está do outro lado.
Veja Como é o Brasil visto do espaço?
Krikalev
É um verde intenso que depois contrasta com o azul do Atlântico.
A Floresta Amazônica é um continente inteiro. Outra situação
muito interessante de observar são as variações das
estações do ano e os contrastes entre o inverno e o verão
no hemisfério norte e no sul. São impressionantes. Mas o
efeito da devastação das florestas pelo desmatamento e pelas
queimadas é visível lá de cima.
Veja Vários astronautas do projeto Apollo se voltaram
para o misticismo depois de retornar da Lua. O espaço também
mudou sua vida?
Krikalev
Acho
que essa virada em direção ao misticismo e a busca de explicação
na religião são exceções. Seria exagero tomá-las
como modelo. A imensa maioria dos astronautas que conheço são
pessoas normais e de bom humor.
Veja Impactos catastróficos de meteoros, como o de
Tunguska, na Sibéria, que caiu em 1908, são um risco real
para o futuro da humanidade?
Krikalev
Se nós fomos capazes de manter a Mir em órbita por quinze
anos, também teríamos, em princípio, as condições
de desenvolver uma tecnologia para desviar um meteoro que caísse
sobre a Terra. Mas isso ainda não é possível. Precisamos
de novos computadores e programas de vigilância mais precisos. No
atual estágio, não podemos antecipar exatamente quais são
os corpos do cinturão de asteróides que nos ameaçam
mais diretamente.
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