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O empresário Franco Bruni: pagando acima da tabela |
| Foto: Oscar Cabral |
David
Copperfield
Surgido na Irlanda, o grupo U2 é capitaneado pelo
vocalista Bono Vox, 37 anos, uma das figuras mais
carismáticas
e narcisistas
do rock'n'roll atual. Pouco antes da estréia, ele
declarou que o espetáculo PopMart seria "o
show do milênio". Na estréia, em Las Vegas, o que
se acabou vendo foi um espetáculo de luzes e pirotecnia,
em que a banda acabou ofuscada, tentando levar seu
repertório até o final. Com o tempo, Bono Vox e seus
companheiros foram aprendendo a equilibrar o duelo com a
tecnologia. A batalha é dura. O palco mede 55 metros de
frente. Ao contrário de um palco comum, que tem o
chamado pano de fundo atrás dos músicos, traz a maior
televisão já construída. Não se trata de um telão, e
sim de um monitor de TV que mede 16 metros de altura (o
equivalente a um edifício de cinco andares) por 52
metros de comprimento, ocupando quase toda a largura do
palco. A tela foi desenvolvida especialmente para o show,
pesa 30 toneladas e se compõe de centenas de cristais em
formato triangular, cada um com cerca de 25 centímetros
de altura. Para interligar todos eles, são necessários
35 quilômetros de cabos. "O efeito é
hipnotizante", diz César Castanho, responsável
pela montagem do palco em São Paulo e que já colocou de
pé o show de Madonna no mesmo Morumbi, em 1993. Além de
tomadas feitas ao vivo durante o show, a TV exibe imagens
animadas, reproduzidas de pinturas assinadas pelos
artistas pop Andy Warhol, Roy Lichtenstein e Keith
Harring. Ao contrário do que acontece em todo show ao ar
livre, desta vez ninguém verá paredes de caixas
acústicas dos dois lados do palco. Caixas de som
especialmente desenhadas para a turnê ficam alojadas
acima do palco, numa semi-esfera cor de laranja que a
produção chama de cesta. Dali saem 80% do som. Sob o
palco, fora do alcance dos olhos do público, estão
embutidos outros alto-falantes. Torres espalhadas por
pontos estratégicos da platéia completam o sistema. Se
a TV gigante e o som inovador provocam forte impacto no
espectador, outros recursos fazem com que as surpresas
não fiquem por aí. Há até efeitos de puro
ilusionismo. Pouco antes da execução da música Lemon,
as luzes se apagam, os músicos desaparecem e, pouco
depois, surgem dentro de uma esfera de 12 metros de
diâmetro, que imita um limão, só que todo espelhado.
"É um equipamento digno de David Copperfield",
diz Castanho, referindo-se à parafernália que faz o
objeto se abrir, devolvendo os músicos ao palco.
O limão, as projeções de quadros da arte pop na TV, a cesta onde estão as caixas de som e um enorme arco dourado que se eleva do palco não apenas contribuem para tornar o espetáculo monumental. Estão ali para reforçar a intenção das músicas do disco atual. Com a turnê PopMart, nome que pode ser traduzido por "mercado pop", o U2 parece estar querendo dizer que a cultura de massa não é o lixo que se presume. Pode ser uma causa menor, para um grupo que se destacou no início dos anos 80 ao fazer a trilha sonora do conflito entre Irlanda e Inglaterra, chorando seus mortos em canções que se tornaram hinos de uma geração, caso de Sunday Bloody Sunday e Pride (In the Name of Love). Quando o U2 surgiu, o momento era outro, não só na música mas também na política. O movimento punk havia sacudido a Europa, escancarando em letras de protesto o desemprego que crescia entre os jovens da classe operária na Grã-Bretanha. Aquele tempo passou, mas as músicas que consagraram o U2 na época continuam agradando. No show brasileiro, elas comporão 65% do repertório do espetáculo. Apenas 35% é dedicado aos sucessos do novo disco.
Hambúrgueres
Muitos chamam o U2 de oportunista
pela facilidade com que muda de causa em função do
gosto do público. No final dos anos 80, resolveu que
queria fazer sucesso nos Estados Unidos. Incluiu no
repertório um gospel (I Still Haven't Found What I'm
Looking For, uma espécie de Imagine dos anos
80) e gravou com o guitarrista de blues B.B. King
(When Love Comes to Town). Agora, partiu para
conquistar a nova geração. O vocalista Bono Vox e o
guitarrista The Edge abriram uma discoteca no subsolo de
um hotel em Dublin. Perceberam o apelo que a música
feita por disc-jóqueis, para animar pistas de dança,
tem para os jovens de hoje
e compuseram as novas canções nesse estilo. Apesar de o
arco dourado que domina a fachada do palco parecer o
logotipo de uma conhecidíssima rede mundial de
lanchonetes, Craig Evans, da TNA, diz que a idéia de
fazer referência ao mundo dos hambúrgueres jamais
passou pela cabeça dos desenhistas que criaram o visual
do palco. Parece que passou, sim. A referência salienta
uma das idéias centrais do U2, que reduz a uma mesma
categoria sua própria música, a pintura de Andy Warhol
e aquilo tudo que pode encher um carrinho de
supermercado.
O U2 chega aqui
supervalorizado. O empresário Franco Bruni está
gastando mais do que precisaria para trazer os
irlandeses. "No início das negociações, o valor
girava em torno de 5,9 milhões de dólares. Só que
outros empresários, que também queriam trazer o show,
foram inflacionando o preço, numa espécie de
leilão", afirma Bruni, que acabou sendo forçado a
fechar o contrato por 8 milhões com a TNA. Os
empresários que entraram no leilão com ele são aqueles
que todo mundo conhece
Manoel Poladian, Dody Sirena e as irmãs Gardenberg, da
Dueto Produções. Bruni garante que só 20% do total
será pago por patrocinadores, cabendo aos ingressos (que
custam entre 30 e 175 reais) completar a arrecadação.
Para sair com algum lucro da empreitada, Bruni terá de
esgotar os ingressos. Até agora, já foram vendidos
122000 em São Paulo e 56000 no Rio de Janeiro (a
capacidade do Autódromo de Jacarepaguá, onde se
realizará o show, é de 113000 pessoas).

A princípio, o
show se realizaria no Maracanã. Segundo o empresário, o
lugar foi mudado porque seus portões são estreitos
demais
não seria possível
passar o equipamento por eles. Correu na semana outra
versão segundo a qual a troca se deu por questões
financeiras
o empresário não queria adiantar os 400000 reais do
aluguel do estádio. No Autódromo de Jacarepaguá, ele
pagará uma porcentagem da arrecadação. Para baratear
seus já altíssimos custos, Bruni também entrou com um
pedido de isenção do ISS junto aos governos municipais,
que morderiam 5% da receita. Em São Paulo, seu pedido
foi vetado pelo prefeito Celso Pitta. No Rio de Janeiro,
ele ainda aguardava o resultado na semana passada. Quem
acabará pagando a conta será o público, que terá de
comprar o ingresso mais caro dos últimos tempos em shows
no Brasil (veja
quadro).
Quem não tiver dinheiro para desembolsar 50 reais por um
lugar em pé na pista poderá assistir ao show pela
televisão no dia 31
quando a MTV mostrará o maior espetáculo de rock dos
dias atuais ao vivo para o Brasil inteiro, exceto São
Paulo e Rio de Janeiro. Essas duas capitais só verão os
shows se os ingressos estiverem esgotados.
Copyright © 1997, Abril
S.A. |