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Novelas ianques

Seriados americanos: o que há
de novidade,
o que há de curioso,
o que há de incrível

Marcelo Marthe

Divulgação
Divulgação
Os ousados programas Família Soprano e Os Assumidos: mafiosos com charme e gays na TV

Em abril, quando o Ibope lançou a primeira medição de audiência da TV paga, constatou-se que os seriados americanos estão entre as opções prediletas dos assinantes brasileiros. Três canais que detêm um latifúndio nesse tipo de programação – Sony, Fox e AXN – garantiram seu lugar na lista dos mais vistos. Agora, já existe um ranking mensal para as atrações do gênero (veja quadro abaixo). Uma das curiosidades do último levantamento é que cinco programas adolescentes, incluindo o atual líder de audiência, Buffy: a Caça-Vampiros, despontam entre os dez primeiros. Dois outros, That 70's Show e Friends, fazem a cabeça da moçada na faixa dos 20 aos 30 e tantos anos. Por fim, há três com algum apelo mórbido ou sombrio: Arquivo X, E.R. e C.S.I. Mas esses dez seriados são apenas a ponta de um iceberg composto de mais de 150 atrações, de todos os tipos e padrões de qualidade. Os canais pagos reabriram a janela para o fabuloso universo dos seriados produzidos nos Estados Unidos – uma janela que as grandes redes tinham fechado parcialmente nos anos 80 e 90. Só recentemente, ao perceber que tais programas estão dando audiência na televisão a cabo, é que as emissoras abertas voltaram a dar tímidos sinais de interesse por esses produtos. A melhor iniciativa foi da Record, que vem exibindo Seinfeld aos sábados – e com legendas.


Até hoje, a maioria dos seriados recicla fórmulas básicas surgidas nos anos 50. A principal delas é a da sitcom – a típica comédia de situação americana, que satiriza os costumes da classe média das metrópoles. A exploração à exaustão dessa receita de humor deu origem a uma expressão pejorativa, os "enlatados". Hoje, entretanto, ela já não faz tanto sentido. Lógico que há muita coisa sem qualidade, como o chatíssimo humorístico The Geena Davis Show. Mas os produtores não têm hesitado em revirar as velhas fórmulas pelo avesso. É o caso da Família Soprano, da HBO, que tritura num liquidificador os clichês dos dramas de família e dos filmes de gângsteres, com resultado absolutamente original. Mesmo Buffy faz sucesso alternando bobagens sobrenaturais com ousadias – como criar um par de bruxinhas adolescentes lésbicas.


Reuters
Whedon, a mente por trás de Buffy: "Na TV fico livre de diretores estúpidos"


O que permite que os produtores explorem um leque amplo de possibilidades é o fato de os seriados terem públicos bem diversificados. Ao contrário das telenovelas brasileiras, direcionadas para a família inteira, da vovó ao netinho, os seriados são feitos de olho em nichos. Também há programas família, é claro, mas proliferam opções para os adolescentes, os trintões ou mesmo para a comunidade gay, como a apimentada comédia dramática do Cinemax Os Assumidos. É um universo que movimenta bilhões de dólares todos os anos. Para se ter idéia, um único capítulo de E.R. pode custar mais de 6 milhões de dólares. Com tanto dinheiro na jogada, é natural que haja concorrência brava. A cada temporada, novas produções que não decolam no ibope são prontamente substituídas. E, ao menor sinal de esgotamento, as séries antigas viram alvo de boataria. A bola da vez é Friends, cujo final de temporada será exibido no Brasil nesta terça-feira. No ar desde 1994, e assistido por mais de 20 milhões de pessoas, o seriado teria apenas mais um ano de sobrevida. Os motivos seriam o astronômico cachê dos seis protagonistas (750.000 por capítulo) e o fato de que eles se voltam cada vez mais para as suas carreiras no cinema.

Os seriados são uma ponte para os atores chegarem a Hollywood, mas o inverso também ocorre: muita gente talentosa é atraída para esse mercado. Os bons roteiristas, por exemplo. Humorísticos como Seinfeld (Sony) ou Titus (Fox) disparam em média uma piada a cada dez ou quinze segundos. Quer dizer: numa sitcom de meia hora, são 150 tiradas engraçadas ou 3.000 por temporada de vinte episódios. Não é mole ter tanta criatividade. "Na televisão, temos mais autonomia do que no cinema, e ainda ficamos livres dos diretores estúpidos", disse a VEJA o criador de Buffy e Angel, o californiano Joss Whedon, que foi para a TV depois de uma experiência frustrada na telona. A fauna dos roteiristas é tão variada quanto as próprias atrações concebidas por eles. Aaron Sorkin, autor de The West Wing, que trata do cotidiano do presidente americano de forma para lá de sóbria, é o doidão do pedaço. Em abril, foi preso num aeroporto por porte de cocaína, maconha e cogumelos alucinógenos. Na semana passada, diante do juiz, ele jurou que vai fazer um tratamento para dependência de drogas. Na outra ponta está o certinho David E. Kelley, o mais bem-sucedido do ramo. Ele é o criador de seis séries, três das quais são sucesso nos Estados Unidos atualmente: Ally McBeal, O Desafio e Boston Public. Diz a lenda que Kelley escreve a mão, ainda hoje, cada capítulo de Ally McBeal – ao contrário da maioria dos autores, que dão à luz o programa e depois o deixam sob os cuidados de colaboradores. Embora seja viciado em trabalho, Kelley larga o batente pontualmente às 6 da tarde, para encontrar a mulher e os dois filhos em casa. É compreensível: sua patroa é ninguém menos do que a loiraça Michelle Pfeiffer.

 
Veja também
da internet
  Friends (em inglês)
  E.R. (em inglês)
  3rd Rock From de Sun
  Dawson's Creek
  Felicity
  Spin City
  That 70's Show
  The King of Queens
  Will and Grace
  Becker
  Everbody Loves Raymond

 

   
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