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Bem costurado

O diretor John Boorman renova
o filme de espionagem com
O Alfaiate do Panamá

Isabela Boscov

Columbia Pictures
Brosnan e Rush: como em Casablanca, mas sem heróis


O fim da Guerra Fria, dizia-se, seria a sentença de morte para as tramas de espionagem, que vicejaram à custa da inimizade entre americanos e soviéticos. Mas a verdade é que os negócios continuam de vento em popa nesse setor. Basta conferir O Alfaiate do Panamá (The Tailor of Panama, Estados Unidos/Irlanda, 2001), que se baseia num livro de 1996 do inglês John Le Carré e estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro. O personagem que dá título ao filme é Harry Pendel, um inglês que aprendeu seu ofício na prisão e, ao sair dela, decide reinventar-se. Anunciando-se como um profissional treinado na melhor tradição londrina, ele se muda para a Cidade do Panamá e estabelece uma alfaiataria de prestígio, freqüentada pelos poderosos locais. Harry é a presa ideal para Andrew Osnard, um espião britânico que acaba de ser despachado para a América Central como punição por seu mau comportamento. Osnard sabe que Harry tem acesso a todo tipo de fofoca e indiscrição – e sabe também que ele fará de tudo para manter seu passado em segredo. Pois faz mesmo, inclusive inventar quantas lorotas forem necessárias para abastecer seu algoz. Dessa mistura entre excesso de imaginação (por parte de Harry) e falta de escrúpulos (por parte de Osnard) surgirá uma confusão internacional, que tem como pivô o Canal do Panamá.

Esse enredo, por si só original, rende um dos mais respeitáveis filmes de espionagem dos últimos anos nas mãos do diretor inglês John Boorman. Não é de estranhar. Boorman é um cineasta famoso por não se filiar a nenhum gênero, e mais famoso ainda por se sair com pequenos – ou grandes – clássicos em quase todos os gêneros em que se lança, do suspense noir (À Queima-Roupa) ao drama (Amargo Pesadelo) e a fantasia (Excalibur). Aqui, ele mostra a que veio desde a escalação do elenco. O australiano Geoffrey Rush imprime um curioso misto de inteligência e subserviência ao personagem do alfaiate, enquanto Pierce Brosnan se diverte virando pelo avesso sua imagem de James Bond. O espião que ele interpreta é tão sedutor quanto o 007 (e também adora trocadilhos, só que bem mais apimentados), mas não passa de um aproveitador. Aliás, uma das qualidades de O Alfaiate do Panamá é não acreditar que, nesse ramo de atividade, existam pessoas melhores ou piores. São todas ruins – apenas mais ou menos simpáticas. Como diz o alfaiate Harry ao espião Osnard, "bem-vindo ao Panamá. Isto aqui é como Casablanca – só que sem heróis".

   
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