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O símbolo troca de mãosSem-terra
vão assumir metade
Adriano Ceolin, de Ponta Porã
Nos últimos trinta anos, a Fazenda Itamarati do empresário Olacyr de Moraes foi um símbolo nacional da agricultura moderna. Combinando tecnologia de ponta e técnicas inovadoras de administração, a Itamarati acostumou-se a bater recordes. Nos anos 80, ficou conhecida como a maior plantação de soja do mundo. Na década de 90, registrou a segunda maior produção brasileira de algodão. Ainda hoje, é recordista nacional na produção de milho. Outra característica marcante do empreendimento diz respeito ao uso de uma técnica inovadora para irrigação de grandes áreas e à preocupação com a pesquisa. A Itamarati montou um dos primeiros laboratórios agrícolas do país. Os estudos científicos ali realizados resultaram na criação de mais de 100 variedades de soja, algumas entre as mais produtivas do mundo. A partir do mês que vem essa fazenda deixa de ser símbolo de modernidade para se transformar num símbolo de experiência social. Por decisão do governo, metade de sua área será entregue a 1.300 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a três outras organizações de trabalhadores rurais. É isso mesmo. O Ministério do Desenvolvimento Agrário inicia nos próximos dias um projeto de assentamento no pedaço de terra mais produtivo do país. O Brasil do passado acreditava que a redenção do país tinha uma de suas colunas de sustentação mais fortes na agricultura. O raciocínio talvez fizesse sentido num país que, na década de 60, tinha 55% da população vivendo no campo. A taxa atual é 18%. Aumentando a produção de alimentos, seria possível combater a miséria, reduzir o desemprego e melhorar as exportações e as contas públicas. O governo militar lançou então um projeto ambicioso de incentivo à produção. Os beneficiados eram grandes empresários atraídos por um chamariz irresistível: crédito farto e juros subsidiados. Quando o Brasil entrou em crise e o dinheiro fácil secou, o projeto oficial de financiar o campo chegou ao fim. Uma boa parte dos fazendeiros foi a pique. A agricultura só reencontrou seu caminho quando a iniciativa privada deixou de esperar pela ajuda estatal e investiu em aumento de produtividade. Seus negócios começaram a ruir quando ele decidiu construir a Ferronorte, ferrovia para ligar o Centro-Oeste ao Porto de Santos, no final da década de 80. O projeto que já gastou 1,2 bilhão de dólares seria tocado com ajuda estatal. Desandou quando o governo não entrou com sua parte. Para iniciar a obra, o empresário sacou 200 milhões de dólares de recursos próprios e tomou outros 200 milhões emprestados em bancos. Com dívidas, seu império se transformou numa máquina de fazer prejuízos. Seu banco, o Itamarati, começou a causar preocupação e teve de ser vendido. Por fim, em meados dos anos 90, mais de 2.200 grandes obras públicas foram paralisadas, outro golpe no império de Olacyr, que era proprietário da empreiteira Constran, uma das maiores na ocasião. Em cinco anos, o empresário perdeu 1,2 bilhão de dólares. "Paguei o preço por ter feito um empreendimento grandioso", diz. Para tentar cobrir parte de suas dívidas, Olacyr ofereceu a fazenda inteira ao governo por 300 milhões de reais. Brasília não aceitou. Um ano depois ele precisou entregá-la ao banco Itaú para garantir o pagamento de dívidas. Desde então o banco vinha tentando achar interessados no negócio. Não apareceram ofertas sérias. Primeiro porque a Itamarati é colossal. Na região onde está localizada, os maiores negócios com fazendas giram em torno de 5 milhões de reais. Além disso, pesou o fato de o mercado de terras ter esfriado muito em Mato Grosso do Sul desde que o Estado se tornou campeão no ranking de fazendas invadidas pelos sem-terra. Sem achar interessados, o Itaú procurou o governo com uma oferta melhor: entregaria metade das terras da fazenda por 27 milhões de reais. O dinheiro será pago em quinze anos com títulos da dívida agrária, as tais TDAs. Só foram negociadas as terras e a parte do equipamento de irrigação que não pôde ser removida. O resto da estrutura permanece na metade da fazenda que ainda pertence a Olacyr. São quase 300 veículos e edificações. Há uma vila com posto médico, escola, 370 casas e uma pista de pouso asfaltada. No ano passado esse colosso gastou mais de 1,5 milhão de reais só em energia elétrica. Mais 15 milhões foram empregados em sementes, colheita e na manutenção de equipamentos.
Os sem-terra, novos donos de metade da Itamarati, dificilmente conseguirão manter-se na condição de recordistas de produtividade nem é para isso que serão colocados lá. O projeto de assentamento do governo visa muito mais a dar assistência ao lavrador e sua família, através de um pedaço de chão para plantar, do que propriamente criar colônias especialmente produtivas entre os sem-terra. Os novos agricultores da bandeira vermelha vão entrar no empreendimento totalmente despreparados para lidar com o aparato que equipa a fazenda e sem dinheiro para fazê-lo funcionar. Uma família assentada pelo programa de reforma agrária ganha um lote de 20 hectares em média e um crédito de 20.000 reais para construir sua casa, comprar equipamentos e sementes e começar uma plantação. Os futuros moradores da Itamarati estão diante de uma situação curiosa: enquanto a grande questão da agricultura é como mecanizar a produção a fim de obter mais produtividade e mais lucro, eles estão discutindo como fazer o caminho de volta, ou seja, como tocar a Itamarati com poucas máquinas e parcos recursos. O líder sem-terra Izaltino de Oliveira resume o que está em questão: "Vamos ter de trocar o trator pela enxada e esperar a irrigação do céu". Os sem-terra estão discutindo sobre dois modelos diferentes. Um grupo quer criar uma vila rural e montar uma cooperativa para explorar a fazenda e empregar os assentados. Nesse modelo, a propriedade pode ser trabalhada como se fosse uma espécie de latifúndio coletivo. Outro grupo quer retalhar a fazenda e dividi-la em lotes. Nesse desenho, cada família tocaria sua produção, individualmente. A escolha é difícil, mas a cooperativa parece ser a única forma de tirar o máximo da fazenda. Contudo, 90% das cooperativas criadas nessa situação fracassaram porque as famílias envolvidas não se adaptaram ao modelo. O lote individual comporta outro tipo de risco. Estudos mostram que só em 30% dos casos as famílias melhoraram de vida. Com a discussão empacada, os sem-terra se viram em uma enrascada. Eles têm menos de dois meses para começar o plantio, sob risco de perder a próxima safra. Foram pedir a ajuda de Olacyr. Querem que ele cuide da fazenda por mais alguns meses. Imagine: os radicais do MST foram pedir auxílio ao pioneiro da modernização capitalista na área rural.
Assim que decidirem o que vão fazer, os sem-terra terão muito trabalho se quiserem repetir a história de sucesso da Itamarati. A fazenda original, da qual ganharam a metade, só é comparável a outras dez existentes no Brasil por causa de suas dimensões e de sua grande capacidade de produção. "Todo mundo aprendeu com a Itamarati e seguiu seus passos", diz Blairo Maggi, maior produtor de soja da atualidade. Graças ao impulso dado pela Itamarati, a área cultivada de soja no cerrado passou de 4.000 hectares no começo da década de 70 para mais de 3 milhões de hectares. Embora financiados
com dinheiro público, os sem-terra nunca prestaram contas de sua
produção. Alegam que suas terras são as piores e
mais distantes, de modo que qualquer comparação é
imprópria. Eles têm razão, mas esse argumento não
fará mais sentido. A metade da Itamarati que eles receberam tem
25.000 hectares de terreno plano, irrigado
e adubado. Daqui a alguns anos, assim que os novos ocupantes da Itamarati
construírem suas casas e começarem a produzir, a sociedade
terá uma grande oportunidade para avaliar o modelo de produção
agrícola defendido pelo MST.
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