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Virada portenha
A
desvalorização do peso no comércio
externo revela que paridade já não
é tabu na Argentina
AFP/Marcos Adandia
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| Christian
Colombo, chefe de gabinete, Cavallo e o presidente De la Rúa: pacote |
A última
segunda-feira foi de grande suspense para quem observa o cenário
econômico internacional. Era feriado na Argentina e o governo acabara
de decretar um pacote de medidas que, na prática, promoveu uma
semidesvalorização do peso supostamente uma heresia.
O pacote, no entanto, foi bem recebido pelos argentinos. O Congresso,
que defendia ferrenhamente o princípio constitucional da paridade
cambial, aprovou a desvalorização do peso nas operações
de exportação e importação. Depois de um fim
de semana conturbado por manifestações de desempregados,
o país experimentou dias tranqüilos. "Para quem não
tem nada, qualquer movimento é bem-vindo", explica Gustavo Segre,
diretor de exportação da Província de Buenos Aires.
"Os negócios deverão ganhar algum fôlego."
A situação
da Argentina é difícil. A economia está encolhendo
há quase três anos. O desemprego atinge 15% da população
em idade de trabalhar e os protestos contra a falta de vagas têm
pipocado por todo o país. Na Província de Salta, onde a
taxa de desemprego supera 50%, houve quebra-quebra e a polícia
matou dois manifestantes. O déficit em conta corrente (que inclui
o resultado da balança comercial, pagamento de juros de empréstimos
externos, gastos com turismo, fretes e pagamentos de royalties, entre
outras coisas) está na casa dos 3,7% do PIB. As vendas de automóveis
despencaram 55% em maio em relação ao mesmo mês de
2000, e a produção de veículos caiu à metade
em dois anos. Em síntese, o país está atolado. Mas
há espaço para a esperança.
AFP
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| Manifestação
na Província de Salta, na segunda-feira: desemprego de mais de 50% |
Acontece
que, até agora, não se admitia a possibilidade de desvalorização
do peso porque se sabia que as empresas e a população em
geral tinham uma enorme dívida em dólar. Se o câmbio
fosse liberado, para facilitar a exportação, todos quebrariam.
O que se está verificando hoje, pelos números divulgados
pelo Banco de la Nación e pelo Ministério da Economia, é
que o risco de quebradeira não é assim tão grande.
Os argentinos têm seu patrimônio protegido. Hoje, 63% de sua
poupança está em dólares. Os endividados andam pagando
seus papagaios. A dívida privada, em dólares, caiu de 42
bilhões em 1999 para 38 bilhões neste mês. "Isso permite
que a ruptura do laço que amarra o peso ao dólar seja menos
custosa", diz Karolina Albuquerque, economista da consultoria Tendências.
O Brasil deve torcer para que tudo se resolva no vizinho do sul.

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