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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Um balde de água
fria
na fervura

O governo eleva juros, vende
dólares e adia pagamentos para
conter a especulação contra o real

Denise Ramiro

As chamas que ardiam debaixo do caldeirão da economia brasileira chegaram a um nível tão alto, na semana passada, que o governo decidiu jogar um balde de água fria na fogueira. Os juros básicos do Banco Central subiram 1,5 ponto porcentual. A taxa está em 18,25% ao ano. O BC vendeu dólares pela terceira vez no mês. Foram entre 200 e 400 milhões de dólares em poucos minutos. Com isso, quem temia que o Brasil perdesse o rumo e se deixasse abater pela crise argentina, pela paralisia americana, pela perspectiva de um colapso no fornecimento de energia elétrica e pela incerteza a respeito da sucessão presidencial caiu na real. Pelo menos, na semana passada, já que o futuro é imprevisível com os dados disponíveis no presente. Os especuladores que vinham apostando contra o real e fizeram o dólar esbarrar nos 2,50 reais na quarta-feira recuaram. Na quinta-feira, a cotação da moeda americana caiu para 2,38 reais. Na sexta-feira, estava em 2,31 reais.

A reação era esperada. De maneira geral, não há razão concreta para o pânico que se estava instalando. O único indicador brasileiro que anda mal é o déficit em transações correntes, aquele que indica quantos dólares o país está enviado ao exterior além do que está recebendo. O déficit bateu em 5,2% do PIB no primeiro quadrimestre. É muito. Os economistas consideram razoável um índice negativo de até 3%. Quando ele despenca, os investidores começam a temer um calote. Mas o temor demonstrado foi exagerado. Isso porque, além desse fator negativo mas não aterrorizante, tudo vai bem. A inflação está sob controle, a taxa de desemprego caiu 1 ponto porcentual no último ano e o PIB cresceu 4% no primeiro trimestre. "A intervenção no câmbio continuará a acontecer sempre que houver exagero na cotação ou no caso de o mercado financeiro estar seco de dólares", disse o presidente do Banco Central, Armínio Fraga.

Há um fenômeno interessante acontecendo no mundo. As teorias econômicas tradicionais já não conseguem explicar todo o movimento que ocorre nos mercados. Ultimamente, quem estuda o comportamento dos agentes econômicos tem buscado socorro nos compêndios de psicologia. "Algo há por aí nas profundezas de nossas almas nacionais a demandar análise psicológica", diz Luiz Felipe de Seixas Corrêa, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores.

Segundo essa análise, o Japão está completando onze anos de estagnação econômica porque os japoneses, desconfiados e inseguros, se recusam a consumir. Os americanos, endividados, estão preferindo recolher-se ao recôndito dos lares a passear em shopping centers, por precaução, e por isso a produção industrial do país caiu 0,8% em maio, se comparada com a do mês anterior. A característica psicológica que marca os investidores internacionais é a afoiteza. A qualquer sinal de fraqueza, eles atacam sem dó. Vinham atacando o Brasil. Os brasileiros sempre foram conhecidos como acomodados e conformistas. Se o país continuasse nessa linha, sucumbiria. "Neste momento, era preciso dar um sinal mais firme. Acreditamos que nossa resposta aos especuladores foi clara e forte", disse Fraga na quinta-feira.

A reação do BC tem um custo. Para segurar o câmbio, o país sacará, nesta semana, 2 bilhões de dólares das reservas disponibilizadas pelo Fundo Monetário Internacional. Também terá de tomar mais empréstimos no exterior. E já adiou o pagamento de 1,8 bilhão de dólares ao FMI, relativo a um empréstimo com quitação no fim do ano. Sem falar na dívida interna, que aumenta com os juros, e no freio imposto ao crescimento econômico. O interessante é que os maiores prejudicados com tudo isso são as empresas. As mesmas que, segundo os operadores de mercado, especulavam contra o real. Conclusão: elas fizeram um péssimo negócio.

 

Nem tudo é notícia ruim

Apagão, alta dos juros, dólar disparando, crise na vizinha Argentina. Um cenário desse porte poderia ser motivo de desconfiança para qualquer empresário estrangeiro disposto a investir no Brasil. Nada disso, porém, foi capaz de abalar o bom resultado do leilão dos blocos de exploração e produção de petróleo, realizado pela Agência Nacional do Petróleo na semana passada. Em dois dias, quase 600 milhões de reais entraram nos cofres do governo. Boa parte desse dinheiro veio de companhias multinacionais que pagaram alto para garantir um lugar ao sol no concorrido mercado brasileiro. No ano passado, 35 empresas do setor de petróleo e gás estavam em atuação no país. Agora, após o leilão, já são 42. Dos 53 blocos de exploração oferecidos, 34 foram arrematados, alguns com ágio de mais de 6.000%. Até a gigante Petrobras enfrentou pela primeira vez a concorrência de empresas estrangeiras de menor porte, que faturaram pontos importantes, como bacias no Espírito Santo e em Santos.

Pode parecer estranho tanto apetite em um momento de incerteza na economia brasileira. Não há nada de extraordinário. Os problemas que o país enfrenta, especialmente a crise energética, são de curto prazo. Já os objetivos da indústria do petróleo são sempre de longo alcance. Prova disso é que, entre as seis empresas que mais investiram para arrecadar blocos de exploração de petróleo, cinco são estrangeiras. Na verdade, a abertura do mercado brasileiro, em 1997, mostrou que essas companhias só estavam esperando o sinal verde do governo. No leilão anterior, realizado no ano passado, foram arrecadados 468 milhões de reais. De lá para cá, houve crescimento de quase 30%. Outro dado positivo foi o aparecimento do Nordeste como nova fronteira para exploração de petróleo. No leilão da semana passada, foram oferecidas nove áreas na região. Oito delas acabaram arrematadas.

 

 
 
Fraga: "Demos uma resposta clara e forte"

 

   
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