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Um balde de água
fria na fervura
O
governo eleva juros, vende
dólares e adia pagamentos para
conter a especulação contra o real
Denise Ramiro
As
chamas que ardiam debaixo do caldeirão da economia brasileira chegaram
a um nível tão alto, na semana passada, que o governo decidiu
jogar um balde de água fria na fogueira. Os juros básicos
do Banco Central subiram 1,5 ponto porcentual. A taxa está em 18,25%
ao ano. O BC vendeu dólares pela terceira vez no mês. Foram
entre 200 e 400 milhões de dólares em poucos minutos. Com
isso, quem temia que o Brasil perdesse o rumo e se deixasse abater pela
crise argentina, pela paralisia americana, pela perspectiva de um colapso
no fornecimento de energia elétrica e pela incerteza a respeito
da sucessão presidencial caiu na real. Pelo menos, na semana passada,
já que o futuro é imprevisível com os dados disponíveis
no presente. Os especuladores que vinham apostando contra o real e fizeram
o dólar esbarrar nos 2,50 reais na quarta-feira recuaram. Na quinta-feira,
a cotação da moeda americana caiu para 2,38 reais. Na sexta-feira,
estava em 2,31 reais.
A reação era esperada. De maneira geral, não há
razão concreta para o pânico que se estava instalando. O
único indicador brasileiro que anda mal é o déficit
em transações correntes, aquele que indica quantos dólares
o país está enviado ao exterior além do que está
recebendo. O déficit bateu em 5,2% do PIB no primeiro quadrimestre.
É muito. Os economistas consideram razoável um índice
negativo de até 3%. Quando ele despenca, os investidores começam
a temer um calote. Mas o temor demonstrado foi exagerado. Isso porque,
além desse fator negativo mas não aterrorizante, tudo vai
bem. A inflação está sob controle, a taxa de desemprego
caiu 1 ponto porcentual no último ano e o PIB cresceu 4% no primeiro
trimestre. "A intervenção no câmbio continuará
a acontecer sempre que houver exagero na cotação ou no caso
de o mercado financeiro estar seco de dólares", disse o presidente
do Banco Central, Armínio Fraga.
Há um fenômeno interessante acontecendo no mundo. As teorias
econômicas tradicionais já não conseguem explicar
todo o movimento que ocorre nos mercados. Ultimamente, quem estuda o comportamento
dos agentes econômicos tem buscado socorro nos compêndios
de psicologia. "Algo há por aí nas profundezas de nossas
almas nacionais a demandar análise psicológica", diz Luiz
Felipe de Seixas Corrêa, secretário-geral do Ministério
das Relações Exteriores.
Segundo essa análise, o Japão está completando onze
anos de estagnação econômica porque os japoneses,
desconfiados e inseguros, se recusam a consumir. Os americanos, endividados,
estão preferindo recolher-se ao recôndito dos lares a passear
em shopping centers, por precaução, e por isso a produção
industrial do país caiu 0,8% em maio, se comparada com a do mês
anterior. A característica psicológica que marca os investidores
internacionais é a afoiteza. A qualquer sinal de fraqueza, eles
atacam sem dó. Vinham atacando o Brasil. Os brasileiros sempre
foram conhecidos como acomodados e conformistas. Se o país continuasse
nessa linha, sucumbiria. "Neste momento, era preciso dar um sinal mais
firme. Acreditamos que nossa resposta aos especuladores foi clara e forte",
disse Fraga na quinta-feira.
A reação do BC tem um custo. Para segurar o câmbio,
o país sacará, nesta semana, 2 bilhões de dólares
das reservas disponibilizadas pelo Fundo Monetário Internacional.
Também terá de tomar mais empréstimos no exterior.
E já adiou o pagamento de 1,8 bilhão de dólares ao
FMI, relativo a um empréstimo com quitação no fim
do ano. Sem falar na dívida interna, que aumenta com os juros,
e no freio imposto ao crescimento econômico. O interessante é
que os maiores prejudicados com tudo isso são as empresas. As mesmas
que, segundo os operadores de mercado, especulavam contra o real. Conclusão:
elas fizeram um péssimo negócio.
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Nem
tudo é notícia ruim
Apagão, alta dos juros, dólar disparando, crise na
vizinha Argentina. Um cenário desse porte poderia ser motivo
de desconfiança para qualquer empresário estrangeiro
disposto a investir no Brasil. Nada disso, porém, foi capaz
de abalar o bom resultado do leilão dos blocos de exploração
e produção de petróleo, realizado pela Agência
Nacional do Petróleo na semana passada. Em dois dias, quase
600 milhões de reais entraram nos cofres do governo. Boa
parte desse dinheiro veio de companhias multinacionais que pagaram
alto para garantir um lugar ao sol no concorrido mercado brasileiro.
No ano passado, 35 empresas do setor de petróleo e gás
estavam em atuação no país. Agora, após
o leilão, já são 42. Dos 53 blocos de exploração
oferecidos, 34 foram arrematados, alguns com ágio de mais
de 6.000%. Até a gigante Petrobras enfrentou pela primeira
vez a concorrência de empresas estrangeiras de menor porte,
que faturaram pontos importantes, como bacias no Espírito
Santo e em Santos.
Pode parecer estranho tanto apetite em um momento de incerteza na
economia brasileira. Não há nada de extraordinário.
Os problemas que o país enfrenta, especialmente a crise energética,
são de curto prazo. Já os objetivos da indústria
do petróleo são sempre de longo alcance. Prova disso
é que, entre as seis empresas que mais investiram para arrecadar
blocos de exploração de petróleo, cinco são
estrangeiras. Na verdade, a abertura do mercado brasileiro, em 1997,
mostrou que essas companhias só estavam esperando o sinal
verde do governo. No leilão anterior, realizado no ano passado,
foram arrecadados 468 milhões de reais. De lá para
cá, houve crescimento de quase 30%. Outro dado positivo foi
o aparecimento do Nordeste como nova fronteira para exploração
de petróleo. No leilão da semana passada, foram oferecidas
nove áreas na região. Oito delas acabaram arrematadas.
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