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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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ENTREVISTA

Inteligência é conhecer a si mesmo

O estudioso dos mecanismos da consciência fala
sobre a evolução da capacidade mental


Divulgação

ANTÔNIO DAMÁSIO
O neurologista português
é um dos maiores pesquisadores da mente humana


Professor da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, o neurologista português António Damásio divide com o inglês Oliver Sacks o título de grande estudioso da mente humana, com uma vantagem para o público leigo: os dois são capazes de traduzir o que descobrem em linguagem coloquial. Damásio especializou-se na consciência, a função mental que dá às pessoas a sensação de serem únicas no mundo e, portanto, permite o reconhecimento da existência do outro. Para Damásio, a fronteira final do estudo da inteligência será alcançada quando se desvendar a maneira pela qual a mente aprende a aprender. Abaixo, a entrevista concedida a Denise Ramiro, de VEJA.

Veja – Considerando que o computador disponibiliza uma enorme riqueza de imagens e informações, comparando as pessoas de hoje com as de vinte anos atrás pode-se dizer que hoje há mais inteligência?
Damásio –
O meio muito rico em que vivemos atualmente, com televisão, cinema e computador, leva nosso cérebro a ter uma agilidade maior. Mas isso não é tudo. Ao mesmo tempo que a tecnologia permite que as pessoas tenham acesso a maior volume de informações, pode inibir a capacidade de decisão e de imaginação. É preciso, portanto, aprender a lidar com as novidades para que elas sejam bem aproveitadas.

Veja – Por que os testes de QI estão voltando?
Damásio –
O teste tradicional de medida do quociente de inteligência, o QI, é expressão de uma capacidade geral de inteligência. Ele é especialmente útil se se considerar que a maior parte das pessoas que sobressaem num tipo específico de inteligência (emocional, artística ou motora, por exemplo) tem também um QI elevado. Isso porque toda a atividade humana é resultado de uma combinação de fatores intelectuais e emocionais. Ou seja, a sensibilidade é muito importante, mas a capacidade de raciocínio, que está ligada à inteligência, também tem um enorme papel a desempenhar.

Veja – Existe uma fórmula para garantir que os filhos sejam inteligentes e bem-sucedidos?
Damásio –
Não há uma fórmula, mas existem algumas regrinhas básicas. Garantir que a criança tenha boa saúde, desde a gestação, é fundamental. Depois, é importante oferecer um ambiente de carinho e que seja rico e estimulante, do ponto de vista intelectual e emocional. Com isso, a criança poderá desenvolver sua inteligência e terá mais chances de ser feliz.

Veja – Estão no cérebro as razões do sucesso ou insucesso das pessoas?
Damásio –
As características físicas do cérebro ajudam a determinar o destino das pessoas, sua possibilidade de ser feliz ou infeliz. Mas não é só isso. O destino também é resultado do meio social e cultural em que nos desenvolvemos. A maneira como as pessoas enfrentam a vida e os resultados que obtêm é conseqüência de uma combinação de fatores biológicos, que vêm de nossa estrutura física cerebral, e culturais, que têm a ver com a forma como cada um de nós se desenvolveu na estrutura familiar, escolar e social no sentido mais amplo. Sou totalmente contra a idéia de que tudo aquilo que somos é determinado pela carga genética que carregamos e pela nossa estrutura física.

Veja – O que ocorre em nosso cérebro que nos faz tomar conhecimento do que acontece no mundo?
Damásio –
São os mecanismos da consciência de que trato no meu livro O Mistério da Consciência. Nosso cérebro elabora uma construção não só das imagens do que acontece no mundo, mas também da nossa própria imagem. É através dessa imagem, que relaciona corpo e objeto, que vamos construir o sentido da consciência, o sentido do próprio e a capacidade que temos de conhecer aquilo que acontece à nossa volta.

Veja – As pessoas costumam achar que decidem e pensam melhor quando estão de cabeça fria, livres de emoções. Esta é uma impressão correta?
Damásio –
É uma impressão totalmente errada. As emoções são extraordinariamente importantes no processo de decisão. A emoção faz parte do mecanismo neurológico da decisão.

 

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